Tinha uma árvore no meio do caminho


Viajar pela Amazônia é sempre uma aventura. São muitas variáveis a considerar: clima, distância, maré, segurança e por aí vai. Além disso, as informações são muitas vezes confusas e baseadas apenas nas experiências pessoais de cada um. Por exemplo… se você perguntar a duas pessoas diferentes quanto tempo leva pra chegar a um mesmo lugar as respostas podem ter horas de diferença e, mesmo assim, as duas estarão corretas.

Em janeiro deste ano, durante uma viagem para produzir um documentário sobre economia florestal para o ISA – Instituto Socioambiental, passei por uma dessas inusitadas experiências junto com todos os colegas de trabalho.

Saímos de Altamira em direção à Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio (criada em 2008 na Terra do Meio*), onde vivem várias famílias ribeirinhas que preservam a floresta de onde tiram seu sustento. A previsão inicial era que a viagem durasse entre oito e dez horas, mas a maré não estava favorável e tivemos que fazer um pernoite no meio do caminho.

Na manhã seguinte, partimos para vencer as duas ou três horas de viagem que faltavam para chegarmos ao destino. Mas…. parafraseando o belo poema de Carlos Drummond de Andrade: “No meio do caminho tinha uma árvore, tinha uma árvore do meio do caminho”. Me aproprio dos versos do poeta para relatar nossa curiosa experiência.

De manhã bem cedo todos ainda se refaziam da noite anterior tomando um belo açaí a bordo da voadeira e tudo parecia correr como havíamos planejado. Pouco mais de uma hora de viagem depois, entramos no Riozinho do Anfríso, um rio muito estreito e sinuoso e, na segunda ou terceira curva, nos deparamos com uma árvore caída, atravessada no rio.

O que esperávamos ser uma viagem tranquila começou com um grande obstáculo que, de cara, parecia intransponível.

Nos entreolhamos com aquela cara de quem pensa: “deu merda!”, e sem ânimo para manifestar verbalmente o sentimento de frustração que nos dominou. O silêncio tomou conta do ambiente. Para nós, ali se encerrava qualquer possibilidade de seguir  em frente, para o trabalho planejado cuidadosamente durante meses.

Mas, antes que o desânimo tomasse conta de todos no barco, nosso piloto, Nim – uma mistura de Rambo com MacGyver, mas bastante acima do peso -, pacientemente procurou um galho para amarrar a voadeira. Com o barco devidamente amarrado e sob os olhares atentos de toda a equipe, ele puxou um machado e, com extrema habilidade, em menos de dez minutos cortou o tronco da árvore caída e o caminho ficou livre para seguirmos viagem (assista ao vídeo no final deste post).

Restaurados o bom humor e a certeza de que chegaríamos ao nosso destino e, finalmente, começaríamos a trabalhar, os sorrisos e as conversas tomaram conta do barco, não sem antes homenagearmos o piloto com gritos, assobios e uma merecida salva de palmas.

No caminho, outras duas árvores menores nos impediram de chegar ao destino na hora prevista, mas depois da primeira experiência, nessas outras vezes, ninguém teve dúvidas de que chegaríamos à reserva extrativista e de que o trabalho seria realizado a contento.

Agora, veja (no vídeo abaix0) a destreza de Nim com o facão no rápido vídeo que fiz na ocasião.

*A Terra do Meio, no Pará, reúne três reservas extrativistas: Riozinho do Anfrísio, Iriri e Xingu.

https://youtu.be/OLB2S9rmyQM

Iniciou sua carreira em fotografia, documentando os costumes e a cultura dos índios brasileiros para o Museu Emílio Goeldi. Trabalhou para agências de notícias, grandes jornais, fotografou, editou e logo descobriu sua paixão pela fotografia documental (ministra workshops com o maior prazer). Teve editora (Mandioca) e revista (Pororoca) pra falar só de temas relacionados à Amazônia. Hoje, desenvolve projetos editoriais – entre os quais se destaca o livro sobre os índios Zoé – e colabora com as ONGs Greenpeace e Instituto Sociambiental (ISA), cobrindo principalmente a realidade dos povos originais. E, assim, voltou às origens: aos índios.

Rogério Assis

Iniciou sua carreira em fotografia, documentando os costumes e a cultura dos índios brasileiros para o Museu Emílio Goeldi. Trabalhou para agências de notícias, grandes jornais, fotografou, editou e logo descobriu sua paixão pela fotografia documental (ministra workshops com o maior prazer). Teve editora (Mandioca) e revista (Pororoca) pra falar só de temas relacionados à Amazônia. Hoje, desenvolve projetos editoriais – entre os quais se destaca o livro sobre os índios Zoé – e colabora com as ONGs Greenpeace e Instituto Sociambiental (ISA), cobrindo principalmente a realidade dos povos originais. E, assim, voltou às origens: aos índios.

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