Terra, nossa única morada

A cada um segundo, nascem cinco pessoas na Terra. Enquanto você leu a frase anterior, 25 pessoas nasceram no mundo. A contagem no site World Meters é atemorizante. Em março de 2017, a população humana atingiu a expressiva marca de 7,5 bilhões de habitantes. Nosso planeta, a única morada cósmica que conhecemos, carece de cuidados urgentes. Evidentemente, há complicadores nessa equação da demografia mundial, mediada por complexas relações políticas e comerciais dos países.

A humanidade levou toda sua história evolutiva para atingir o primeiro bilhão de habitantes por volta de 1800. Após 130 anos, em 1927, chegamos a dois bilhões. Em 1963, toda população humana alcançava a marca de três bilhões de habitantes. Apenas 11 anos depois, em 1974, a população chegava ao quarto bilhão. Nessa época, campanhas do controle de natalidade já alertavam que era preciso colocar o “pé no freio” na expansão populacional. Mesmo assim, chegamos em 1987 com cinco bilhões, em 1999 atingimos seis bilhões e a marca de sete bilhões de habitantes foi atingida em 2011.

O rápido crescimento da população nos últimos dois séculos impôs várias restrições. Pobreza e miséria atingiram profundamente partes expressivas da humanidade, com destaque aos países subdesenvolvidos. Ainda hoje, mesmo com avanços de tecnologias da agricultura e pecuária que resultaram em marcante aumento da produtividade, perto de um bilhão de pessoas passam fome no mundo. Os dados são da FAO (da sigla em inglês Food and Agriculture Organization, organismo das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) e revelam o quanto precisamos prover de alimento essa assombrosa quantidade de pessoas.

Miséria e fome assolam o mundo de modo mais intenso nos países pobres, mas não apenas neles. Os mesmos relatórios da FAO revelam que os pobres constituem perto de 15 % da população da Europa. Essas estatísticas tendem a piorar, como resultado do forte movimento migratório que se registra no velho continente. Claro que tais condições nem de perto se compraram à vida desumana de pessoas que sofrem na África subsaariana, ícone da miséria mundial.

Como espécie biológica, somos únicos. Ocupamos todos os continentes, das áreas mais quentes e secas aos pontos mais gelados da Terra. Vivemos em regiões inóspitas e espantosas, do alto das cadeias de montanhas como o Himalaia, aos desertos mais rudes como o Saara, do alto das árvores na Tailândia às cavernas do Afeganistão. Parece não haver limites para nossa força colonizadora.

Megacidades e sustentabilidade

Passamos a viver também em megacidades, aglomerações humanas gigantescas com mais de dez milhões de habitantes. Em 1975, havia na Terra apenas três megacidades: Tóquio, Cidade do México e Nova York. Atualmente, temos 21 megalópoles.

Apesar de espalhados por todas as regiões da Terra, de fato, não ocupamos tanto espaço assim. Se toda a humanidade fosse reunida em pé, lado a lado, ocuparíamos apenas uma região semelhante à cidade de São Paulo, no Brasil. É evidente que não precisamos apenas de espaço. Nossa maior demanda é por equidade. Em um planeta em que apenas 5% da humanidade consomem 25% da energia, equidade parece uma palavra próxima da ficção.

As diferenças no grau de riqueza e desenvolvimento sempre permearam os humanos, mas foi com a Revolução Industrial que o homem realmente ampliou as desigualdades. Ações humanas transformaram profundamente a face da Terra, gerando mudanças da atmosfera e da qualidade da água em escala planetária. O rápido crescimento demográfico, o gasto excessivo dos recursos naturais e a degradação dos ambientes ampliaram a pobreza de grande parte da humanidade.

O impacto da espécie humana sobre o ambiente tem sido comparado, por alguns cientistas, a monumentais catástrofes do passado geológico da Terra. Vivemos a sexta extinção em massa, algo só comparável à perda de espécies no final do Cretáceo, quando os dinossauros foram dizimados.

O que está em jogo não é uma causa nacional ou regional, mas, sim, a existência da humanidade. Ações corretivas de grande envergadura são necessárias e urgentes. Parece consenso que a educação e a ciência sejam a chave do desenvolvimento sustentável, de mudança e busca por novos modelos de produção e consumo. Com a ajuda de tecnologias novas, devemos preparar a população do planeta, em todos os países, para remodelar o sua forma de viver. Mudanças urgentes de atitudes e comportamentos devem promover uma cultura da sustentabilidade e do respeito ao conhecimento.

Não podemos ser ingênuos. A empreitada é complexa, sobretudo porque temos que reeducar adultos de diferentes culturas. Seguramente não será a visão anacrônica de parcelas da população desinformada e nem a especulação de parte de setores economicamente mais vorazes – relutantes a novos modelos de sustentabilidade –, tampouco a insensibilidade de dirigentes que encontraremos as respostas às necessidades da Terra.

Diante de tantas perguntas sem respostas, é preocupante a falta de percepção e senso de urgência aos tomadores de decisão. São dilemas complexos da sustentabilidade que exigem líderes competentes e sociedade engajada.

Biólogo, doutor em Ecologia pela Unicamp e mestre em Zoologia pela Unesp. É professor e pesquisador da Universidade Anhanguera-Uniderp, onde coordena o Projeto Peixes de Bonito. Trabalha com comportamento animal e biodiversidade, além de dedicar especial atenção à divulgação e à compreensão pública da ciência. Desde 2000, vive no Mato Grosso do Sul – perto do Pantanal e de Bonito – com sua família e outros bichos

José Sabino

Biólogo, doutor em Ecologia pela Unicamp e mestre em Zoologia pela Unesp. É professor e pesquisador da Universidade Anhanguera-Uniderp, onde coordena o Projeto Peixes de Bonito. Trabalha com comportamento animal e biodiversidade, além de dedicar especial atenção à divulgação e à compreensão pública da ciência. Desde 2000, vive no Mato Grosso do Sul – perto do Pantanal e de Bonito – com sua família e outros bichos

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