Tinha uma aranha no meio do caminho…

aranha

Enquanto andávamos pelo Parque Villa Lobos rumo à entrada da trilha onde faríamos o nosso encontro, a Carol, uma garota de 10 anos, viu uma aranha. No mesmo momento, ela começou a gritar e a chorar, demonstrando muito medo do animal. A mãe, Elisabeth, nos contou que desde pequena ela tem muito medo de aranhas.

Faziam parte do grupo ainda a Ana Carol (com quem divido este blog) e a Greta (uma das facilitadoras que nos acompanhava), que estavam reunindo o grupo para iniciar as brincadeiras. Renata, outra facilitadora, foi até a menina para conversar. Ela estava abraçada com sua mãe, tentando se acalmar.

Renata, então, contou que, antes de todos os participantes chegarem, ela, Ana e a Greta percorreram o trajeto e avaliaram todos os riscos existentes, retiraram lixo, e verificaram se havia algo que representasse perigo. Tudo estava bem harmônico e tranquilo, ali, naquele trecho da mata.

Logo, Renata continuou, explicando para a menina, ela podia ficar tranquila que não haveria aranhas na trilha, mas, se alguma aparecesse, deveríamos lembrar que elas estão em seu lugar, em sua casa, bastava deixá-las sossegadas onde estiverem e se afastar com calma. Então, entregou um graveto à menina e sugeriu que ela poderia utilizá-lo para tirar teias que encontrasse no caminho. Apesar de não estimularmos nenhum tipo de agressão aos animais, o pedaço de madeira servia de referência para que a menina se sentisse mais segura, para lidar com (e elaborar) o medo que sentia.

Renata ainda contou um segredo para Carol: ela tem muito medo de borboletas. E este é um medo difícil de se ter, né? Afinal, existem muitas borboletas na natureza. Mas, de tanto brincar na natureza e passear em trilhas, Renata descobriu que se ela não chegar perto delas, nada vai acontecer.

Carol voltou para o grupo mais calma, e seguiu durante todo o tempo brincando! Revelou-se uma menina de olhar detalhado e atento às miudezas. Adorou encontrar formas na natureza cacheadas como seus cabelos. Fez amigos, pulou sobre raízes, procurou sementes, encontrou folhas muito diferentes. O envolvimento na brincadeira foi tamanho que ela pouco se lembrava do medo. E quando lembrava, tinha à mão seu graveto que lhe dava segurança enquanto desenvolvia a confiança em si e na natureza. No fim do passeio, Carol estava radiante de alegria. Sua mãe também estava orgulhosa.

A questão do medo é muito importante para o nosso trabalho, uma vez que ele é determinante da abertura e aprofundamento da relação com a natureza. Enquanto escrevíamos este post, Rita lembrou-se de um medo que tinha muito forte de cobras. Isso antes de ir para a faculdade de biologia e muito antes de começar a conduzir grupos em áreas naturais.

Na primeira vez que ela se deparou com uma cobra, em uma trilha do Parque da Cantareira, estava com um grupo de “marinheiros de primeira viagem” e preocupou-se em não assustá-los. Como estava na frente do grupo, parou e ficou observando a cobra. Respirou, ficou calma e pôde perceber que o medo que sentia antes era imaginário, talvez um medo herdado pois, naquele momento, apesar da responsabilidade de estar ali com aquele grupo, não sentia nenhum medo. Sentia mais é empatia em relação àquele ser.

Nós todos herdamos muitos medos. Uma parte de nossa sociedade se estabeleceu a partir da cultura do medo. O medo da natureza é talvez o maior de todos, devido ao afastamento e falta de oportunidades de lidar com ele, mas também tem o medo do outro, do diferente, e de tantas outras coisas que fogem do nosso papo.

É muito importante termos oportunidade para lidar com o medo; transformar o medo é algo fundamental para o nosso desenvolvimento, para vivermos com confiança e bem-estar. Assim como a Carol no Parque Villa Lobos, o medo precisa ser transformado. É diferente de enfrentar o medo. Às vezes, é necessário enfrentar também, mas isso pode enrijecer e o sentimento volta na próxima situação.

O medo tem de ser convertido em outro sentimento. Para isso, é preciso ter coragem, quer dizer, cor-agem, agir com o coração. Respirar fundo, buscar acalmar a mente, relaxar. O relaxamento é o guia. Deixar fluir, sem querer controlar a situação, confiar e se entregar. Falando assim, parece fácil, mas não é. Todavia, é perfeitamente possível e está ao alcance de todos, inclusive das crianças pequenas.

Foto: Aaron Burden/Unsplash

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto “Ser Criança é Natural” para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

Ana Carolina Thomé e Rita Mendonça

Ana Carolina é pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica, e trabalha com primeira infância. Rita é bióloga e socióloga, ministra cursos, vivências e palestras para aproximar crianças e adultos da natureza. Quando se conheceram, em 2014, criaram o projeto "Ser Criança é Natural" para desenvolver atividades com o público. Neste blog, mostram como transformar a convivência com os pequenos em momentos inesquecíveis.

Um comentário em “Tinha uma aranha no meio do caminho…

  • 3 de maio de 2018 em 7:29 PM
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    Animais sentem medo de pessoas também, e com toda a razão, humanos costumam adentrar o habitat deles nem sempre com boas intenções e geralmente tentando se defender do que julgam agressões à sua integridade. No entanto, sempre que pisamos o território deles, é justo que se sintam ameaçados do mesmo modo como nos sentiríamos se encontrássemos um leão na cozinha.

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