Trabalhadores recuperam empresas falidas e criam cooperativas

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Quando trabalhadores se unem para recuperar empresas falidas ou inviabilizadas economicamente, surgem as chamadas Empresas Recuperadas por Trabalhadores (ERTs).

As primeiras experiências de ERTs no Brasil, segundo dados do Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA), ocorreram na década de 1980, mas foi mesmo nos anos 1990 que se observou um crescimento dessa movimentação, em especial diante do quadro de crise econômica da época. Como reação e resistência ao fechamento de empresas e à perda de postos de trabalho, houve uma ampliação do número de experiências de ERTs.

De uma dessas experiências surgiu, por exemplo, a maior fabricante de anéis, flanges e conexões de aço forjado de toda a América Latina – a Cooperativa Central de Produção Industrial de Trabalhadores em Metalurgia (UNIFORJA), criada em meados de 2000 em Diadema.

Ainda segundo o levantamento do IPEA, a maior parte das empresas recuperadas localizam-se justamente na região Sudeste do país, mais industrializada. Conheci uma delas, a cooperativa Unimáquinas, em São Bernardo do Campo, em São Paulo.

imageCom a falência da empresa em que trabalhavam, um grupo de funcionários criou, em 2010, a cooperativa. Como fiéis depositários do maquinário da antiga empresa, começaram um novo processo de produção. Dos 60 operários que originalmente trabalhavam na antiga fábrica, 22 formaram a Unimáquinas, com a orientação da Central de Cooperativas e Empreendimentos Solidários (Unisol Brasil).

O grupo trabalha com componentes metálicos e desenvolve máquinas por encomenda, de acordo com necessidades muito específicas de cada cliente. É deles, por exemplo, a peça que modela as pastilhas Garoto, desenvolvida ainda quando trabalhavam na antiga empresa. Os maiores clientes são da indústria farmacêutica: as máquinas são desenvolvidas para dar forma a comprimidos e cápsulas, em tamanhos variados e muitas vezes pequenos, pouco comuns. Mas a carteira de clientes inclui, ainda, indústria alimentícia, veterinária, de cosméticos e química em geral.

“No começo foi muito difícil porque estávamos acostumados a trabalhar só em produção. E na cooperativa você não trabalha só em uma área especifica, todo mundo faz de tudo. Tem que fazer o administrativo, estar na rua buscando cliente, produzindo, enfim. Foi difícil nos acostumarmos a fazer tudo”, avalia Domingos Anjos Lago, atual diretor da cooperativa.

A transição da empresa para a estrutura de cooperativa foi o momento mais complicado para o grupo. Chegaram a receber cestas básicas do sindicato por um ano, até conseguirem se estabelecer e conquistar boa clientela. Alguns cooperados se dividiam entre a Unimáquinas e outros trabalhos para pagar as contas.

“É bom não ser empregado, ter seu próprio negócio. As dificuldades existem em todo lugar, mas só o fato de poder decidir, dentro da sua própria empresa, as prioridades, poder reunir todo mundo para melhorar um produto, isso já é muito bom”, avalia o secretário da Unimáquinas, Marcos José Lopes. “Começamos a ser reconhecidos pelo mercado, temos uma retirada mensal razoável hoje, e nossa maior vitória foi a compra da massa falida da empresa em 2015”.

Esse era um fantasma que perseguia o grupo. Como fiéis depositários dos equipamentos da empresa falida, sabiam que, em algum momento, tudo iria a leilão, e o temor era não terem recursos para adquirire os equipamentos. “Ficar sem as máquinas significava quebrar a cooperativa porque muita coisa a gente sempre fez com esse equipamento. Conseguir comprar tudo foi a maior conquista da gente, depois de muita luta para economizar os recursos necessários. Todo mês guardávamos uma parte do faturamento, sem saber se o que tínhamos daria para arrematar as máquinas. E conseguimos”, relembra Lago.

Hoje, a Unimáquinas conta com oito cooperados e quatro celetistas – dois registrados e dois em fase de testes. O integrante mais jovem tem 23 anos e o mais velho 60. A média é de 40 a 45 anos. O faturamento mensal do grupo gira em torno de R$ 100 a 110 mil.

“Não temos o temor de ser demitidos, mas, por outro lado, temos que trabalhar o dobro, porque somos empregados e ‘patrões’ ao mesmo tempo. Adquirimos muita experiência, e compartilhamos o que sabemos com todos os interessados. O que aprendemos não fica só nas mãos de uma pessoa”, diz Lopes.

A Unimáquinas é responsável, este ano, pela criação dos troféus para a 5ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental. As peças, confeccionadas a partir de chapas e peças reaproveitadas em inox, serão entregues aos vencedores da Competição Latino-Americana e do concurso de curtas universitários. “É uma coisa nova para nós [a criação de um troféu], mas como é um material com o qual já estamos acostumados a mexer, o inox, tudo foi bem. Uma parte do processo tivemos que terceirizar, porque não tínhamos condição de fazer aqui – o corte do macaco, a laser, na chapa. De modo geral a gente achou que o troféu ficou bom”, avalia Lopes.

Foto: Divulgação 

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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