Um jeitinho de abrasileirar as guitarras

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A ideia do “faça você mesmo” chegou às lutherias. Em uma garagem paulistana super equipada, qualquer interessado pode desenhar a guitarra dos seus sonhos em um computador e ordenar o corte das peças de madeira a um robô. É só fazer o curso Make it (Faça!) com o engenheiro civil José Reinaldo Michel, proprietário da garagem e da M-Art Guitar.

Michel é responsável pela montagem do robô e de umas quantas ferramentas essenciais para quem quer colocar a mão na massa, mas não tem interesse em comprar todo aquele aparato só para fazer sua guitarra. Seu curso de garagem é inspirado na Tech Shop de San Francisco (EUA), que oferece serviços de impressoras 3D, robôs e outros equipamentos de alta tecnologia a um público muito variado, de uma dona de casa interessada em imprimir bonecos baseados em fotos do filho a cientistas da Agência Espacial Norte Americana (NASA), com a missão de produzir peças únicas para mandar para o espaço.

No início, em 2008, José Michel montou suas bancadas para produzir e vender guitarras com o filho, Pedro Lara. Eles testaram diversas madeiras brasileiras para as guitarras e elegeram o mogno, o freijó e o cedro como as melhores opções para o corpo e o jacarandá para o braço. “Não é uma questão de beleza apenas, essas madeiras mudam o som porque vibram com as cordas no captador e fazem as cordas vibrarem por mais tempo”, resume Pedro Lara, que cursou ciências aeronáuticas e design em projetos.

Para uma boa guitarra elétrica, qualquer uma dessas madeiras deve ter pelo menos quatro polegadas de espessura e dá certo trabalho conseguir pranchas com toda a documentação legal. Se a guitarra for do tipo hollow body (corpo oco) como as semiacústicas, não é preciso uma prancha tão espessa. De qualquer modo, vencer a burocracia vale a pena, sobretudo no caso do mogno, que Pedro prefere nem pintar: as guitarras ganham acabamento apenas em tang óleo, deixando o desenho da madeira exposto. Ou seja, além de lindas, são exclusivas.

A dificuldade em manter o negócio veio com a alta do dólar, pois tudo o mais que vai numa guitarra (cordas, trastes, ponte, captador etc) é importado. Começou a ficar mais caro do que os músicos podiam pagar. A opção, então, foi abrir os cursos Make it e ampliar a variedade de peças de madeira a serem produzidas pelo robô, além de trabalhar com outros materiais.

Mas é evidente que as guitarras de mogno ainda são as preferidas, senão para tocar, pelo menos para fabricar, conforme admite Pedro Lara: “Faço guitarras melhor do que toco”.

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Fotos: Pedro Lara (corpo de guitarra de mogno e braço de jacarandá e José Michel em sua garagem Make It)

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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