Texturas e contraluz na Noite dos Tambores Silenciosos


Quando comecei a fotografar as festas populares brasileiras, fiz uma lista dos eventos que considerava “imperdíveis”. A Noite dos Tambores Silenciosos, em Recife, era uma delas.

Me encantava e me intrigava o fato de ser uma celebração religiosa em pleno Carnaval. Uma homenagem aos antepassados que acontece sempre na segunda feira (Dia das Almas, no Candomblé).

O Pátio do Terço, na região central de Recife, é o palco dessa festa.

Amigos fotógrafos já haviam me alertado para o fato de que o local é super escuro. Então, levei minhas lentes mais claras. Fixas. E duas câmeras em mãos para ter um pouco mais de flexibilidade em relação ao enquadramento – já que, provavelmente, não ia poder ficar circulando entre os brincantes durante as apresentações.

20h e as alfaias começam a soar. Parece que a batida está dentro da gente. O som toma conta do pequeno largo.

A noite, de silenciosa, não tem nada! O nome da festa vem da parada dos tambores, à meia noite, para uma breve celebração de reverência aos antepassados… depois a batucada volta à toda!

Os vestidos longos e rodados giram sem parar. Um deslumbrante espetáculo de sons, cores e texturas. Mas o local era muito mais escuro do que eu tinha imaginado! Mesmo com as lentes claras foi difícil conseguir a fotometria ideal.

Desisti de tentar congelar os movimentos. Resolvi trabalhar com uma velocidade mais baixa e apostar nas imagens com rastros de movimento – que eu adoro! –, que iam me dar um pouco mais de luz.

Isso resolveu o problema da fotometria. Só que na posição em que eu estava, todas as imagens ‘pegavam’ os letreiros de alguma loja no segundo plano. Um horror!

Não fiquei nada feliz com o resultado.

Resolvi tentar um outro ângulo. Sentei no chão. Pensei que fotografar os reis, rainhas e toda a comitiva do Maracatu Nação, de baixo para cima, além de me livrar do fundo, talvez deixasse aqueles personagens ainda mais imponentes (o que seria bem bacana também!).

Logo que me sentei, uma moça começou a dançar bem perto de mim. Seu vestido rodado formava uma imagem linda que ocupava quase todo o quadro. Mirei para cima, tentando focar no seu rosto. Ela percebeu. Se empolgou. Começou a girar mais e mais. Foi se aproximando cada vez mais de mim e, quando me dei conta, ela estava tão perto que eu não tinha recuo suficiente para fazer a foto.

Mas a imagem que vi nesse momento me encantou: a saia de tecido fino, girando praticamente em cima de mim, deixava passar a pouca luz da rua e o contraluz destacava a textura do vestido de uma forma incrível.

Coloquei a máquina no chão e, sem conseguir olhar o enquadramento, disparei.

A foto que ilustra este post é a minha preferida dessa festa. Mas o conjunto todo é muito imponente, com várias pessoas vestidas com muito luxo e pompa: reis, rainhas, princesas, pajens elegantemente trajados, embaixadores… E, claro, muitas homenagens aos principais Orixás do Candomblé. Veja, a seguir…

Desde 2014, se dedica à pesquisa e ao registro fotográfico das festas populares por todo o país. E, assim, viaja de norte a sul para conhecer e gravar em imagens o mundo mágico das celebrações, que explodem em cores, simbolismos, histórias e fantasias. Aqui, conta sobre as festas e histórias inusitadas vividas em suas andanças. No site Festas Brasileiras, reúne toda beleza e riqueza desse trabalho

Andrea Goldschmidt

Desde 2014, se dedica à pesquisa e ao registro fotográfico das festas populares por todo o país. E, assim, viaja de norte a sul para conhecer e gravar em imagens o mundo mágico das celebrações, que explodem em cores, simbolismos, histórias e fantasias. Aqui, conta sobre as festas e histórias inusitadas vividas em suas andanças. No site Festas Brasileiras, reúne toda beleza e riqueza desse trabalho

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