Um teto feito de mundo

MAPA

Quando o mundo puder ser unido por fios de tinta, traços embaraçados e abraços não recortados, estaremos, enfim, conectados com a essência do que é um abrigo, uma casa, uma proteção. Saberemos que o nosso telhado é o céu. E o telhado do céu é a manta da via láctea.

E o telhado da via láctea… Não se preocupe. Não sabemos onde isso pode parar. E precisamos mesmo saber? Para quê? E por quê? Mal sabemos onde vamos parar amanhã. Nem nos importamos com os nossos limites tolos.

DRIP FISH

Nem queremos saber qual é o fio que desmancha um frágil ser que nada no azul cada vez mais escuro e sujo.

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Fazemos de conta que a árvore pode ser e refletir azul, rosa, branco, vermelho e até verde, quando na verdade ela mal consegue fotossintetizar gás carbônico para nos dar oxigênio. Está preta, empoeirada e mal se fixa no barranco… Naquele em que queremos que o mundo acabe para nos encostarmos.

ÁRVORE PRETA

A árvore se desmancha e confunde em traços que nos lembram de finos fogos de artifício, comemorando mais um dia sem queimada na mata. Para colocar suas obras no mundo, o artista e arquiteto curitibano Bruno Calmon desenha com o que encontrar pela frente: com caneta posca (aquelas importadas que funcionam com tinta acrílica) ou com essas canetas de tinta azul que usamos no nosso cotidiano indescritível.

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Mais recentemente, Bruno vem transformando traço calculado e lógico em pincelada abstrata, cheia de camadas e cores, como as que estão na última exposição que pode ser vista até o dia 23 de agosto, em Curitiba, na FAE.

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Mas o artista não deixou a forma figurativa de lado. Podem ser vistos na exposição um macaco bravo (que lembra, carinhosa e vagamente a carinha de Bruno), uma boca que se transforma em rosto com grito aprisionado e uma mulher que fecha os olhos para tentar permanecer em seu ângulo de mundo, em seu círculo de ideias. Todos conseguiram abrigo no MDF. Esse mesmo que sustenta nossos móveis e dá aparência aos nossos ambientes, também suporta a arte, o lar de tanto artista.

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MDF que é sigla da Banda Mensageiros da Favela. MDF que é proteção chique para qualquer favela sem fim.  Para qualquer casa quase sem parede e sem teto.  Nem janela ou porta.

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Tão diferente da casa imaginada por Bruno. Se até a de passarinho tem janela e porta… Uma casinha com um sem fim de possibilidades de entradas ou saídas. Com raio entrando e se perdendo nos ângulos.

Melhor, só uma Casa sem Fim, como a do artista e arquiteto austríaco-americano Frederick Kiesler, nascido no Império Austro-Húngaro, em 1890. Luz circulando no compasso do sol. Sem redondos enganos.

Só a certeza de que a realidade precisa ser feita de conexões entre o homem, o espaço, a forma e o tempo. São as bases daquele Correalismo, inventado por Kiesler, em  1939.  Em meio a essa ilusão que separa a arte do mundo, podemos ir atrás de gotas de realidade, que puxem a tempestade dos artistas para nós, que nos tragam pontos de contato para novas atitudes.  Para nos encontrarmos e molharmos nessa chuva que nos abriga do deserto. Um telhado de pássaro. E quando der frio, que possamos correr para a proteção do nosso telhado banal e necessário. E que ele não seja de vidro.

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Exposição Abstratos X MDF –  Bruno Calmon
Data
: até 23/08
Local: FAE Business School – Av. Visconde de Guarapuava, 3263 – Curitiba
Entrada gratuita

SEM NOME

Fotos das obras de Bruno Calmon retiradas do blog do artista (1. Mapa, 2. Peixe, 3.Árvore Azul, 4. Árvore Preta, 5. Peixe com caneta BIC, 6. Abstrato, 7. Macaco (MDF), 8. Boca (MDF), 9. Mulher (MDF), 10 e 12, sem nome.

Foto da obra de Friedrick Kiesller:  11. Endless House.

 

Jornalista cultural apaixonada por temas ambientais. Colaborou para várias revistas como Bravo!, Isto É, Nova e jornal Gazeta do Povo. Em TV, foi editora-chefe do programa Gente.com. Trabalhou como produtora e editora nos programas QI na TV, Com a Palavra, Aqui entre Nós, É Cultura. Foi repórter de TV por 12 anos e jornalista responsável pelo Guia Cultural Curitiba Apresenta. Mantém o blog de crônicas Nunca precisou de chão firme.

Karen Monteiro

Jornalista cultural apaixonada por temas ambientais. Colaborou para várias revistas como Bravo!, Isto É, Nova e jornal Gazeta do Povo. Em TV, foi editora-chefe do programa Gente.com. Trabalhou como produtora e editora nos programas QI na TV, Com a Palavra, Aqui entre Nós, É Cultura. Foi repórter de TV por 12 anos e jornalista responsável pelo Guia Cultural Curitiba Apresenta. Mantém o blog de crônicas Nunca precisou de chão firme.

Um comentário em “Um teto feito de mundo

  • 25 de julho de 2016 em 9:51 PM
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    e entao seremos felizes de verdade !!!

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