Tsunami da educação enche as ruas de estudantes, professores e famílias contra cortes do governo

Quarta-feira, 15 de maio,  marcou a volta das manifestações de rua no Brasil. O vetor foi a defesa da educação frente ao contingenciamento de recursos do Ministério da Educação, que compromete o funcionamento de universidades e institutos de educação federal. Mas protestos contra a Reforma da Previdência também estiveram presentes.

Houve passeatas em mais de 220 cidades pelo país afora e, para variar, muita disputa de narrativa, especialmente nas mídias sociais.

O Presidente Jair Bolsonaro, secundado pelo Ministro da Educação Abraham Weintraub, logo tratou de pintar os manifestantes como sendo “inocentes úteis e imbecis”, o que ajudou a inflamar ainda mais as manifestações. Mais recentemente a estratégia mudou e os ataques passaram a se concentrar na oposição e mais especificamente no PT, acusados de “manipularem” os estudantes. O objetivo, óbvio e nada novo, é trazer a disputa para o campo da polarização partidária.

Mas o fato é que as manifestações pela educação tiveram uma ampla característica de auto-organização, que demonstram a fragilidade do discurso da partidarização. Eu estive na que deve ter sido a maior delas, na Avenida Paulista, em São Paulo, desde o início da mesma, pela hora do almoço, até o final, quando chegamos à Assembleia Legislativa, próxima do Parque do Ibirapuera. 

Saltava aos olhos que a grande maioria dos participantes foi composta por estudantes de escolas, colégios e universidades públicas e privadas. Havia também muitas famílias inteiras, muitas com crianças, além de professores

Os partidos políticos estavam lá? Sim, mas não eram majoritários. Aliás, o verde e amarelo ou o vermelho nem de longe eram dominantes. 

O que imperava era a multiplicidade de cores e de mensagens em favor da educação e contra o governo Bolsonaro, a maior parte delas escritas à mão, de forma improvisada, em cartazes de cartolina. Esta, aliás, é uma característica clara de mobilizações feitas de forma horizontal e distribuída. Um fenômeno chamado de swarmingou enxameamento, quando pessoas e grupos se engajam de forma voluntária ao redor temas que lhes interessam.

defesa da educação de qualidade é evidentemente um destes temas transversais, capazes de botar na rua estudantes do ensino público e privado, além de seus familiares e professores. Ao atacar a educação e tentar aparelhar ideologicamente o ensino, o governo Bolsonaro encontrou um setor que une os anseios e temores da sociedade

Um setor, também, no qual seus participantes, especialmente os alunos e professores, são bastante ativos nas redes sociais e conseguem fazer uma frente direta ao principal, senão único, canal de comunicação e mobilização usado pelos bolsonaristas.

tentativa de desqualificar a mobilização pela educação provavelmente vai continuar, mas os eventos de 15 de maio, que devem se repetir em 30 de maio, mostram um ponto de ruptura. Dificilmente o governo conseguiria botar na rua a mesma quantidade de gente defendendo-o. 

As redes sociais continuam sendo o principal campo de batalha da narrativa bolsonarista, mas mesmo aí os estudantes têm mostrado que conseguem ser tão ágeis quanto os robôs, bots e defensores mais aguerridos do governo

Em muitos países e contextos históricos, estudantes mobilizados foram cruciais para gerar mudanças nos regimes. Eles sãos jovens, ativos e muito capilarizados. Com as facilidades trazidas pelas redes sociais, eles conseguem se mobilizar, organizar e ir para as ruas de uma forma muito mais rápida e eficiente do que as usadas tradicionalmente pelas máquinas partidárias. 

Com o clima político e econômico atual, a tendência é esta insatisfação se alastrar, com consequências ainda imprevisíveis para a sustentação deste governo. 

Uma coisa é certa, os estudantes presentes às manifestações entendem muito bem a correlação entre o enfraquecimento e aparelhamento ideológico da educação e outros temas e narrativas defendidas pelo governo. Isto ficou expresso nos milhares de cartazes em cartolina escritos à mão. 

Abaixo, uma amostra das mensagens trazidas pelos estudantes, que mostram que estão muito críticos a outros temas caros ao Presidente Bolsonaro:

  • Não é mole não, tem dinheiro pra milícia mas não tem para a educação
  • A minha arma é a educação
  • Quantas universidades valem uma laranja?
  • Bolsonaro, aprende essa equação: Ciência = Progresso
  • O governo quer derrubar a educação porque ela derruba governos
  • Sem educação não tem pesquisa, sem pesquisa não tem educação
  • Liberdade de inventar
  • Ideias são à prova de balas
  • Melhor alguns dias de reposição do que uma vida inteira de submissão=
  • Gerações de pensadores intimidam os governadores
  • Cabeça vazia é oficina de Olavo
  • Mito é quem educa
  • Hoje a aula é na rua – #15M
  • Balbúrdia é esse governo. Aqui levamos a educação à sério
  • Sem educação já basta o presidente

Fotos: Renato Guimarães

Renato Guimarães

Jornalista, com mestrado em relações internacionais, é especialista em temas ligados à mobilização e engajamento em causas de impacto social. Morou oito anos no Peru, de onde conheceu bastante da América Latina. Trabalhou em organizações como Oxfam GB, Purpose, Instituto Akatu e IFC/Banco Mundial. Foi sócio de duas consultorias - Gestão Origami e Together – e, hoje, é Diretor de Engajamento do Greenpeace Brasil

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