Um marimbondo contra o câncer

Marimbondos podem combater o câncer

Em casa de marimbondo não se mexe com vara curta, diz uma sabedoria popular, certamente desenvolvida à custa de muitas picadas doloridas. Se a casa de marimbondo for bem redondinha, revestida de “papel”, com uma entrada e os marimbondos forem pretos com uma pinta amarela nas costas, então, recomendo usar uma taquara para lá de comprida. Ou, melhor ainda: nem mexa porque a casa é do marimbondo paulistinha (Polybia paulista), cujas colônias costumam ser numerosas e as ferroadas, bem agudas e ardidas!

A gotinha de veneno que o paulistinha injeta quando ferroa é composta por uma mistura de substâncias, aprimorada pela espécie em sua evolução, com o objetivo de defender sua casa e sua grande família. Como as abelhas, os marimbondos do gênero Polybia são insetos sociais (embora menos organizados) e costumam atacar em defesa da comunidade. Cada ferroada significa a morte para aquele indivíduo, mas pode assegurar a continuidade da colônia.

Entre os diversos peptídeos dessa mistura de substâncias, existe pelo menos um com função antibacteriana, ou seja, serve para proteger a casa dos marimbondos contra bactérias (trazidas pelos invasores, talvez?). Apelidado pelos cientistas de MP1, esse peptídeo adere às bactérias por diferença de carga: ele é positivo (catiônico), enquanto as bactérias são revestidas de moléculas negativas (lipídios aniônicos). O veneno gruda nas bactérias e abre buracos em sua membrana externa, por onde entram substâncias tóxicas para as bactérias e saem partes importantes do núcleo como o RNA.

Ocorre que outro tipo de célula com membrana protetora muito resistente também tem lipídios aniônicos: o câncer. Então, em 2008, pesquisadores chineses fizeram os primeiros estudos para uso do MP1 contra o câncer. E um grupo de pesquisadores brasileiros e britânicos estuda o potencial do veneno do marimbondo paulistinha para criar uma nova estratégia contra o câncer. Em linhas bem gerais, a ideia é abrir poros nas células cancerosas com o peptídeo MP1, tornando-as permeáveis aos medicamentos capazes de destruir seu núcleo. O mais interessante é que as células normais não têm os lipídios aniônicos e, portanto, o peptídeo “buraqueiro” é seletivo: vai direto ao tumor.

Fazem parte desse grupo de cientistas os físicos com especialização em Biofísica Molecular, João Ruggiero Neto e Natália Bueno Leite, e o químico especializado em Bioquímica, Mario Sergio Palma, todos da Universidade Estadual Paulista (UNESP), campi de Rio Claro e São José do Rio Preto, mais Paul A. Beales, Anders Aufderhorst-Roberts e Simon D. Connell, da Universidade de Leeds, no Reino Unido. Juntos, os seis acabam de publicar um artigo com essa boa notícia no Biophysical Journal (01/09/2015).

Agora que a ação antitumoral foi comprovada, o grupo pretende trabalhar no aumento da capacidade seletiva do peptídeo MP1, para garantir que as células normais não sofrerão danos colaterais, e iniciar os testes: primeiro in vitro, em culturas de células, e depois in vivo, em animais.

Para as novas pesquisas, ninguém vai “ordenhar” os marimbondos, mesmo porque cada indivíduo tem apenas 1,5 centímetro de comprimento (em média) e a “bolsinha de veneno é mínima: seria preciso sacrificar uma colônia inteira para obter meros 2 ml de veneno bruto”, conforme explica o especialista em marimbondos Marcos Magalhães, professor doutor do Instituto Federal Sul de Minas. O peptídeo usado nas pesquisas já é sintetizado em laboratório e os insetos podem continuar por aí, bem instalados nos beirais de telhados dos estados de São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso, Goiás, Rio de Janeiro e Bahia, além de países vizinhos.

Marimbondos podem combater o câncer

“Acredito que há muito a ser descoberto nas pesquisas com marimbondos brasileiros, que ainda são pouco conhecidos”, acrescenta Magalhães. “Existem 315 espécies brasileiras conhecidas e muitas ainda por serem descritas para a Ciência. Mesmo em Minas, o estado com melhor amostragem (ao lado do Amazonas e do Pará), ainda descobrimos espécies novas em expedições a locais pouco pesquisados, como a que realizamos recentemente na mata seca do norte do estado”.

Resumindo, a proposta desta blogueira é mudar o ditado popular: em casa de marimbondo não se mexe. E ponto. Deixa os bichinhos lá no alto do telhado que eles não atacam à toa. Assim guardamos “ao natural” um belo estoque de possibilidades de novos medicamentos!

Fotos: Marcos Magalhães

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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