Trenó de cachorros

Nada melhor que uma festa no interior em uma pequena cidade com 20 mil habitantes. Crianças de todas as idades brincando nas ruas, famílias andando pra lá e pra cá, barraquinhas abertas em feira livre com artigos regionais, música, narração dos acontecimentos, gente brincando e rindo, escorregador de gelo ao ar livre, muitos cachorros uivando e correndo…

Ops, “pera” aí!! Escorregador de gelo, cachorros uivando, como assim??

Bem, é que estou em Alta, na Noruega, localizada à 66,96º norte, já dentro do círculo polar ártico. No final do inverno acontece uma competição no mínimo curiosa, mas divertida. Nesta época do ano, as temperaturas médias são de 8ºC negativos, podendo chegar a 20ºC abaixo de zero. O motivo da festa? Uma corrida com trenós de cachorros.

Voltando no tempo… Antigamente, nas regiões com muita neve, o trenó de cachorros era um meio de transporte indispensável no inverno. Aos poucos foram perdendo importância com a introdução de novas tecnologias, como estradas pavimentadas e moto-neve. Esta última é uma espécie de moto com esquis, que se desloca com facilidade e agilidade por locais com neve fresca ou dura, em que os cachorros têm dificuldade de tracionar e nós podemos afundar até a cintura na neve fofa. Então, este meio de transporte foi sendo abandonado.

Para manter a tradição e ao mesmo tempo criar um movimento na região, em 1981 foi realizada uma disputa de trenós puxados por cachorros, como as de antigamente, ou quase.

Hoje a raça dos cachorros é apurada para que eles tenham força e determinação. Os trenós são feitos com materiais de última geração e os cachorros têm até botinhas especiais para não esfolarem as patas na neve. Uma curiosidade é que muitos destes cachorros lembram vira-latas, mas devem valer uma fortuna!!

A matilha é separada por perfil dos cachorros: à frente vão os líderes que obedecem o condutor por sons que determinam se vão para esquerda ou direita, no meio vão os que tracionam de forma constante e os mais próximos do trenó os com mais força.

A prova é separada em duas categorias. A primeira com incríveis 1.200km que são completados pelo primeiro colocado em aproximadamente seis dias!! A largada é à noite.

Uma segunda mais “leve” com 500km!! Esta outra categoria é para principiantes mais jovens e que não querem tanta ralação. Nesta competição, o primeiro colocado completa em pouco mais de dois dias! Com largada pela manhã.

Para a competição mais longa, os trenós partem com até 14 cachorros. Tem vários “checkpoints” com veterinários e fiscais para avaliar a saúde dos animais. Somente o condutor pode alimentar, cuidar, fazer os abrigos para os cães descansarem. Durante a corrida, não pode haver troca de cachorros, mas claro que ao longo do percurso alguns vão ficando cansado. Estes são resgatados nos checkpoints. Se um trenó ficar com menos de seis competidos, é automaticamente desclassificado.

E quem determina quando e onde descansar? Os próprios cachorros! O condutor prepara a comida, faz os abrigos para cada um e somente aí ele vai se alimentar e descansar. Isso leva o condutor a um descanso de poucas horas por dia.

A competição virou festa nacional, transmitida ao vivo para todo país e pude ver que de fato é um mega evento e uma alegria para todos.

A largada é no centro de Alta, onde uma pista com neve é preparada e isolada, mas não conta pontos para a disputa. É preparada para ser uma festa midiática para promoção do evento e da região. As crianças, supervisionadas pelos pais, entram na pista preparada para a largada e estendem as mãos para o condutor do trenó as cumprimentar.

Ao longo de todo o caminho onde cruzam locais de mais fácil acesso a população se aglomera para cumprimentar os participantes com muito entusiasmo, demonstrando um carinho pelos competidores.

Não é para menos! Além de a competição em si ser um desafio enorme, ela é internacional. Os participantes chegam, com seus cachorros transportados em furgões especiais, de vários locais da Europa e até dos Estados Unidos, onde também há um evento semelhante, seguindo a antiga rota do ouro no Alasca, onde assim como aqui, usavam os cachorros como tração.

O que impressiona é a descontração e a alegria das pessoas vendo os trenós passando, em especial os pequenos, que ficam à vontade numa temperatura congelante, numa paisagem toda pintada de branco.

Sem dúvida uma experiência inesquecível!!

Confira abaixo os registros que fiz por lá:

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Para saber mais sobre a competição e a história dos trenós de cachorros confira esta página e esta outra

Fotógrafo profissional com ênfase em imagens de natureza, turismo e viagens. Autor de 14 livros e 25 exposições individuais, sendo quatro internacionais. Percorreu todos os biomas brasileiros, viajou para vários países de outros continentes, fotografando para revistas, ONGs e empresas.

Zig Koch

Fotógrafo profissional com ênfase em imagens de natureza, turismo e viagens. Autor de 14 livros e 25 exposições individuais, sendo quatro internacionais. Percorreu todos os biomas brasileiros, viajou para vários países de outros continentes, fotografando para revistas, ONGs e empresas.

Um comentário em “Trenó de cachorros

  • 23 de Abril de 2018 em 9:18 AM
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    Animais não nasceram para serem explorados em touradas, rinhas, caçadas, zoos, aquários, circos e corridas com qualquer espécie animal em nome de alguma tradição ou evento pseudo cultural que humanos promovem sempre priorizando seus próprios interesses. A realidade dos animais não costuma coincidir com sonhos humanos, é pena, mas a coisa está mudando no Planeta, lentamente, é verdade, mas está.
    https://www.anda.jor.br/2017/05/coca-cola-patrocina-corrida-matou-mais-de-150-caes/

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