Carinho e respeito onde menos se espera

Toulouse-Lautrec: carinho e respeito onde menos se espera

Achincalhadas e achincalhados, uni-vos. Saiam às ruas, pedindo ao seu Deus o nascimento de mais Toulouses-Lautrec. Procurem por aí artistas que optem por retratar o que a sociedade, do alto dos seus credos, prefere, à luz do dia, cinicamente, esquecer. Gente que, como Lautrec, aplica respeito e tinta nas telas dos diversos personagens à margem de uma Paris na efervescência artística da virada do século 19. A luz elétrica recém iluminava a cidade e tomava conta dos cabarés, restaurantes, bares e casas noturnas. Fico aqui pensando se o pessoal da noite não deve ter achado que era muita luz.

Tento imaginar como deve ter se sentido a conhecida dançarina da época Jane Avril ou o dono de cabaré e compositor Aristide Bruant, esses dos cartazes em litogravura que Lautrec parece ter feito com tanto gosto para anunciar os espetáculos à gente distinta que passava nas ruas, olhando de canto de olho, fingindo desinteresse.

Mais luz, menos pontos de fuga para os trabalhadores, que à noite gostavam de se esconder em algum quarto na companhia das mulheres que iriam saciar seus desejos, preencher buracos de frustrações, fazer esquecer a rotina difícil…

Eles iam embora e no dia seguinte, elas poderiam, quem sabe, acordar na Saint-Lazare, nome de uma prisão que funcionava também como enfermaria, para onde iam muitas das prostitutas.

“Iam para lá mulheres infectadas pela sífilis e prostitutas que se recusavam a se cadastrar na polícia, chamadas de ‘insubmissas’”, diz a inscrição ao lado deste quadro na exposição no MASP, em São Paulo. A Saint-Lazare virou título de uma canção de Aristide Bruant.

“Segundo a canção (ouça gravação mais tardia) de sabor irônico, a personagem triste e solitária, com sua touca de reclusa, escreve uma carta ao seu cafetão-amante e lamenta não ter nada a lhe oferecer, dizendo que o adora tanto quanto adorava a Deus quando fez primeira comunhão”, continua a inscrição.

Na época, a prostituição era permitida. Não sei se eram mais ou menos dignas de respeito, essas mulheres. Difícil medir isso numa sociedade. Mas, o fato é que a prostituição era vista como um mal necessário para acalmar os ânimos e preservar a inocência das virgens solteiras. E, tomando por base a atitude artística de Lautrec, pelo menos, a sensação de mais respeito fica em mim.

O sentimento transmitido nas telas é o carinho pelas pessoas retratadas. Havia proximidade. Ele era admitido na outra intimidade, nessa que não é íntima aos frequentadores. Nessa familiaridade do dia claro, mais doído, que, em geral, ninguém quer saber. Nas pinceladas daquele jeito rabiscado de cortar a tela, vejo uma atmosfera, um ambiente e não necessariamente forma. Vejo  necessidade de dar movimento ao que de dia parece parar.  Às vezes, chego a sentir o ar morno, o cansaço íntimo, o sono fugidio.

Me trouxe um riso de canto de boca, uma vontade de aplaudir, ver a série de 16 retratos ovais das mulheres de uma Maison Close – como eram chamadas essas espécies de bordeis pintados pelo artista. Estava escrito que esse bem acabado formato oval só poderia ser usado nas pinturas de reis e imperadores?

E quando ele pinta em cartão, papelão, deixando, em algumas partes, a textura à mostra? Recorrendo a ideias, digamos, opostas, me dá aquela mesma vontade de aplaudir.  Suporte rude para mostrar essa vida dura.

Na primeira parte da exposição, vemos mulheres que não se insinuam. Não há olhar de desejo. Elas não estão ali como mercadoria. Na obra que abre “O Divã”, vestem bastante roupa, ali esperando entediadas os clientes. É este trabalho que dá nome à mostra: Toulouse-Lautrec em Vermelho, em alusão ao salão de entrada de um famoso bordel frequentado por ele, que viveu pouco, atingido por sífilis e alcoolismo.

Lautrec morreu aos 36 anos, sempre pintando essas mulheres que permaneceram anônimas nos quadros, bem diferente do que quando pintava homens. Desses retratados sabemos todos os nomes. Os nomes delas não importavam. Tão diferente conjuntura social naquela época e hoje… Mas, essas mulheres continuam anônimas, provocando vergonha de soslaio nos comportados de plantão.  Ou naqueles que de dia, na dúvida, atravessam a rua. E de noite param o carro para perguntar quanto é o programa.

 

TOULOUSE-LAUTREC EM VERMELHO
Data: 
até 01/10/2017
Horário: terça a domingo, 10h às 18h, quinta-feira, 10h às 20h
Local: Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP)
Endereço: Avenida Paulista, 1578 – Cerqueira César – São Paulo

Imagens: wikimedia commons (abertura), divulgação e arquivo pessoal 

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

Karen Monteiro

Se tiver arte, tá tudo bem. E se puder usá-la como gancho para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Mas, sem dúvida, prefere os simpósios, palestras e cursos livres de arte que vive respirando por aí. Isso quando não está em alguma exposição, espetáculo ou fazendo docinhos indianos para resgatar as origens

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