Tinta natural, que pode até ir na boca? Sim, ela existe e é brasileira!

Desenhar a terra com tinta feita de cacau. Ou então, o sol brilhando no céu com a cor do açafrão. E ainda, uma flor vermelha linda, com tinta de urucum e suas pétalhas, verdes e brilhantes, com os tons do espinafre.

Imaginação? Não, realidade. As tintas acima foram desenvolvidas por três designers cariocas: Rafael D’Ávila, Amon Pinto e Pedro Ivo Costa. Os três amigos e sócios fundaram a Mancha, que produz tintas orgânicas, a partir de pigmentos naturais de flores, frutos, raízes, folhas e vegetais (e com aglutinantes e fixadores naturais também). Elas podem ser aplicadas em papel ou madeira, usadas, por exemplo, na pintura de mobiliários, sinalização, materiais gráficos, dentre outros.

“Tirar pigmento da natureza e transformar em uma pintura, o homem já faz desde a Idade da Pedra. Mas foi num curso do Centro Tibá de Tecnologia Intuitiva e Bio-Arquitetura, que conseguimos entender como trabalhar a matéria-prima vegetal para a produção de tintas na textura que a gente queria”, conta Pedro ao Conexão Planeta.

O grande diferencial das tintas da Macha é, sem dúvida nenhuma, que elas são completamente atóxicas, ou seja, podem ser manipuladas com a mão, o pé – como na foto abaixo -, e até, ir na boca, sem problema nenhum para aquelas crianças que adoram “experimentar” tudo que é novo.

No processo tradicional de fabricação de tintas são utilizados muitos produtos químicos, o que, além de as tornaram tóxicas, faz com que seus resíduos tenham impacto sobre o meio ambiente, poluindo rios, lagos e mares e ainda, contaminando o solo.

“A gente brinca que este é um produto para manter ao alcance das crianças”, diz Pedro. “Elas podem brincar com a tinta e colocar na boca. Nossa ideia é que a tinta as aproxime tanto do conceito de sustentabilidade, quanto o de alimentação saudável”.

Tinta natural, que pode até ir na boca? Sim, ela existe e é brasileira!

A tinta orgância é atóxica, feita exclusivamente com insumos naturais

A Mancha é, na realidade, uma unidade de negócios dentro de outra empresa, a Zebu, também criada pelos jovens designers do Rio de Janeiro, e que tem como foco aliar design e marketing à sustentabilidade, como em projetos, por exemplo, de ecodesign e branding.

“Queremos trabalhar com empresas que gerem lucro e ao mesmo tempo, impacto social e ambiental positivo. Este é o nosso principal objetivo”, explica Pedro.

Inovação premiada

No final do ano passado, a inovação do produto da startup já rendeu duas conquistas aos sócios cariocas. A primeira delas é que a Mancha foi selecionada para participar do programa da Incubadora de Empresas da COPPE, o instituto de pós-graduação e pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Nós fizemos o caminho inverso da maioria das empresas que estão na incubadora. Já tinhamos uma ideia de negócios e entramos lá para buscar respaldo acadêmico e científico para as tintas poderem ser comercializadas em maior escala”, afirma o fundador da Mancha. “Nossa ideia é ter parcerias com laboratórios de química, principalmente, para criação de fórmulas para aplicação na indústria, em diversos segmentos”.

A outra conquista da fabricante de tintas orgânicas foi ser a grande vencedora de um desafio nacional, promovido pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, em parceria com a Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores, que buscava incetivar negócios de impacto positivo na conservação da biodiversidade.

Espinafre, canela, beterraba e açafrão: a tinta da mancha vem direto da natureza

Como prêmio, a Mancha participou de uma imersão em negócios e preservação da natureza no Boticário e visitou a Unidade de Conservação Reserva Natural Salto Morato, no Paraná. “Foi muito importante para a gente aprender como fabricar em larga escala e ainda, como inserir a questão da biodiversidade brasileira no nosso produto”, conta Pedro. “Outro ponto também foi entender como estruturar nossa cadeia de fornecedores, de forma adequada e levando em conta as questões ambientais”.

Um arco-íris mais sustentável

Atualmente a Mancha fabrica 50 cores de tintas orgânicas, que vão do preto até o azul claro, passando por verde, vermelho, laranja e amarelo. A produção ainda é realizada em pequena escala e sob encomenda. Do cacau, por exemplo, é feito desde o marrom claro até o preto, da beterraba surge um tom de roxo, e o azul, uma das cores mais difíceis de serem criadas, já que ela é rara na natureza, vem de uma mistura de mirtilho com repolho-roxo.

“O mais interessante do processo de produção das tintas é aproximar as pessoas de suas matérias-primas”, garante Pedro.

Neste momento inicial, o foco da Mancha é trabalhar as tintas orgânicas para o universo da educação infantil. Já foram realizados vários workshops no Rio, onde as crianças puderam experimentar as cores naturais no papel.

“Com os pequenos, acreditamos que podemos falar sobre planeta, sustentabilidade e alimentação saudável, desde cedo, para que estes conceitos já estejam entranhados na cabeça deles”, diz. “São eles que vão construir as empresas, as casas e os condomínios depois dos nossos”.

Crianças participando do workshops com as tintas orgânicas

Mais adiante, a Mancha pretende que suas tintas também sejam utilizadas em outros setores. Já foram feitos dois trabalhos experimentais neste sentido. Um deles, com o Brownie do Luiz, uma marca muito popular no Rio de Janeiro, para quem foi produzida uma edição limitada de embalagens e displays de balcão com tinta de cacau. O bacana é que a matéria-prima utilizada, neste caso, revela Pedro, foi comprada na “xepa” dos centros de distribuição de alimentos, ou seja, restos que iriam ser descartados.

Outra experiência foi realizada com uma empresa de azeites. Os jovens empresários desenvolveram uma gôndola pintada com tinta à base de azeitona.

Pode colocar a mão na boca, não tem problema! É tinta de cacau!

“Percebemos que a tinta orgânica tinha um grande potencial comercial que não estava sendo explorado”, destaca o fundador da Mancha.

Ponto para ela! O Brasil e o mundo precisam de mais empresas, ideias e empreendedores assim: que saibam gerar renda, mas sempre respeitando o meio ambiente em primeiro lugar.


Fotos: divulgação Mancha

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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