Um viva às pequenas cidades!

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Menos caipiras, mais urbanos. Faz tempo que o pessoal do asfalto tornou-se mais numeroso do que o povo do campo, em todo o planeta. A propaganda em cima das vantagens de morar na grande cidade foi sempre muito bem feita. O viver em metrópoles ou em cidades que estão no trilho dos grandes centros urbanos carrega uma simbologia ou status de gente mais “culta”, mais antenada, mais cheia de oportunidades, mais esperta, mais estudada, mais, mais, mais.

E, assim, por mais que o cotidiano mostre as agruras dos grandes deslocamentos até o trabalho, ou os índices de violência e de poluição, a falta de áreas verdes, os desafios para a saúde, sem falar na sensação (nada rara) de esfriamento das relações sociais (por causa do anonimato gerado pela escala que, em muito, ultrapassou os limites do que podemos considerar escala humana, ou por causa, ainda, da falta de tempo e paciência para investir horas no trânsito até um encontro com amigos no meio da semana), ainda assim, sempre damos um jeito de inverter os valores e continuar na toada sem fim de que viver na grande cidade é o caminho mais “natural”, inevitável, sinal de progresso, de desenvolvimento, algo indiscutivelmente melhor do que a vida perto do mato.

O discurso em defesa das grandes cidades é tão forte que, há décadas, olhamos para as pequenas cidades como se fossem locais inexpressivos, sem vida, depósitos de gente que não progride, que fala esquisito, que se acomodou na falta de oportunidades, que não tem visão, não tem ambição.

É óbvio que nada disso é assim tão tudo-ou-nada, que até dá para viver entre jardins e borboletas nas metrópoles, ou, do outro lado, ganhar a vida, enriquecer e ser feliz no vilarejo sem wi-fi, metrô e padaria gourmet. O que ressalto aqui é essa monocultura mental – para usar a ideia da ativista indiana Vandana Shiva – que não é capaz do autoquestionamento, nem quando tudo parece indicar que algo (ou muita coisa) não vai nada bem.

Até em encontros mundiais pretensamente organizados para discutir o futuro da humanidade, as grandes cidades são celebridades e foco quase exclusivo de atenção, mesmo na condição de grandes dependentes de insumos básicos que vêm de fora e cada vez de mais longe. Em outras palavras: como falar em sustentabilidade e vida boa nas grandes cidades, se não pudermos olhar com carinho e seriedade para o futuro das pequenas cidades, que são – estas, sim – as fornecedoras de água, de alimentos, de madeira e (vale lembrar) de locais para depositar o lixo e o esgoto metropolitano etc.?

Sem as pequenas cidades e as botas “sujas” de terra, as grandes simplesmente não sobreviveriam. É mais ou menos um repeteco do que fez a Europa, quando consumiu suas florestas e riquezas naturais e foi colonizar (ou seria saquear?) o Sul para suprir a demanda da população. Agora, preocupados com o futuro do planeta, o europeu quer policiar o que acontece na Amazônia e nas demais florestas subtropicais…

É hora de parar de insistir no erro. “Sustentabilizar” as metrópoles é complicadíssimo e não se resolve apenas com tecnologia, tornando tudo ainda mais artificial, robótico. No limite, trocar uma porção de carros pela ideia de uma via suspensa para ônibus pode melhorar o trânsito por seis meses, mas vai “enfeiar” a cidade por décadas. São paliativos. Não revolucionam. Seguem a mesma lógica de sempre, que é a do corretivo, da reforma, não do redesenho, da revolução, da humildade em aceitar que o caminho estava errado e é preciso mudar a rota.

No dia em que o ‘caipira’ descobrir o potencial enorme que sua cidade tem para o futuro das grandonas, já que a água que abastece as torneiras da metrópole vem do rio que atravessa seu sítio, e que é da roça dele o alimento que enche o prato do executivo engravatado, a conversa poderá mudar de figura. A força política das pequenas cidades precisa crescer na proporção do bem estar que elas geram para o país. O futuro de todos nós depende da minhoca da lavoura do seu João, das árvores que o seu Zé plantou para deixar aos netos, e da afeição que o seu Chico tem pela terra que, como se diz no interior, um dia há de comê-lo.

Foto: Organic Seeds via Photopin 

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

Giuliana Capello

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

Um comentário em “Um viva às pequenas cidades!

  • 15 de setembro de 2015 em 4:52 PM
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    Salve Giu, belíssimo texto.
    È isso ai temos que mudar a rota, teremos que voltar atrás enquanto é tempo!

    Bjus Giu.

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