Tenho que saber perder?

Que brincadeira é essa? Preciso das regras. Tenho que saber perder? Alguém aí sabe perder? Ainda mais nesse mundo competitivo, imagético, publicitário e marketoso. Ô osso! Que chatice lidar com e-books, páginas de captura, empreendorismo digital e tal. Quanta média. Quanta mídia. Xiita. Prefiro a Chita. Tô com a macaca mesmo!

Vontade de ir ao circo. Sem macaco e elefante, bem combinado. Só ficar ali embaixo daquela lona, respirar infância, realejo e engolir pipoca e suco porque refrigerante não tenho mais a mínima vontade. Argh, colocar essa droga pra dentro!!

Que medo de ter que morrer lá velhinha toda doente e envenenada de conservante e produtos químicos horrorosos…  Sempre que penso neles me vem à mente aquelas caveiras, significando perigo nas embalagens. Parece bobagem.  Mas tem uma metragem de razão. Um corredor inteiro para chegar num grande picadeiro e saltar entre emoções mal digeridas e bebidas e comidas lindas nos comerciais. Um perigo isso. E a gente faz que não percebe.

Preferimos continuar no carrossel de voltas intermináveis no umbigo do nosso ego programado para girar no ritmo da proclamada felicidade aparente. Que triste! Não que precisemos nos exigir tanto para nos equipararmos à pureza dos unicórnios que se alimentam de nuvens e raios de sol. Mas, não dá para esquecer que, justamente, por nem nos aproximarmos desses seres mágicos e mitológicos, que conseguem transformar putrefação em substância pura e limpa, é melhor cuidar da saúde. Quem realmente quer quebrar a cabeça com isso?

Todas estas ideias me vieram quando visitei a exposição “O Circo, o Brinquedo e a Brincadeira”, que está no Museu de Arte Municipal de Curitiba (MuMa), até o dia 19 de março, com entrada gratuita. São todas obras que saíram do acervo para as paredes do museu. Como não tenho um fotógrafo À minha disposição, não sou fotógrafa, e nem quero ser, mas precisava mostrar algumas obras aqui no post, perdi o pudor, saquei meu celularzinho básico, com uma lente meia boca e fiz umas fotos cheias de reflexos.

Deixo registrado aqui que, nesse mundo em que o ato de clicar foi reduzido a algo cada vez mais banal, ainda acredito e preciso do fotógrafo, do clique profissional. Mas, me vi sem saída, já que a exposição não tinha muitas fotos de divulgação. A maior parte das fotos não mostra a obra inteira. Geralmente, é uma parte bem pequena, aliás.  Aquilo que mais me chamou a atenção. Quem quiser ver a obra inteira, terá que ir ao museu.

Esta foto acima, do quebra-cabeça, por exemplo, tem cinco mil peças numeradas pela artista. Uma atrás da outra. Teria o quebra-cabeça sido cortado ainda em branco? Teria sido ele montado e desmontado? Os números teriam sido colocados quando? Tudo isso importa? Ou, o fato do que se pretendia, uma imagem em recomposição, ter sido transformada numa máquina de números sequenciais, um conta-giros bidimensional, já basta para dar uma zonzeira no peão que tem que rebolar para receber tanto número.

Se fosse dado em conta-gotas, peça por peça, você teria paciência para montar? Melhor imagem em pedaços, pedindo unidade ou números inteiros como que se bastando numa peça? Em vez de procurar a completude nas formas e cores, o que vem primeiro é a ordem, o próximo número. Um número a mais. Bem menos surpresa no encaixe.

Essas brincadeiras com a matemática certeira e enjoada têm lá suas vantagens. Ou você nunca brincou de pegar um caderno e contar escrevendo? É daquelas brincadeiras que você não precisa ganhar ou perder. Só vai brincando. Vai fazendo, vai montando. Quando parar, parou. Quando terminar de montar, terminou. No caso do quebra-cabeça numerado, uma brincadeira com menos regras nessa regrada matemática…

Conta. Contas… E mais contas. E o peão rebola, quebra a cabeça para fazer a soma delas caber no salário.  E fica com a cabeça cheia, quase estourando.

Nessas horas achar um balão no parque pode ajudar a refrescar a cachola… Vai lá. Brinca com o filho. Estoura o balão… Ou amarra vários na lona do circo para eles tentarem suspendê-la. Uma palha, vai, para quem nunca entrou no circo.

Mas, se descobrirem a sua digital no balão, você será punido.


Vai voar por aí com as borboletas. É melhor. Note que eu não falei caçar.

 

Exposição “O Circo, o Brinquedo e a Brincadeira”
Data: até 19/03/2017
Horário: 10h às 19h (terça a domingo)
Local: Museu Municipal de Arte (MuMa) de Curitiba
Endereço: Avenida República Argentina, 3430 – Portão
Ingresso:  gratuito

Obras: 1. O Picadeiro, Poty Lazzarotto / 2. Claudio Cambé, O Carrossel (1993) / 3. Objeto Intervenção sobre Quebra-cabeça, Cyntia Werner / 4. O Parque, Renina Katz / 5. Laís Pereti (l987) / 6. Interferências Urbanas, Didonet Thomaz / 7. Jogos Infantis, Djanira (1953)

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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