Tire a foto antes que derreta

Ondas de um calor vibrátil atingiam nossos rostos enquanto andávamos em meio àquela paisagem lunar. Era pleno verão no deserto argentino, e os termômetros batiam a casa dos 40°C na sombra. Na ocasião, eu viajava com minha família entre as províncias de Salta e Jujuy, e aquela era possivelmente uma das paisagens mais áridas e inóspitas em que já estive em toda a minha vida. Torres de arenito alaranjadas e escarpas onduladas multicoloridas faziam contraste com as rochas acinzentadas da Cordilheira dos Andes ao fundo. Todos os elementos se combinavam para um cenário digno de filmes de faroeste. 

Para nossa surpresa, um elemento muito mais estranho nos aguardava poucos quilômetros à frente: bem no meio daquele deserto tórrido, uma imponente montanha despontava com seu cume completamente coberto de neve. Algum tempo depois, descobrimos que se tratava do Nevado de Cachi, uma das montanhas mais altas da Argentina, com 6380 m.

Para completar nossa perplexidade, nos deparamos também com uma minúscula vila e um pequeno cemitério com lápides cobertas de coroas de flores despontando da areia. Para meu pai, que nunca tinha visto neve na vida, o choque foi ainda maior. Sua primeira reação, enquanto enxugava as gotas de suor da testa, foi exclamar com o bom humor habitual: “Rápido, tire a foto antes que a neve derreta!”. Todos rimos, contemplamos a paisagem, fizemos nossas preciosas fotos e seguimos viagem. 

Foi apenas depois de retornar ao Brasil que comecei a pensar nas várias mensagens nas entrelinhas daquela conversa e da exótica paisagem. Primeiro, na fala do meu pai. Há anos os geógrafos, biólogos, montanhistas e climatologistas vêm registrando uma redução contínua e acentuada nas geleiras e nos níveis de neve de montanhas ao redor de todo o mundo. Muitas destas montanhas, inclusive, não registram sequer a metade do aporte de neve observado há cerca de 30 anos atrás na mesma época do ano. Outras, em casos mais extremos, não mais são cobertas de neve no verão ou mesmo no inverno.

Esse processo reflete as mudanças climáticas observadas desde a Revolução Industrial, que destoam em muito dos ciclos periódicos de aquecimento e resfriamento observados ao longo da história da Terra, e registrados nos gases presos no gelo e também na composição química das rochas. O advento dos motores a vapor e a combustão, a queima de combustíveis fósseis e a drástica redução das florestas são as principais causas da elevação da temperatura média no planeta. 

Meu pai estava certo. Aproveitemos aquele lindo contraste antes que desapareça, pois em breve é possível que não tenhamos mais cumes nevados em regiões desérticas como esta, que são especialmente vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas.

A outra mensagem que tirei daquela situação, observando as lápides em meio ao deserto, foi da vulnerabilidade humana diante da natureza. Não só somos completamente dependentes dos recursos naturais para toda e qualquer atividade, desde a produção de alimentos até a saúde pública, a construção civil e o desenvolvimento tecnológico, como estamos também à mercê da sua falta. As alterações que nós mesmos temos provocados já estão colocando nossa própria espécie (e tantas outras) numa rota perigosa rumo à extinção.

Saibamos observar melhor os sinais e pensar nos efeitos das nossas ações sobre a Terra, nossa única e preciosa casa.

Foto: Augusto Gomes

Augusto Gomes

Biólogo, mestre em ecologia e fotógrafo de natureza. Desde 2010, desenvolve pesquisas sobre ecologia e conservação de ecossistemas tropicais, com foco em morcegos e cavernas. Atualmente, está interessado no uso da fotografia e do vídeo como ferramentas para a divulgação científica e conservação da biodiversidade, e também, em encontrar soluções inovadoras para os problemas ambientais ao redor do mundo. É colaborador de empresas e instituições voltadas para a conservação ambiental, como National Geographic, Conexão Planeta, Instituto Últimos Refúgios, Instituto Prístino e Editora Saraiva. Vencedor de prêmios internacionais, é membro da Associação Brasileira dos Fotógrafos de Natureza (AFNATURA) e trabalha como consultor ambiental independente. Conheça mais na sua página Andirá Imagens

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