Um cafezal para apalpar, cheirar e degustar

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Embarcados em um micro-ônibus, oito turistas cegos e dois com baixa visão mais dez acompanhantes partiram da capital paulista rumo a uma experiência sensorial inédita em suas vidas. O primeiro destino foi Santo Antonio do Jardim, quase na divisa de São Paulo com Minas Gerais. Lá, eles conheceram o cafezal sustentável de Jefferson Adorno, um engenheiro eletrônico que trocou os congestionamentos paulistanos por uma casa no campo a poucos passos de seu escritório e da área de cultivo.

Desde a saída, o grupo teve direito a áudio com descrições das paisagens, da estrada e dos pontos de interesse pelo caminho, na voz da guia de turismo, idealizadora e organizadora do passeio, Audmara Veronese, a Audy. Esse cuidado em garantir aos deficientes visuais o máximo de informações sobre o que se passa ao seu redor é um diferencial fundamental para o sucesso do turismo sensorial.

Uma das razões de ser do turismo é conhecer lugares, pessoas e culturas, mas poucos guias turísticos sabem o que é preciso para conhecer sem enxergar. Audy contou com dez anos de prática como voluntária em uma organização não governamental dedicada à inclusão das pessoas com deficiência visual através de esporte, lazer e cultura, o Grupo Terra. E se propôs a criar um roteiro de turismo sensorial como trabalho de conclusão do curso técnico de Guia de Turismo no Senac.

“O desafio era apresentar um projeto integrador, inovador e sustentável, que contemplasse a importância do guia”, conta. “Como voluntária, havia participado de vários passeios e caminhadas com pessoas com deficiência visual. Também treinei para me tornar corredora e guiar pessoas cegas em corridas de rua. Então pensei em criar um roteiro para esse público e testar esse roteiro para mostrar que era viável. Eu não queria fazer algo teórico”.

O projeto Ampliando Horizontes – Experiências Sensoriais no Turismo para Pessoas Cegas e de Baixa Visão começou a tomar forma quando Audy conheceu a Cafeteria Loretto, em Espírito Santo do Pinhal, e soube que o café Kaynã – degustado ali – era proveniente de um cafezal próximo (o de Jefferson). A certeza de que o plano daria certo veio na embalagem do próprio café, traduzida em Braille e com um selinho da Fundação Dorina Nowill, indicando que parte dos recursos da venda daquele produto é destinada à instituição de apoio a pessoas com deficiência visual.

Jefferson já recebia turistas para conhecer o cafezal e topou fazer algumas adaptações para o turismo sensorial, orientado por Audy. Professores do Senac fizeram a intermediação com a Federação das Empresas de Transporte de Passageiros por Fretamento do Estado de São Paulo (FRESP), que disponibilizou o micro-ônibus. E diversas instituições indicaram os participantes.

Assim, ao desembarcar no cafezal, o grupo experimental encontrou o terreno aplainado, literalmente e no sentido figurado. Guiados pelos acompanhantes e por mais áudio descrições, eles caminharam entre os pés de café, aprenderam a diferenciar grãos verdes de maduros e fizeram a colheita. Depois experimentaram a seleção, com base no tato, no gosto e no cheiro; fizeram a separação dos grãos na água; puseram o café para secar no terreiro, virando e revirando os grãos, parando só para verificar o ponto de secagem.

“Todo mundo estava descobrindo o cafezal. No nosso caso, tínhamos que tocar para reconhecer as formas, a textura, aprender a distinguir o grão seco do verde. Os acompanhantes que enxergam se interessaram e começaram a tocar e sentir o gosto também, para perceber as diferenças. Em geral, quem vê não presta muita atenção nas informações que os outros sentidos trazem”, destaca Maria Regina Lopes Silva. Ela participou do passeio na companhia do marido, Adeíldo Morais Silva. Ambos são cegos e já haviam feito outras tentativas de turismo, mas sem roteiros ou guias especializados.

“Não sou a favor de grupos específicos. Trabalho pela inclusão e acho que a melhor opção é um turismo acessível para todos, com áudio descrição, com acessibilidade. Senão vamos nos segregar, seria uma discriminação na outra ponta”, acrescenta Maria Regina, que é funcionária da Fundação Dorina Nowill.

Depois do almoço, a experiência se estendeu até Espírito Santo do Pinhal. Na Cafeteria Loretto tiveram lugar a torrefação do café (cheia de aromas), a moagem (repleta de texturas) e, finalmente, a degustação (plena de sabor). O entusiasmo do grupo foi tão grande com a experiência que todos – com ou sem deficiência visual – quiseram levar o café para casa. E o estoque de Kaynã na cafeteria se esgotou num minutinho.

Agora, o projeto de Audy cresce fora da escola. Está em negociação um convênio da FRESP com o Senac, com o objetivo de estabelecer um concurso para os estudantes, viabilizando as melhores ideias de turismo rodoviário. “Vemos outros desdobramentos, muito além de fornecer o ônibus para um trabalho de conclusão de curso”, explica Regina Rocha, diretora executiva da federação.

“Fizemos divulgação para ter um efeito potencializador e verificamos que essa é uma ideia contagiante. Em geral, quando pensamos em acessibilidade, pensamos apenas no cadeirante, mas poderíamos ter uma disciplina optativa para guias aprenderem a fazer a narrativa para pessoas com deficiência visual, por exemplo. As estâncias turísticas poderiam se preparar para receber esse público, assim como os restaurantes podem fazer pequenas adaptações. São coisas simples, como servir a salada no prato, já cortada, em lugar de ter apenas o buffet e oferecer pratos quentes que já são picados, como estrogonofe”.

Depois de participar do passeio experimental idealizado por Audy, a agência de turismo Rizzatour, de Jundiaí, também está trabalhando nas adaptações necessárias para oferecer roteiros acessíveis. Segundo um dos sócios, José Luiz Rizzato, os roteiros de turismo rural já disponíveis na agência ficariam muito próximos do passeio a Santo Antonio do Jardim e Espírito Santo do Pinhal, com a vantagem de estarem mais perto da capital paulista.

“Na região de Jundiaí temos opções de colheita nos vinhedos, com a pisa da uva, e temos colheitas de vários tipos de frutas praticamente durante o ano todo. Precisamos tornar nosso site mais acessível, o que já estamos fazendo, e trabalhar principalmente com micro-ônibus, com um máximo de 26 turistas em lugar dos 46 dos ônibus comuns”, exemplifica ele. “Também é necessário treinamento para oferecer a áudio descrição, além de revisar nossos roteiros para transformar e poder atender melhor esse público”.

Até outubro, a Rizzatour já deverá estar pronta para testar as primeiras opções de turismo sensorial.

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Primeiro teste de turismo sensorial foi aprovado por unanimidade

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Os turistas espalharam o café no terreiro para secar

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No tato, os grãos secos puderam ser separados dos verdes

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Os acompanhantes também se interessaram em experimentar os outros sentidos, além da visão

Fotos: Jefferson Adorno (cegos no cafezal e no terreiro de secagem) e divulgação FRESP (o grupo em frente ao micro-ônibus)

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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