Tumucumaque: um pedaço do paraíso ameaçado pela mineração

Foi nas Terras Indígenas do Tumucumaque que conheci um pedaço do paraíso. Faz poucos anos que estive lá, vivendo com os índios Apalai e os Waiana, as margens do Rio Paru D´Este. Já falei um pouco deste lugar em outro post, aqui no blog.

Em 2015, saí de São Paulo para uma dessas viagens que faz qualquer aventureiro se encher de alegria. Lá é, certamente, um dos poucos lugares ainda intocados do país. Para chegar à região, rodamos dez horas de carro, saindo de Macapá até o Laranjal do Jari. De lá, é preciso pegar um avião para um voo de três horas em meio a maior floresta do mundo, sem avistar sequer um acampamento.

Por pura curiosidade, perguntei ao piloto o motivo de ele estar se guiando pelo rio e ele respondeu:

– Se der pane no avião, temos de pousar no rio, pois no meio da floresta estaremos mortos!

Lá conheci uma gente que, a partir de então, sempre me fascinou por sua grandiosidade em ser simples e viver sem pensar no acúmulo de riquezas, de bens materiais. Eles vivem da pesca e da caça. Também plantam alimentos tradicionais como mandioca, milho, batata e banana e as diversidades que vieram de fora como a abóbora, melancia, mamão, manga, entre outras. O restante de que precisam vem da floresta, com a qual vivem em perfeita harmonia.

Fazem grandes canoas com um único tronco e esta tradição é passada de geração em geração. Sempre viveram às margens deste grande rio, o Paru D’Este.

Logo à frente de cada aldeia, há uma imensa casa redonda que chama a atenção. É a Tukusipan. Nela, são realizados encontros, reuniões da tribo e é também onde dormem os visitantes.

Na mata também conheci toda sorte de pássaros e outros animais. Pude escutar ao longe o esturro da onça. Quando em conversa com eles, escutei lindas histórias antigas sobre esse povo e a relação tem com as árvores e a natureza à volta.

Só tenho boas lembranças e muitas saudades de lá. E meu coração está apertado agora de pensar que essa gente e toda a beleza que preservam e com a qual convivem pode desaparecer.

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Nasci em 1966 e cresci em meio às sombras da ditadura. Lembro de que, no colégio, não podíamos falar nada contra o governo militar e todos os dias cantávamos o Hino Nacional, de pé, olhando para a frente e com a mão direita sobre o coração.

Nos anos 80, assisti e participei de grandes movimentos ambientais. Desde a criação da Fundação SOS Mata Atlantica e a luta pela Reserva Jureia Itatins.

Lembro da ARCA batendo firme na defesa do Cerrado e da Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, e de tantos outros movimentos que integrei e que levantavam bandeiras por direitos diversos.

Assisti a um presidente sofrer impeachment por corrupção (Fernando Color de Mello) e passei a acreditar que estávamos no bom caminho.

Acabei me tornando fotógrafo e indigenista e fazendo dessa profissão a minha vida. Costumo dizer que ”inimigo de índio é inimigo meu!”. Esta é uma maneira de combater aqueles que pensam que índio bom é índio morto, frase proferida pelo general do exército americano, Philip Henry Sheridan, que viveu no século 19 e ajudou a dizimar os índios por lá.

Os anos passaram e eu pensava que aquele período – no qual fomos obrigados a gritar Diretas Já, levantar bandeiras, fazer barricadas e lutar por nossos direitos – jamais voltaria. Mas a que ponto nossa sociedade chegou?!

Viramos reféns de políticos inescrupulosos e nada fazemos para mudar isso. Assisti jovens se levantarem contra o aumento da tarifa de ônibus em 2015 e, agora, vejo esta mesma geração se calar diante de um dos maiores crimes ambientais que está para acontecer. Sim, se nada for feito, este crime irá superar a tragédia do Rio Doce. Falo da destruição da Reserva Nacional do Cobre (Renca) – muito próxima do Tumucumaque –, na Amazôniaautorizada por Michel Temer em decreto, em 22 de agosto.

A cara de pau é tanta que, dias depois, ele revogou esse documento para driblar queixas dos ambientalistas e de uma pequena parcela da sociedade (liderada por artistas em hashtags pelas redes) e, mais uma vez, fazer de conta que a proteção da biodiversidade e dos índios está garantida. Até a Justiça Federal não caiu nessa e suspendeu o decreto, justamente por ele não respeitar nada. Mas isso é muito pouco!

Hoje, acordei com a sensação de que voltamos à ditadura. Dizem que em boca calada não entra mosquito. Mas se não abrirmos a boca, logo vamos passar fome…

Abaixo, a beleza das terras indígenas do Tumucumaque e dos povos Apalai e Waiana, que pode acabar.

Fotógrafo e documentarista especializado no registro de povos indígenas, bem como da arte, cultura e biodiversidade do país. Mineiro, desde 1986 realiza viagens para retratar formas de expressão cultural dos grupos étnicos brasileiros. Colaborador do blog Por Trás das Câmeras, Renato descreve o que chama de “Diário de Campo”. É autor ainda do blog Ameríndios do Brasil, mesmo nome do seu projeto de fotografia com os índios

Renato Soares

Fotógrafo e documentarista especializado no registro de povos indígenas, bem como da arte, cultura e biodiversidade do país. Mineiro, desde 1986 realiza viagens para retratar formas de expressão cultural dos grupos étnicos brasileiros. Colaborador do blog Por Trás das Câmeras, Renato descreve o que chama de "Diário de Campo". É autor ainda do blog Ameríndios do Brasil, mesmo nome do seu projeto de fotografia com os índios

Um comentário em “Tumucumaque: um pedaço do paraíso ameaçado pela mineração

  • 1 de setembro de 2017 em 8:25 AM
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    OLA! que bela reportagem e fotos. Sou deste time dos ambientalista, de nascimento, fico muito triste
    quando vejo este desrespeito pela nossa MÃE NATUREZA. O Sr. Michel. parece que esta fora de si
    com tantas besteiras que vem praticando.
    OS Americanos, estão pagando pela devassa que praticaram com suas reservas e os índios de la.
    Quem com ferro fere, com ferro é ferido.Este proverbio prova os atos errados que praticamos. Só
    que muita gente não si da conta disto.
    Destruir uma reserva e seus habitantes. É assinar sua sentença de morte.
    .

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