Um final Katehe!



Voltei há alguns dias de uma expedição ao Yaripo (mais conhecido pelos não indígenas como Pico da Neblina; já falei dele aqui no blog). Fui para registrar e avaliar mais uma etapa de um projeto que tem por objetivo preparar os Yanomami para conduzirem expedições ao ponto culminante do Brasil.

Por conta da minha tarefa, tive ajuda de carregadores indígenas para levar parte das tralhas fotográficas. Afinal, são oito dias extenuantes, indo e voltando dos 100 aos 2.995 metros de altitude, enfrentando todas as intempéries da floresta úmida (muito úmida!).

Entre os equipamentos que levei estavam um tripé e um drone, pois fui acompanhado do meu tradicional otimismo de ter um clima favorável no cume para algumas imagens aéreas (coisa bem improvável para a época do ano). A ideia inicial era que tudo ficasse concentrado em um só carregador, para facilitar minha vida. Mas, em vez de levar tudo em uma bagagem única, optei por separar em bolsas estanques, que foram divididas em alguns jamanxins (cestos de cipó que os Yanomami usam como mochila).

No dia da subida ao cume, que é a caminhada mais longa e onde se percorrem os últimos mil metros de desnível, os Yanomami se encarregaram de toda a bagagem do grupo, para que todos caminhassem leves. Provavelmente por uma questão de superestimar minhas capacidades, ninguém se ofereceu para carregar minha mochila, com cerca de 12kg de equipamentos fotográficos. O guia Tomé apenas me perguntou se eu precisava carregar algo mais além da mochila. Pedi, então, que alguém levasse o tripé e o drone.

Na hora da saída, depois de insistir na necessidade de que minhas coisas extras fossem com os carregadores, Tomé fez uma expressão condescendente e respondeu: “Katehe, xori!” – que significa algo como “Está tudo certo, cunhado!”. Considerei a comunicação como efetiva e parti para o cume do Yaripo.

Pela dificuldade da caminhada e necessidade de passar trechos com cordas, o grupo rapidamente se dispersou. Eu seguia na frente junto ao Tomé, de onde conseguia registrar melhor a subida de todos. Apenas após três horas de caminhada (e faltando cerca de uma para o cume), o grupo todo se reuniu novamente em um pedral, na base da última subida.

Nesse momento, fiz uma busca visual na bagagem dos carregadores e não identifiquei nada com o volume necessário para caber o drone. Com um frio na barriga (afinal, contra todas as probabilidades, o cume estava aberto e com pouco vento, ideal para um voo), perguntei mais uma vez ao Tomé. E novamente ele me respondeu: “Katehe, xori! Está aqui o seu drone.” – e falou isso apontando para o meu tripé, que vinha nas costas de um dos Yanomami.

Quando eu disse que aquilo era o tripé, e não o drone, fez-se um clima geral de fim de festa. Afinal, estávamos prestes a perder a oportunidade de fazer imagens inéditas dessa montanha tão emblemática. Os Yanomami discutiram um pouco entre eles na sua própria língua, até que surgiu uma ideia.

Felizmente, uma das tarefas da expedição era testar um sistema de comunicação. Então tínhamos um rádio que podia se comunicar com o grupo que havia permanecido no acampamento-base. Pediram a outro carregador que saísse de lá com o drone, para nos encontrar no cume. A comunicação foi feita em Yanomami, com muitos risos de todos os lados. Não sei até agora se riam da situação, de mim ou deles mesmos.

Uma hora depois, estávamos no cume, desfrutando o privilégio de ver o Pico da Neblina (que faz jus ao nome!) aberto e com possibilidade de ver a paisagem montanhosa ao redor. Pelos meus cálculos, o carregador deveria levar ainda pelo menos duas horas para chegar, o que significava um alto risco de que o pico estivesse novamente fechado.

Para minha surpresa, depois de 30 minutos, lá estava chegando meu drone, em um saco pendurado nas costas de um Yanomami sorridente. Ele fez em uma hora e meia e sem suar o que a nós, napë, custou 4 horas e litros de suor!

O tempo já não estava mais completamente aberto, a neblina já estava mais próxima do cume. Mas, mesmo assim, revertendo o problema criado pela comunicação truncada, foi possível voar com o drone e fazer essa foto do post, do Pico da Neblina com o Pico 31 de Março ao fundo. Dá para considerar que, apesar dos contratempos, a história teve um final katehe!

Agora, os dados da foto:
– Drone DJI Phantom 4
– Filtro ND 8 polarizado

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

Marcos Amend

A natureza sempre foi uma paixão para Marcos Amend que, ainda adolescente, passou a observá-la também pelas lentes de uma máquina fotográfica. Assim, aliando o talento fotográfico à conservação do meio ambiente, há 25 anos viaja do Norte ao Sul do Brasil e pelos cantos mais remotos do mundo. Colabora com livros, revistas e bancos de imagens e realiza expedições, cursos e workshops de fotografia outdoor.

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