Travessia do Grande Sertão

O tema deste post é de grande importância, pois o turismo sustentável representa uma ótima alternativa para as populações que habitam o interior do Brasil. Na região localizada a 292 quilômetros de Belo Horizonte, um caso merece destaque pelo pioneirismo dos moradores que saíram na frente e fizeram a diferença – razão pela qual será apresentado em duas partes: neste e no próximo post (13/2).

 

Nos altos das serras Gerais, os povos antigos se integram ao ritmo da natureza desde os primórdios. São filhos da terra, de onde tiram o sustento para famílias de muitos parentes. O Alto Jequitinhonha abriga centenas de comunidades tradicionais. De Diamantina ao Serro, cerca de 300 povoados se ajustam entre montanhas rochosas, campos rupestres, cânions e cachoeiras. Na Cordilheira do Espinhaço, o meio impõe ciclos que regem o cotidiano de agricultores, coletores de flores, tropeiros e garimpeiros. Passado e presente se confundem em um espaço geográfico que revela, no traço forte do sertanejo, a herança extrativista.

Em princípio, o cenário composto por hábitos ancestrais evoca o lirismo. A realidade, entretanto, apresenta dados preocupantes. Com o passar das gerações, a presença ininterrupta do homem sobre o meio resultou em colapso. Não por menos, parte considerável da extensão territorial que integra o Circuito dos Diamantes foi transformada em área de preservação ambiental. Por um lado, um ganho, já que a criação de reservas ocasionou a regeneração de inúmeras espécies da fauna e flora. Por outro, uma perda, pois os habitantes dos vilarejos localizados no entorno das Unidades de Conservação (UC) ficaram impossibilitados de fazer uso dos recursos naturais provenientes de um solo que, há séculos, serve de referência para a sua economia de subsistência. O entrave gera um conflito ainda sem solução. Moradores, representantes do Governo, integrantes de organizações sem fins lucrativos e pesquisadores abriram debate. A pauta inclui a regularização fundiária no perímetro interno das UCs e o desenvolvimento de projetos que visem a preservar a natureza e, simultaneamente, manter as comunidades.

Foi dentro de tal perspectiva que o turismo surgiu como aposta para o futuro. Na busca por saída, Felipe Ribeiro, proprietário da operadora Serra Sertão, idealizou o roteiro Travessia dos Parques e Vilarejos da Terra dos Diamantes. O objetivo é conservar a biodiversidade e fortalecer as comunidades do entorno dos parques do Mosaico do Espinhaço: Alto Jequitinhonha – Serra do Cabral por meio da atividade turística e produção associada ao turismo, tais como o artesanato e o cultivo de hortifrutigranjeiros. “Não é a salvação, mas é algo que gera aumento na renda mensal das famílias residentes”, diz. Entre as etapas estão a implantação de hospedagem domiciliar, o treinamento de condutores – cerca de 60 moradores –, o mapeamento de caminhos e as oficinas de capacitação. São 200 quilômetros de travessia, passando por várias comunidades tradicionais.

Passo a passo

A cidade base é Diamantina. Dela, partem grupos de viajantes que variam de duas a dez pessoas. Da praça dos Tropeiros, ponto de encontro de comerciantes locais em dias de feira, tem início o Caminho dos Escravos. Construída no século XVIII, a trilha termina no alto da Igreja Nossa Senhora das Mercês, no povoado de Mendanha. Foram 20 quilômetros abertos na mata para escoar a produção de diamantes de Mendanha para Diamantina. No começo do século XIX, além das pedras, tropeiros transportavam mercadorias de um lado para o outro. O monitor ambiental do Parque Estadual do Biribiri, Tadeu José Fernandes, 42 anos, relata que durante o trajeto pode-se observar plantas e bichos. “O caminho chama a atenção pela sua importância histórica, mas é cruzando a mata que as pessoas descobrirão relíquias como as cachoeiras do Pai Rocha, Vô Toninho e da Biquinha”, diz.

No percurso, o turista passa por dois quilômetros de calçamento antigo bem preservado. Por fim, chega-se a Mendanha, um vilarejo encurvado, de chão vermelho, casario colonial e gente simples. Seus 625 moradores vivem da agricultura e do garimpo. Os muros de pedra de cantaria ainda separam alguns terrenos em Mendanha a incluir o do Cemitério dos Escravos, um reduto emblemático, mas abandonado pelo patrimônio. Quem passa pela frente do lugar lamenta a falta de zelo do poder público.

Do outro lado da ponte que corta o Rio Jequitinhonha está a casa de Naciba Amin Lauar de Almeida, 68 anos, a dona Ciba. A filha de libanês trabalha com receptivo familiar há quase 10 anos. “Casei com um diamantinense que sempre teve o sonho de tratar garimpo aqui. Mudamos pra cá há 31 anos. Tinha vez que tirava, numa passada só, um quilo de diamante e quatro de ouro”, recorda. 

Cachoeira do Crioulo, no Parque Estadual do Rio Preto, é atrativo do roteiro

Fotos: Tom Alves

Carolina Pinheiro

Jornalista e documentarista, colabora com importantes publicações nacionais e internacionais. Viaja o Brasil atrás das histórias do povo, de cantos que não constam no mapa, de lugares distantes das principais rodovias. Traz a reportagem na veia. Em 2014, fundou a Nascente Casa Editorial, onde trabalha com a produção de conteúdo sobre cultura popular, meio ambiente e turismo sustentável no país.

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