Tina Costa transformou sua infância difícil em luta contra injustiças sociais

Há pouco tempo, a administradora de empresas Tina Costa fez uma imersão de autoconhecimento e chegou à conclusão de que é uma pessoa difícil de se enquadrar nos padrões da sociedade. “Sou um mosaico e ainda em formação, mas ninguém é obrigado a ser uma coisa só”, diz a ativista social que, à frente da ONG Ministério das Escadas, atua para minimizar injustiças sociais na cidade de São Paulo.  

Com um histórico de violência doméstica e abuso sexual na infância, Tina resolveu transformar sua experiência em inspiração para projetos voltados a ajudar mulheres em situação de violência a superar traumas e a se defender, amparar refugiadas para começar uma nova vida, e tirar moradoras de favelas – em situação de carência extrema – da apatia, para que voltem a sonhar e a lutar por uma vida melhor.

“Meu objetivo é cuidar do próximo, levar o amor de Deus não em discurso, mas em ação. Já estive muitas vezes à beira do precipício, mas sempre contei com alguém vital que me ajudou – uma professora, uma amiga”, contou ela ao blog Mulheres Ativistas do Conexão Planeta. Por isso, Tina tem dedicado sua vida a iniciativas que procuram aumentar o potencial dos indivíduos, como a Unidiversidade das Kebradas, voltada ao desenvolvimento de aprendizagens a partir da sabedoria tradicional das pessoas.

Sua infância foi marcada por violência doméstica e abuso. Pode contar o que aconteceu?

Minha mãe foi uma menina sonhadora que se apaixonou por um roqueiro, que tocava na noite, e engravidou aos 16 anos. Após 17 dias de casada, tomou a primeira surra do marido. Não houve nenhum sinal antes de que ele poderia fazer isso. Ficou arrebentada, voltou para os pais, mas eles não a aceitaram. Ficou 19 anos casada e teve cinco filhos, dos quais sou a quarta.

Crescemos nesse ambiente de violência. Quando meu pai estava sóbrio, era presente e amoroso. Mas quando bebia, não precisava motivo para bater nela. Não era agressivo com os filhos, mas adoeceu a família toda. Havia muitas festas na família da minha mãe, que começavam bem, mas bebiam e tudo acabava em pancadaria. Sempre ouvíamos que o motivo era meu pai.

Lembro da minha mãe toda roxa, usando maquiagem para disfarçar. Ela tentava fazer um mundo imaginário pra nós. Quando chegava na escola, sempre tinha recadinhos dela: ‘você é uma filha linda, amanhã vai ser melhor’. Fazia isso com todos os filhos.

Um dia, quanto eu tinha 11 anos, ouvi meu pai chegando à noite e, pela maneira de virar a maçaneta da porta, já percebi que estava bêbado. Meus irmãos mais velhos estavam na escola e tive uma sensação de pavor. Levantei, peguei meu irmão caçula, que tinha onze meses, no berço e me escondi com ele dentro do guarda-roupa. Meus pais começaram a brigar e ele resolveu me procurar. Como não achou, começou a gritar ainda mais com ela. Fiquei desesperada, pulei a janela com o bebê e fui pedir abrigo na casa de uma tia. Acostumada com as brigas deles, ela disse que mais tarde nos levaria de volta.

Um pouco depois, meu irmão apareceu na minha tia com a polícia e disse que meu pai estava morto e que minha mãe o havia matado. Escapei e corri para casa, passei pelo cerco da polícia, fui segurada por uma tia, mas consegui ver minha mãe desorientada e o sangue de meu pai saindo pela porta. Ela foi presa em flagrante e gritava que havia matado o homem da sua vida.

Meu avô conseguiu tirá-la da cadeia em uns dois dias, para responder em liberdade, mas ela não voltou mais, morreu emocionalmente naquela noite. Não cuidava mais dos filhos, só bebia, chorava e chamava por ele. Os tios deram suporte, mas ninguém tem paciência para problema longo.

Meu avô, pai dela, tinha fama de bom, mas ninguém notava que ele era pedófilo. Nesse tempo todo, ele abusava de mim e da minha irmã. Abusou de mim desde os três anos e só parou quando eu menstruei, acho que por medo de gravidez. Não chegou a nos violentar, mas se esfregava. Não parou nem durante o luto.

Como você se libertou dessa situação?

Uns dois meses após a morte do meu pai, minha mãe entrou em uma fase de promiscuidade, levava homens para casa. Passei a abominá-la e só enxergava a assassina do meu pai. Meu avô veio e me levou, junto com minha irmã e o caçula, para morar com ele. O que era um pavor apenas em fins-de-semana, passou a ser diário. Minha rotina era não querer ir para a cama, para não acordar com ele em cima de mim. Minha avó era conivente, mas acabou com comprometimentos mentais. Meu avô a internava em clínicas psiquiátricas, o que piorava nossa situação. Ela me olhava com raiva, como se eu tivesse culpa.

Um ano e meio após a morte do meu pai, minha mãe também morreu. Seu fígado se dissolveu de tanto beber. Quando ela estava no hospital, não quis me despedir dela. Tinha 12 anos e depois me senti muito culpada. No enterro, me olhavam torto e ouvi comentários sobre nós, os filhos, não termos nenhum futuro. Foi nesse momento que comecei a pensar: vou fazer uma história diferente, preciso sair desse ciclo. Lia muito, de Shakespeare a Paulo Coelho, tudo o que caísse na minha mão e me fizesse fugir da realidade. Me envolvia com tudo na escola: grêmio, teatro, comecei a conhecer São Paulo e a me libertar, mesmo enquanto os abusos continuavam.

Aos 14 anos, os abusos pararam. Morei com meu avô até os 25 anos, quando ele morreu de câncer. Hoje, separo o abusador do meu avô. O impulso dele era tão forte, que esquecia o amor pela neta. É uma doença, ele chorava, me dava presentes. Quando estava muito mal, antes de ir para o hospital, me pediu perdão. Perdoei. Pediu para eu cuidar da família e fiz isso. Minha avó também morreu de câncer dois anos depois.

Qual foi seu primeiro contato com os temas sociais que acabaram norteando sua vida?

Após os 14 anos, minha cabeça virou. Queria ser escritora, jornalista. Cresci cheia de motivação. Comecei a trabalhar e deixei a faculdade para depois. Era boa com números e fui crescendo na carreira, mesmo sendo mulher e negra, não ligava para entraves. No início dos anos 1990, um universo novo se abriu. Comecei a namorar um rapaz que me apresentou o Geledés Instituto da Mulher Negra. Conheci mulheres incríveis, comecei a ser voluntária e a atuar no engajamento social.

Mas eu tinha comprometimentos sexuais por conta dos abusos. Estava apaixonada e era a primeira vez que sentia alguma coisa fisicamente. Me vi, novamente, vítima de um abusador. Ele me obrigava a fazer o que ele queria na cama, me ligava no meio da noite para ir à casa dele e aí dizia que não queria nada. Aos 19 anos, engravidei e ele me humilhou. Procurei um irmão e uma tia, que me ajudaram a fazer um aborto, o que foi muito doloroso. Não levei a questão ao Geledés, porque ele era queridinho lá, mas me afastei para não encontrar mais com ele. Nem me perguntou o que eu tinha feito. Passei os próximos anos focando no trabalho e aproveitando a vida, só pensava em balada e namorar. Também cursei Administração de Empresas.

Qual a origem do Ministério das Escadas?

Entrei na Currículo.com em 2003, para ser gerente financeira. Tinha acabado de me converter à igreja evangélica, mas a empresa tinha aversão à igreja e sofria muito bulling por isso, mesmo sendo uma boa profissional. Com o tempo, fui virando conselheira do pessoal e minha sala virou referência para isso, até os chefes começarem a implicar. Um dia, alguém me procurou para dizer que havia uma pessoa com problemas e fomos orar por ela na escada de incêndio do prédio.

Acabou virando uma rotina, íamos até lá para conversar e ter ideias, às vezes éramos 12 na escada. Eu e mais quatro meninas nos aproximamos e começamos a pensar em um plano para ser útil na empresa. O movimento começou a dar resultado, pois trabalhávamos questões humanas na empresa. Fizemos um encontro de três dias para os gestores das áreas em um resort. Os resultados financeiros começaram a aparecer.

Mas queríamos mais: E se fôssemos a um orfanato ou a um asilo para ver onde era nossa praia? Nascemos ali. Entre 2004 e 2005, criamos o Ministério das Escadas. Desde então, 750 pessoas já nos apoiaram, com recursos ou como voluntárias. Realizamos mais de 180 ações sociais, mesmo que, no início, nem soubéssemos que era um projeto social. Levávamos roupas, fazíamos currículos e o que as pessoas precisassem.

Fomos estudar esse universo quando resolvemos fazer a documentação para oficializar a ONG. Decidimos que nosso público seriam mulheres e crianças e que os projetos seriam para ajudar as pessoas a descobrir seu potencial. O objetivo é cuidar do próximo. Se necessário, primeiro damos comida e depois fazemos um plano, um mapeamento social para desenhar uma proposta para a pessoa junto com ela. Descobrimos que falta muita informação. Vimos pessoas doentes que não se tratam porque não sabem chegar ao SUS. Mães que levam sua crianças ao médico, mas não entendem o que ele diz.

A sexualidade é um dos focos importantes do trabalho da ONG?

Sim, um dos nossos primeiros projetos foi um trabalho que chamamos de Intimidade, sobre sexualidade feminina. Focamos em igrejas, pois elas não falam disso. Buscamos um modo bem-humorado de abordar temas como o orgasmo feminino. O objetivo é devolver à mulher o direito ao prazer, mostrar que não podem fazer sexo por obrigação. Para quem não tem vida sexual ativa, mostramos que também não precisa ser obrigação, que pode ter vários outros propósitos na vida, mas que é bom quando volta. Fiquei conhecida como missionária do sexo (risos). Fizemos esses encontros por cinco anos, agora ainda fazemos ocasionalmente.

Em 2018, desenvolvemos do Café das Marias, para ajudar mulheres no enfrentamento e prevenção da violência doméstica. Promovemos encontros onde sabemos que há mulheres em situação de violência. Procuramos destravar, tirar a culpa e oferecer possibilidades, mas cada uma tem um jeito de resolver. Uso minha história e digo que, quando uma mulher apanha, todos apanham.

Apresentamos tudo o que existe: Delegacia da Mulher, abrigos, leis. Defendo os aparelhos do Brasil, que temos que fazer funcionar. No grupo, temos uma psicóloga e uma pessoa de defesa pessoal, porque quando se está em um quarto com um agressor, precisa no mínimo saber como imobilizá-lo. Também trabalhamos com homens, porque temos que sair desse círculo de violência.

O Ministério das Escadas também atendeu refugiadas…

Fui levar roupas em um abrigo e conheci uma queniana, a Jeniffer, que tinha um bebê. Tentei conversar com ela e vi que ninguém lá falava inglês. Chamei uma amiga que era fluente e entendemos suas demandas. Fiquei amiga dela, mas há prazo para ficar no asilo e ela sumiu.

Um dia, ela me ligou, disse que indicaram uma casa para ela e, pelas características, vi que era um prostíbulo. Corri para lá, mas ela já estava devendo. Eu não tinha o dinheiro, então a levei à igreja. Pedi o microfone e pedi para as pessoas ajudarem. Queria uma casa e a segurança de um emprego. Alguém ofereceu um quarto, outros se mobilizaram e conseguimos mais de R$ 700 para pagar a dívida. Essa igreja a ajudou por três meses e a ensinaram a falar português. Consegui um emprego para ela em uma loja, onde ela trabalha há mais de quatro anos. Veio para cá depois de ser vítima da explosão de uma bomba. Quem sobreviveu, foi colocado em um navio para o Brasil. Achamos o marido dela e o trouxemos para cá.

O projeto Novo Tempo surgiu dessa experiência e era voltado para a empregabilidade de refugiadas. Juntamos voluntárias para montar currículos. Comecei com três refugiadas e, um ano e meio depois, eram 120, de várias línguas e locais. Tivemos que conseguir muitos intérpretes no grupo. Construímos um projeto em etapas: montamos estrutura de emergência, com cesta básica para algumas, aluguel para outras. Foram três anos trabalhando, nos quais percebemos o quanto nosso país é racista e xenofóbico.

Das 120 mulheres, só empregamos nove. Virou uma agência de emprego sem resultado. Os recrutadores falavam: “Não tem uma mais clara? Essa é muito escura’. ‘Essa tem cheiro forte, essa tem lábios grossos, o sotaque dessa é muito estranho’. Infelizmente, não estamos prontos para esse público.

Conversávamos com elas para explicar que tinham que trabalhar na linha do empreendedorismo. Mesmo que muitas tivessem atividades nesse sentido em seus países, não entendiam nossa linguagem. Estavam apáticas. Percebemos que estavam muito machucadas. Ficavam doentes e não iam ao médico por não terem dinheiro. Explicávamos que tinham direito ao SUS, mas chegavam lá com crianças doentes e os médicos as tratavam mal, tínhamos que ir junto para fazer barraco. Acabamos desistindo, em 2018, por falta de resultados. Estamos ainda estudando como retomar. Foi muito frustrante.

Mas a ONG continua trabalhando com temas relacionados à pobreza?

Hoje, somos dez pessoas no conselho da ONG. Das cinco fundadoras, apenas uma saiu, e somos duas que tocam o dia-a-dia. A questão espiritual é importante, mas não pregamos, fazemos. Neste ano, iniciamos um projeto de desenvolvimento para comunidades carentes – demos o nome de Ará, que significa ‘caminhar por um tempo’ em hebraico.

Começamos um projeto-piloto em março na favela Savoizinho, um lugar onde vivem aproximadamente 3 mil famílias – ninguém sabe o número certo de casas, algumas de papelão, onde há crianças passando fome e a maior parte das mães não trabalha, vai empurrando a vida, vivendo de cestas básicas. Essa favela fica entre o Parque do Carmo e o Shopping Aricanduva, o maior shopping da América Latina. Por baixo passam dutos da Petrobrás, que é dona do terreno.

Desenhamos um projeto com começo, meio e fim, com atividades artísticas para as crianças e oficinas para as mulheres. Queremos desenvolver a capacidade de sonhar, mostrar que há coisas melhores e que elas precisam descobrir. Trabalhamos com voluntários em fins de semana alternados. Estamos conversando com a Petrobrás para construir um parquinho para as crianças. Esse é meu sonho neste momento, já temos o projeto pronto. Aquelas crianças só veem mato, barro e esgoto, passam o dia dentro de casa. Não tenho a ilusão de mudar o mundo, mas se ajudar uma pessoa a viver melhor por vez, já tá bom.

Como você equilibra ativismo social com a vida profissional e de mãe?

Em 2008, já tinha uma filha e queria ser mãe novamente. Tinha uma carreira profissional ótima, mas não estava feliz. Assim, quando engravidei, avisei que não voltaria à empresa. Depois que minha filha nasceu, passei a me dedicar apenas à ONG como voluntária. No início, foi difícil financeiramente porque eu ganhava mais que meu marido, mas foi quando comecei minha carreira em gestão social, para a qual minha experiência com finanças sempre foi muito importante.

Há uns três anos, fui dar uma palestra no Instituto Nova União de Arte (NUA) e, depois disso, fui convidada para coordenar um projeto de arte com crianças e adolescentes. Foi ótimo porque precisava de um trabalho fixo e tempo para minha ONG.

Além de me descobrir educadora, essa experiência me levou a conhecer o educador indiano Manish Jain e a equipe que está desenvolvendo a Unidiversidade das Kebradas no Brasil, um projeto voltado a compartilhar experiências entre pessoas de diferentes idades e classes sociais, no qual estou totalmente envolvida.

Quais são seus sonhos ainda por realizar?

Acabei de me divorciar, após 16 anos casada. Quero que minhas filhas, Marina e Isabel, de 14 e 10 anos, sejam melhores do que eu, possam acessar mais coisas, vivam mais, amem muito e encontrem bons parceiros. Criei as duas indo comigo ao trabalho. Não suportam injustiça e sabem seus direitos na ponta da língua.

Um dos meus sonhos era ter uma mesa com gente em volta. Hoje, a geração mais velha da minha família é a minha. Alguns não se recuperaram totalmente do que vivemos, mas selamos um pacto de nos reunirmos para festas e celebrações e, uma vez por mês, nos encontrarmos para celebrar a vida: irmãos, sobrinhos, alguns primos. Meus sobrinhos e minhas filhas nunca viram violência doméstica, esse era o meu sonho.

Com todos os problemas, temos uma família legal, a maior parte dos sobrinhos estudaram, fizeram universidade, estão bem. Falar da minha história é uma das coisas que me salvou, junto com a terapia, que faço desde os 17 anos. Tenho fome de justiça e sempre vou trabalhar por isso. Não suporto injustiça social.

Foto: Maura Campanilli

Edição: Mônica Nunes

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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