Tijolo à base de mandioca é triplamente ecológico

Casas, muros, pisos, currais e galpões rurais, feitos com tijolos de manipueira, têm se multiplicado pelo sertão nordestino, sobretudo na zona rural do Ceará e da Paraíba. Fácil de fazer com matérias primas locais, esse tijolo ecológico ajuda a economizar água numa região onde esse recurso natural é limitado, além de dispensam a queima em fornos, evitando o consumo de lenha ou carvão vegetal, dois produtos obtidos a partir da vegetação nativa da Caatinga. E o uso da manipueira ainda livra os corpos d’água e o solo da poluição por esse que é o principal resíduo das casas de farinha: o líquido extraído da mandioca ralada, no preparo para torrefação, composto de ácido cianídrico, altamente tóxico. Aliás, a construção das próprias casas de farinha também começa a ser feita com o tal tijolo ecológico.

A mandioca (Manihot esculenta) é uma espécie nativa na América do Sul, cujo centro de distribuição é o oeste da Amazônia brasileira, região de Rondônia.  Os indígenas já haviam domesticado a planta muito antes dos europeus chegarem ao Brasil e também já dominavam o processamento das raízes para transformação em farinha, goma, bebida ou beiju, usando uma prensa feita de palha (tapiti) para extrair a manipueira. O significado do nome do resíduo, por sinal, é bem ilustrativo: mani = mandioca e puera = aquele que já foi.

Por séculos, a manipueira foi descartada, com exceção das poucas localidades onde serve de base para o tucupi, o molho do famoso prato paraense pato no tucupi. Mas o descarte era de baixo volume, pois a produção de mandioca e de farinha era pouca e esparsa. O problema da contaminação veio com o aumento da produção de mandioca – só em 2016 foram 23,7 milhões de toneladas – e a proliferação das casas de farinha, para atender à multidão de consumidores e apreciadores desse alimento básico da nossa culinária.

Então a pesquisa nacional se debruçou sobre as possibilidades de uso da manipueira, como algumas alternativas já tratadas aqui no Bioconecta (Veja Um fungo converte resíduos em aromas de frutas e Bactéria e mandioca são pura limpeza). E uma dessas opções é a substituição da água usada na mistura com argila, para moldar os tijolos. Um grupo de pós-graduandos da Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba, estudou as características do tijolo ecológico de manipueira, comparando com os tijolos comuns feitos com água. Participaram desse grupo pesquisadores de Engenharia Agrícola (Narcísio Cabral de Araújo), Engenharia de Materiais (Alana Pereira Ramos e Renato Correia dos Santos), Engenharia Sanitarista e Ambiental (Abílio José Procópio Queiroz) e Química Industrial (Josué da Silva Buriti).

“A manipueira foi misturada concentrada, sem adição de água, com 2% de líquido em relação à massa de argila, ou seja, 240 litros de resíduo por tonelada de argila”, explica Narcísio Araújo, doutorando em Engenharia Agrícola da UFCG. “Testamos a resistência e avaliamos os tijolos prontos, com e sem queima. E o tijolo ecológico demonstrou ter as mesmas propriedades mecânicas do tijolo comum”. Ele adverte que, inicialmente, no primeiro mês após a construção, fica algum cheiro de manipueira. “Mas não é forte e logo some”.

Segundo concluiu o grupo, esse tijolo de manipueira pode ser empregado em qualquer tipo de construção, no lugar do tijolo comum ou do solo cimento. “Já existem várias casas na zona rural, especialmente no Ceará, onde as pessoas já estão acostumadas a fazer o tijolo manual, em formas, sem cozimento”, diz o pesquisador. “Só não recomendamos o uso em reservatórios de água e nem é porque poderia haver contaminação. O problema é que o tijolo pode desmanchar, com o tempo, por não ser cozido”.

Quem quiser arriscar uma construção à base de mandioca encontra instruções, passo a passo, no website do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE). Ali também estão as dicas para aproveitamento do resíduo como adubo, pesticida e como base para fabricação de vinagre caseiro.

Fotos: Cícero R. C. Omena/CC Wikimedia (casa de farinha artesanal)  / Eraldo Martins de Faria (plantação de mandioca)

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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