Tem cunhã na adubação verde e na bebida azul

Nesta época de esticar os pés pela areia das praias não é difícil notar plantas rasteiras de flores azuis, cujo formato dispensa explicações quanto à escolha do nome científico. As trepadeiras do gênero Clitoria estão à vista, esticando seus ramos do pé da restinga até a beira da areia, na direção do mar. Não são fixadoras de dunas, como as ipomeias (gênero Ipomoea), de flores igualmente azuis. Mas cumprem o papel essencial de leguminosas pioneiras no enriquecimento ou recuperação do solo, fixando um dos nutrientes principais – nitrogênio – para outras plantas.

Existem pelo menos 62 espécies de Clitoria em toda a zona tropical, ao redor do mundo. A maioria é adaptada à exposição ao sol forte e chuvas torrenciais. Entre elas, onze são nativas do Brasil: algumas endêmicas da Amazônia, outras exclusivas da Caatinga e as restantes do Cerrado e das restingas da Mata Atlântica. São conhecidas pelo nome comum de cunhã, que quer dizer mulher em tupi-guarani (ou língua ligeira, se a tradução for ao pé da letra). Eventualmente podem ser chamadas de feijão-borboleta, numa versão livre do original em inglês butterfly pea.

Para os produtores rurais adeptos da adubação verde, semear cunhã junto com a pastagem é uma excelente opção. Aumenta a produtividade sem custar caro demais, como os adubos nitrogenados. E ainda enfeita a paisagem. Em geral, a espécie utilizada é Clitoria ternatea, cuja produção de vagens é abundante, favorecendo a coleta de sementes para repetir a adubação verde nos anos seguintes.

Num estudo conduzido no Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) e na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) por José de Paula Oliveira, Helio Almeida Burity, Maria do Carmo Pereira de Lyra e Mário de Andrade Lira Júnior, a cunhã foi a leguminosa com maior capacidade de transferência de nitrogênio, quando plantada em associação com o capim-sempre-verde (Panicum maximum). A comparação foi feita com kudzu tropical, calopogônio e alfafa-do-nordeste.

A adubação verde com essa planta também se mostrou interessante em terras salinizadas pela irrigação na região do médio e baixo rio São Francisco, pois a cunhã tem certa tolerância ao sal. É de se esperar, sobretudo das espécies nativas da restinga, um ecossistema naturalmente influenciado pelas águas do mar.

Do outro lado do Globo, no sudeste asiático, as flores de Clitoria são preparadas em infusão, gerando uma bebida azul transparente. A infusão, como se sabe, é feita com partes da planta colocadas em água fervente, com o fogo já desligado. Depois de alguns minutos, a bebida deve ser coada e resfriada para ser tomada como refresco.

Quem já experimentou diz que o sabor é bem sutil, assim como o perfume emprestado das flores. Vale, portanto, acrescentar algumas gotas de limão. Mas aí a bebida azul fica rosada, devido à ação da acidez sobre as antocianinas, responsáveis pela coloração original.

Foto: Liana John (cunhã no litoral de Santa Catarina)

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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