Terceira idade com autonomia e sem solidão

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Morar sozinho, com um cuidador ou na casa dos filhos? Por que achamos que temos o direito de decidir o que é melhor para os mais velhos da família?

Se você ainda não entrou para o time dos idosos, imagine por um instante que você está, sim, vivendo a fase mais madura da vida e que, de repente, sua família resolveu que o melhor para você é ir morar com o filho mais velho, por exemplo – ou pior, que você precisará ficar em uma casa de repouso. Só que o apartamento lá é pequeno, você ocupará apenas um quarto e terá que se desfazer de quase tudo para ‘caber’ na nova morada. Capriche na empatia e me responda: como se sentiria?

Como se sentiria tendo que deixar para trás objetos e móveis com memórias afetivas, as plantinhas que regava dia sim dia não, o bule de chá herdado da avó, a paisagem da janela, os cheiros da casa, talvez até o gatinho e, sobretudo, a privacidade e a liberdade de se expressar sem censuras ou ‘acordos’ estabelecidos pelo dono da casa?

Poucos falam dessas violências que não são nem um pouco pequenas ou sutis, mas de tão comuns passam por inevitáveis, banais, completamente normais. Mas o fato é que nossa relação com os mais velhos vai precisar mudar. Até porque a população brasileira está vivendo cada vez mais e seria um absurdo transformar essa longevidade em tormento para todos. Ao contrário, a convivência entre gerações pode se tornar proveitosa, agradável, surpreendente.

Segundo o IBGE, a expectativa de vida do brasileiro ao nascer é de 75,2 anos, em média. E muita gente vive muito mais do que isso, o que é bom! Só é preciso viver bem, sem dramas familiares, sem perdas desnecessárias de autonomia e liberdade.

Minha avó, que provavelmente não vai ler este post, está chegando aos 80 anos, bastante lúcida. Mas tem lá suas dificuldades de locomoção, reclama de tonturas (o que gera medo de quedas), tem perdas de memória e se cansa com facilidade. Para mim, isso tudo está longe de configurar um cenário de imposição de regras para ela, de interdição, de fim do seu livre arbítrio. Por outro lado, ela precisa ser cuidada, precisa de atenção da família e dos amigos, e morar no nono andar de um apartamento em uma cidade relativamente nova na vida dela, longe da maior parte da família e na qual não criou muitos vínculos afetivos pode não ser a melhor escolha do mundo. O que posso fazer é conversar, sugerir, mas sem impor nada.

Questões como essa me fazem refletir sobre como nos tornamos individualistas ao longo das últimas décadas. A ideia de cada um por si, para quem está nessa fase da vida, dá nisso. Frieza. Praticidade em vez de empatia ou compaixão. E o resultado, não raramente, leva o nome de solidão. Solidão no fim da vida é das coisas mais cruéis que existem e está associada ao desenvolvimento de uma série de doenças ainda mais perigosas. Quem não se deprime esquecido num canto por todos ou sendo tratado sempre como um problema?

Uma maneira interessante de equacionar isso é construir uma comunidade, fazer parte de uma comunidade. Nem tudo está perdido. Tem um bocado de gente buscando outras formas de viver, outros arranjos, outras configurações. Há os idosos que curtem a turma da ginástica no parque, das sagradas caminhadas pelo bairro, dos eventos beneficentes, das viagens só para maiores de 60. Eles buscam, no fundo, comunidades. Presenciais. Bem pouco virtuais.

Ter uma comunidade é ter com quem conversar, com quem interagir, com quem contar, é ter a chance de trocar afeto, de compartilhar experiências, histórias, sentimentos, biscoitos, aflições.

Fora do Brasil, existem diversas cohousings para idosos.  São comunidades que se formam a partir do desejo de uma vida mais comunitária, em que o cuidado mútuo gera um grupo mais saudável, mais confiante, mais resiliente, mais feliz. Nelas, cada um tem espaço para sua privacidade, mas compartilha ambientes que promovem as trocas e a convivência, como cozinha com refeitório, biblioteca, sala de estar e de tv, lavanderia, horta, jardim.

Por aqui, a ideia começa a se espalhar e deve pousar em breve em diversas cidades. Há uma comunidade no Facebook sobre o tema, Cohousing Brasil, com mais de 1500 membros, gerenciada pela arquiteta Lilian Lubochinski, que também é a criadora do projeto Segurança do Idoso na Residência (Seguir). Trata-se de uma iniciativa interessante e sensível que tem como objetivo ajudar maiores de 60 anos e familiares a tornar a residência mais segura, reduzindo o risco de acidentes – especialmente as quedas, que respondem por 75% das lesões sofridas nessa faixa etária, segundo levantamento feito pelo SUS.

Por enquanto, o que já é possível listar são empreendimentos imobiliários projetados para os idosos. A Vitacon, construtora paulista, está lançando um residencial na capital, destinado a esse público. Os apartamentos são pequenos, práticos e com alguns diferenciais para tornar o espaço mais seguro: banheiro adaptado para prevenir quedas, portas mais largas para facilitar a circulação, nada de degraus ou pequenos desníveis, tomadas mais altas, botão de emergência conectado à portaria. Além disso, o prédio é muito bem localizado, perto de serviços de saúde, com restaurante no térreo e outras facilidades, como o sistema de pay-per-use 24 horas para fisioterapeutas, cuidadores e outros profissionais.

Na Paraíba, o governo do estado foi pioneiro ao lançar o primeiro conjunto residencial para idosos. Já tem em João Pessoa, Campina Grande, Cajazeiras e deve chegar a Guarabira. Cada um tem 40 casas pequenas, com área externa que inclui praças, academia, centro de convivência, horta, redário e unidade de saúde.

Na construtora Tecnisa, de São Paulo, a ideia é não segregar os mais velhos, garantindo ambientes amigáveis para eles em todas as áreas comuns de seus empreendimentos. A ideia começou quando a empresa decidiu ouvir os clientes. Descobriu que muitos vovôs e vovós não conseguiam curtir os netos na brinquedoteca porque não havia poltronas confortáveis no espaço, o piso era escorregadio, havia tapetes e as cores vibrantes usadas na decoração ofuscavam a visão. Tudo isso mudou.

A empresa criou uma equipe multidisciplinar para trabalhar no desenvolvimento de diretrizes para projetos residenciais. Reuniu na mesma mesa profissionais de arquitetura, fisioterapia, medicina gerontológica e assistência social, e criou a cartilha Projetando com Consciência Gerontológica. Com isso, eles têm conseguido ir além do que recomendam as normas técnicas de acessibilidade. Porque arquitetura não é só projetar prédios. Bons projetos são capazes de promover mais encontros, mais convivência, mais trocas humanas.

No fim, não se trata de pensar apenas em infraestrutura, em ambientes adequados, em cidades mais acessíveis. Tudo isso é importante, claro. Precisamos adaptar os espaços para receber e acolher o idoso com conforto e segurança. Mas é necessário ir além, para não tratar a velhice como doença, para não gerar preconceito, para simplesmente respeitar e, quem sabe, para ir além da tolerância e alcançar a gratidão.

P.S.: Para quem quiser saber mais, a edição de abril da revista Arquitetura & Construção traz uma reportagem minha com dicas e informações sobre como adaptar a casa para ter mais segurança na terceira idade.

Foto: Trey Ratcliff  via Photopin 

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

Giuliana Capello

Jornalista ambiental e permacultora, escreve sobre bioconstrução, arquitetura e design sustentáveis, economia solidária, consumo consciente, alimentação orgânica, maternidade e simplicidade voluntária. É autora do livro Meio Ambiente & Ecovilas (Editora Senac São Paulo).

25 comentários em “Terceira idade com autonomia e sem solidão

  • 5 de maio de 2016 em 7:01 PM
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    Giuliana, sigo suas postagens há anos como muito interesse. Tenho 55 anos, ainda não estou na fase de co-housing. Neste momento, sou uma profissional nômade (www.profissionaisnomades.com.br). Mesmo não estando na idade, mas chegando la, co-housing é o que sempre pensei como caminho ideal para a minha velhice. Tomara que este assunto ganhe força porque parece ser uma excelente alternativa.

    E falando em casa, me parece que está de mudança… Sejam lá quais forem os motivos, eu lhe desejo muitas alegrias sempre! Para você e os que lhe cercam. E torço para que continue com suas postagens.

    Com carinho,
    Cristina

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    • 29 de dezembro de 2016 em 9:46 AM
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      Olá, Cristina, tudo bem? Obrigada pelo carinho e as palavras de incentivo. Sim, este ano me rendeu muitas mudanças, fundamentais. Ainda estou processando tudo, mas o resultado delas é sempre crescimento, amadurecimento, fortalecimento… Em breve, retomarei as postagens! Um grande abraço pra você, e sorte e sabedoria nas suas escolhas!

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      • 29 de dezembro de 2016 em 11:42 AM
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        Giuliana, você me escreveu! Que delícia!!! Estou me mudando para Nova Petrópolis – RS e lá, humildemente, começarei a plantar sementes no pomar, na horta e na comunidade. São 4 casas compartilhando um lindo espaço. Se quiser vir, vai vagar uma das 4 casas :)
        Um feliz ano novo para você e sua família!
        Cris

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        • 4 de agosto de 2017 em 8:16 PM
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          Meu email é cleajotz@gmail.com
          Achei interessante a reportagem e estou interessada nestas casas no RGS. Se já existe na Serra gaúcha ou em algum lugar do RGS. Espero sua resposta.
          Clėa

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  • 23 de julho de 2016 em 2:44 PM
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    Ótimas ideias, ótimo texto, sensível. Mas.. sempre tem um mas… e o custo, Giuliana? Muito bonito no papel, só que o belíssimo projeto será apenas para idosos de alta renda. Como sói acontecer neste país, os menos favorecidos não terão essas opções, não.

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    • 29 de dezembro de 2016 em 9:43 AM
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      Divany, bom dia! Entendo sua preocupação e espero que, com o tempo, surjam alternativas mais acessíveis (como o projeto na Paraíba, de habitação popular para idosos, por exemplo). Acredito que será inevitável, já que a população mais idosa irá crescer ainda mais em nosso país. Pensar sobre esse amanhã (que já é presente) deverá ser uma tarefa de todos na sociedade. Um abraço pra você!

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  • 25 de julho de 2016 em 4:14 PM
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    esse estilo de vida para idosos é mais que necessário, é uma urgência! além disso, deve dar muito emprego para construção, organização, mautenção e funcionamento, além, é claro, de profissionais de saúde e assistência social. Deve ser para todas as faixas de renda e não só para baixa renda. A maioria dos idosos certamente prefere ter a independência possível e não pesar para seus familiares!!!

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    • 26 de julho de 2016 em 1:24 PM
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      Achei muito bom esses condomínios p/ idosos. Na Europa já existem há muito tempo. Espero que construam muitos mais e ofereçam p/ locação .

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  • 26 de julho de 2016 em 12:41 AM
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    Gostaria de saber !aos dobre o. assunto ZX pois Estou com 71 anos e sem com condições financeiras para. Alugar um apto mesmo pequeno..
    Aguardo resposta Gratidão Abraço

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  • 26 de julho de 2016 em 10:26 AM
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    Giuliana,parabéns pela matéria! Sem duvida as próximas gerações terão como optar por espaços fomentados pela nossa geração. Como profissional da área ainda vejo algumas dificuldades para idosos e familiares em entender todo o contexto do envelhecimento e como pensar juntos numa melhor solução. Eu por exemplo acabo de inaugurar um centro-dia para idosos em SP. Funciona de segunda a sexta e somente durante o dia, para que o idoso não fique sozinho enquanto o familiar precisa trabalhar. Entretanto, a noite e aos finais de semana eles terão tempo para interagir, fortalecer os laços e compartilhar experiências. O centro-dia surge como um espaço intermediário entre a instituição de longa permanecia e a preocupação com ele sozinho no domicílio.

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    • 29 de dezembro de 2016 em 9:38 AM
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      Olá, Marilia, bom dia! Obrigada por compartilhar um pouco do seu trabalho e da história do centro-dia. São iniciativas desse tipo que irão construir alternativas mais saudáveis e agradáveis para se viver a terceira idade com mais qualidade de vida. Vou entrar no site para saber mais sobre esse projeto. Muito grata! Um abraço fraterno!

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  • 27 de julho de 2016 em 12:57 PM
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    Aonde devo me inscrever. Moro em. Rio. Claro. Sei que tem um em. Piracicaba.

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  • 21 de agosto de 2016 em 8:05 PM
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    Olá Giuliana,moro no Ancianato Bethesda em Pirabeiraba–SC.Tenho 76a,estou aqui a quase 5 anos.Vim por vontade própia pois não desejo morar com meus filhos (um casal) e não interferir na vida deles.Desde os 70a comecei a me desapegar de tudo em casa presenteando familia e amigos, pois sempre foi minha intenção vir para cá.Lugar delicioso,muito verde,somos em 100 moradores muito bem cuidados cada um conforme sua necessidade.De minha parte sou completamente independente,tenho meu carro com o qual vou visitar meus filhos que moram em Barra Velha sc.Somos muito bem cuidado,Tendo necessidade de medicação as enfermeiras se encarregam de distribuir tudo na hora certo..Ainda na assistencia,além das enfermeira,técnicas de enfermagem,temos Fisioterapeuta,Nutricionista,Psicologa,Assistente social,Terapeuta ocupacional pastor e diácona que todoças os dias proferem o Devocional e Culto.O Ancianato Bethesda pertence a Instituição Bethesda,que tem ao lado o Hospital Bethesda,Jardim de infância.E ainda participamos da Dança Senior a qual tem seus cursos aqui em Pirabeiraba..E muito mais.Só um conselho;Procure inscrever se numa instituição préviamente pesquisada e enquanto está bem,para aproveitar o que tem de bom nessas casas.Aqui somos uma familia,moradores que vietam de diversas cidades do Brasil inclusive do exterior.
    Obrigada
    Elim Bueno Dippe

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    • 29 de dezembro de 2016 em 9:35 AM
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      Olá, Elim, tudo bem? Obrigada pelo seu relato e pela partilha de um pouco da sua história. É muito bacana ver sua autonomia e o exercício do livre arbítrio na sua idade. Parabéns! Muito grata pela leitura! Um abraço fraterno pra você!

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  • 29 de agosto de 2016 em 6:28 PM
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    Interessante.

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  • 15 de novembro de 2016 em 3:09 PM
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    Gostaria de saber se no Rio de Janeiro já possui esta construção. Se pretendem construir, e onde.
    Estou interessada.

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  • 15 de novembro de 2016 em 5:00 PM
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    Nunca pensei que existisse isso no Brasil. Moro em pernambuco, como posso me candidatar a uma casa assim. Tenho 65 anos.

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  • 16 de novembro de 2016 em 12:42 AM
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    Projeto maravilhoso parabens a todos !

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  • 7 de dezembro de 2016 em 9:31 PM
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    Boa Noite !

    Estou iniciando um projeto e vi sua página e me interessei muito.
    Moro numa casa de seis aposentos três salas e tive a ideia de transforma-la numa moradia compartilhada.
    Agora estou começando a receber emails de gente interessada e gostaria de saber como faço para selecionar as pessoas, regulamentos, etc.etc.
    veja a minha ideia abaixo e se puder me ajude com seu retorno.

    REPÚBLICA SÊNIOR DA MANTIQUEIRA
    Pousada em formato de República, como as de estudantes, com moradia fixa ou temporária para pessoas maduras, de ambos os sexos, e com atendimento aos alunos da Universidade Holística do Brasil, campus de Maria da Fé – Serra da Mantiqueira -Minas Gerais.

    Observações

    A ideia é ratear as despesas e ainda utilizar as diárias de hóspedes em melhorias e/ou outro destino que a maioria dos moradores fixos decidir, esta receita ficaria numa conta poupança para tais fins.
    Contatos

    Davi Salgado
    Tel. Celular: 035 99272 0550
    WhatsApp: 035 99151 3511
    E-mail: republicadamantiqueira@gmail.com

    Resposta
    • 29 de dezembro de 2016 em 9:32 AM
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      Olá, Davi, como vai? Muito interessante seu projeto de república sênior. Sem falar que a região da Mantiqueira é incrível…
      Para dar mais consistência às ideias, eu indicaria uma conversa com a arquiteta Lilian Lubochinski, que é fera nesse assunto e tem um trabalho muito lindo voltado para a terceira idade. Tenho certeza de que ela poderia te dar algumas boas diretrizes. O e-mail dela é: llubochinski8@gmail.com
      Você tocou em dois pontos fundamentais: como selecionar as pessoas e como construir regulamentos. Sem dúvida, é preciso refletir sobre ambos para que o projeto tenha sucesso. Há diversas maneiras de se fazer isso e é importante definir o quanto antes. Um abraço pra você! E boa sorte nessa jornada!

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  • 21 de março de 2017 em 9:52 AM
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    Para quem tem mais de 65 anos
    Ivone Boechat

    1 – Tome posse da maturidade. A longevidade é uma bênção! Comemore! Ser maduro é um privilégio; é a última etapa da sua vida e se você acha que não soube viver as outras, não perca tempo, viva muito bem esta. Não fique falando toda hora: “estou velho”. Velho é coisa enguiçada. Idade não é pretexto para ninguém ficar velho. Engane a você mesmo sobre a sua idade, porque os psicólogos dizem que se vive de acordo com a idade declarada!

    2 – Perdoe a você antes de perdoar os outros. Se você falhou, pediu perdão? Deus já o perdoou e não se lembra mais. Mas você fica remoendo o passado… Não se importe com o julgamento dos outros. Só há dois times no Universo: o do Salvador e o do acusador. Neste último você sabe quem é goleiro. Continue no time do Salvador.

    3 – Viva com inteligência todo o seu tempo. Viva a sua vida, não a do seu marido, dos filhos, dos netos, dos parentes, dos vizinhos… Nem viva só pra eles, viva pra você também. Isto se chama amor próprio, aquilo que você sacrificou sempre! Nunca viva em função dos outros. Faça o seu projeto de vida!

    4 – Coma muito menos; durma o suficiente; não fique o dia inteiro, dormindo, dando desculpa de velhice. Tenha disciplina. Fale com muita sabedoria. Discipline sua voz: nem metálica, nem baixinha; seja agradável!

    5 – Poupe seus familiares e amigos das memórias do passado. Valorize o que foi bom. Experiências caóticas, traumas, fobias, neuroses, devem ser tratadas com o psicoterapeuta. Não transforme poltrona em divã, ouvido em descarga.

    6 – Não aborreça ninguém com o relatório das suas viagens. Elas são interessantes só pra quem viaja. Ninguém aguenta ouvir os relatórios e ver fotografias horas e horas. Comente apenas o destino e a duração da viagem, se alguém perguntar. Aprenda a fazer uma síntese de tudo, a não ser que seus amigos peçam mais detalhes. Se alguém perguntar mais alguma coisa, seja breve.

    7 – Escolha bons médicos. Não se automedique. Não há nada mais irritante do que um idoso metido a receitar remédio pra tudo o que o outro sente. Faça uma faxina na sua farmácia doméstica.

    8 – Não arrisque cirurgias plásticas rejuvenescedoras. Elas têm prazo curto de duração. A chance de você ficar mais feio é altíssima e a de ficar mais jovem é fugaz. Faça exercícios faciais. Socorra os músculos da sua face. Tome no mínimo oito copos de água por dia e o sol da manhã é indispensável. O crime não compensa, mas o creme compensa!

    9 – Use seu dinheiro com critério. Gaste em coisas importantes e evite economizar tanto com você. Tudo o que se economizar com você será para quem? No dia em que você morrer, vai ser uma feira de Caruaru na sua casa. Vão carregar tudo. Não darão valor a nada daquilo que você valorizou tanto: enfeites, penduricalhos, livros antigos, roupas usadas, bijuterias cafonas, ouro velho… prataria preta, troféus encardidos, placas de homenagens. Por que não doar as roupas, abrir um brechó ou vender todas as suas bugigangas, apurar um bom dinheiro e viajar?

    10 – A maturidade não lhe dá o direito de ser mal educado. Nada de encher o prato na casa dos outros ou no self-service (com os outros pagando); falar de boca cheia, ou palitar os dentes na mesa de refeições (insuportável).

    11 – Só masque chiclete sem testemunhas. Não corra o risco de acharem que você já está ruminando ou falando sozinho.

    12 – Aposentadoria não significa ociosidade. Você deve arranjar alguma ocupação interessante e que lhe dê prazer. Trabalhar traz muitas vantagens para a saúde mental, além do dinheiro extra para gastar, também com você.

    13 – Cuidado com a nostalgia e o otimismo. Pessoas amargas e tristes são chatíssimas, as alegres demais, também. Elogie os amigos, não fique exigindo explicações de tudo. Amigo é amigo.

    14 – Leia. Ainda há tempo para gostar de aprender. A maturidade pode lhe trazer sabedoria. Coloque-se no grupo sempre pronto para aprender. Não se apresente em lugar nenhum dizendo: sou muito experiente!

    15 – Não acredite nas pessoas que dizem que não tem nada demais o idoso usar roupas de jovens, cuidado. Vista-se bem, mas com discrição. Cuidado com a maquiagem, se for pesada, você vai ficar horrível.

    16 – Seja avó do seus netos, não a mãe nem a babá. Por isso nem pense em educá-los ou comprometer todo o seu tempo com as tarefas chatas de ir buscar na escola, levar a festinhas, natação, inglês, vôlei… Só nas emergências. Cuidado com aquela disponibilidade que torna os outros irresponsáveis.

    17 – Se alguém perguntar como vão seus netos, não precisa contar tuuuuuuuudo! Evite discorrer sobre a beleza rara e a inteligência excepcional deles. Cuidado com a idolatria de neto e o abandono dos filhos casados…

    18 – Não seja uma sogra chata. Nunca peça relatório de nada. Seu filho tem a família dele. Você agora é parente! Nunca, nunca, nunca mesmo, visite seus filhos sem que seja convidado. Se o filho ligar pra você, não diga: ah! lembrou finalmente da sua mãe? É melhor dizer: Deus o abençoe meu filho.

    19 – Cuidado em atender ao telefone: se a pessoa perguntar como você vai e você responder “estou levando a vida como Deus quer”; “a vida é dura”; “estou preparando a partida”; “estou vencendo a dureza”; você vai ver que as ligações dos amigos e dos parentes vão rarear, cada vez mais.

    20 – A maturidade é o auge da vida, porque você tem idade, juízo, experiência, tempo e capacidade para se relacionar melhor com as pessoas. Então delete do seu computador mental o vírus da inveja, do orgulho, da vaidade, promiscuidades, cobranças, coisas pequenas e frustrantes para tomar posse de tudo o que você sempre sonhou: a felicidade.

    Mensagens e poesias de Ivone Boechat

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  • 1 de julho de 2017 em 1:23 PM
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    Parabéns Giuliana, excelente texto e contexto. Conhece alguma iniciativa semelhante em Curitiba? Um abraço

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  • 16 de setembro de 2017 em 1:24 AM
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    Giuliana, vc sabe me dizer se aqui no Brasil já existe uma Cohousing tipo condomínio de pequenas casas onde os idosos adquirem por cotas?

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