Trichoderma defende, ataca e dribla no time dos orgânicos

Trichoderma_Keisotyo_WikimediaCC

Originalmente, o fungo Trichoderma dedicava-se a decompor restos vegetais em solos de florestas tropicais e temperadas, mundo afora. Depois passou para terras cultivadas e acabou descoberto pela pesquisa como um bioagente polivalente, capaz de defender diversas culturas de outros fungos, além de atacar ou driblar vários microrganismos prejudiciais aos produtos agrícolas e, assim, evitar doenças por eles transmitidas. Sem contar sua contribuição na colonização das raízes das mais diversas plantas, aumentando a absorção de nutrientes e tornando-as mais resistentes e saudáveis.

Com tantas qualidades, não havia como evitar sua convocação para trabalhar pela agricultura orgânica, tanto na função de biofungicida como de promotor de crescimento, em substituição a produtos químicos. O caminho entre a pesquisa e o mercado foi longo, levou décadas. Sobretudo porque não é fácil distribuir um produto vivo, com exigências de temperaturas baixas para armazenagem e tempo médio de prateleira de apenas seis meses. Mas hoje já é possível comprar o bioagente polivalente em todas as regiões do Brasil. Seu uso torna a agricultura mais sustentável e os produtos orgânicos mais rentáveis.

Já existem, inclusive, boletins técnicos e cartilhas para levar informação aos produtores. É o caso de “Trichoderma: o que é, para que serve e como usar corretamente na lavoura”, uma publicação do Instituto Biológico de São Paulo (IB). Os autores – Cleusa Mantovanello Lucon, Alexandre Rodrigues Chaves e Simone Bacilieri – explicam, por exemplo, que há uma centena de espécies do gênero Trichoderma com capacidade para se instalar nas raízes de hortaliças, fruteiras, feijão, soja, batata e até algodão, criando um ambiente diferenciado em volta de cada pedacinho de raiz.

Nessa rizosfera predominam cerca de 200 compostos produzidos pelo fungo, formando uma zona exclusiva, na qual não conseguem se instalar outros fungos ou agentes causadores de doenças (bactérias e vírus). A defesa montada com Trichoderma funciona por competição (disputa por alimento e espaço) ou antagonismo (alguns compostos inibem o crescimento ou a reprodução dos microrganismos prejudiciais). Já o ataque é por parasitismo (Trichoderma se alimenta de agentes nocivos).

O bioagente age contra inimigos importantes, causadores de grandes prejuízos econômicos, como Fusarium (murcha), Rhizoctonia (mela), Sclerotinia (mofo branco), Verticillium (murcha-de-verticílio), Phytophthora (requeima), Pythium (amarelão), Armillaria (podridão branca) e Roselinia (podridão das raízes de fruteiras). Também funciona contra a versão ruim de Botrytis cinerea, um fungo que ataca as uvas quando chove demais e provoca a podridão cinzenta (na versão boa, com sol, B. cinerea viabiliza a produção de vinhos especiais e é então conhecido como podridão nobre). Em geral, a ação é preventiva, mais ou menos como uma “vacina”.

Na horta ou lavoura tratada com Trichoderma, as plantas ainda desenvolvem melhor suas raízes e, com isso, absorvem mais água e nutrientes, crescendo mais saudáveis. E os ácidos produzidos pelo fungo ajudam a tornar solúveis diversos nutrientes, como fosfatos, ferro, manganês e magnésio, conforme reza a cartilha do IB. Mais forte e resistente, a planta tem chances melhores de driblar o estresse de adversidades climáticas ou os ataques de pragas, reduzindo a necessidade de pesticidas. Por isso o fungo pode ser considerado indutor de resistência.

Claro, para ter certeza de obter todas as vantagens do bioagente, o agricultor precisa saber qual linhagem é recomendada para sua lavoura e observar bem as recomendações de armazenagem e aplicação do produto. Não há risco de se intoxicar ou provocar impactos ambientais, como acontece com os agroquímicos. Mas o uso inadequado reduz ou compromete a eficiência do fungo. E ninguém, em sã consciência, eliminaria um colaborador como esse!

trichoderma_tomatinho2

Fotos: Keisotyo/CC Wikimedia (Trichoderma harzianum)
            Liana John (tomatinhos saudáveis)

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Deixe uma resposta