Tecendo inclusão: Projeto Tear dá oficina no Sesc Belenzinho


Sempre que vejo uma pessoa manuseando um tear de pente liço fico hipnotizada, espiando o vai e vem, a lã cuidadosamente esticada, tensionada na medida para aguentar toda a movimentação.

Tive a oportunidade de acompanhar o último encontro de uma oficina dessa técnica no Sesc Belenzinho, na semana passada. Além de atender demanda de seus frequentadores, a gerência proporcionou um contrato inédito e importante: quem ministrou a oficina foram integrantes do Projeto Tear, sobre o qual já falei, aqui, no blog.

O Tear é um serviço público de saúde mental que atua com inclusão social pelo trabalho, cultura e convivência, integrando a Rede de Atenção Psicossocial de Guarulhos. Surgiu em 2003 por meio de uma parceria entre a Prefeitura de Guarulhos, a Associação Cornélia Vileg (até 07/2012), os Laboratórios Pfizer e a Associação Saúde da Família. Hoje, o Tear atende cerca de 140 pessoas em espaços de produção, geração de renda e convivência a partir da aproximação com o campo da economia solidária, gerando valores como cooperação, coletividade, solidariedade, sustentabilidade e promoção da saúde.

Ao entrar na sala da oficina do tear de pente liço, onde uma dezena de pessoas tecia animadamente seus cachecóis (nos teares adquiridos pelo Sesc Belenzinho com essa finalidade), percebi instantaneamente todos esses valores. Os pentes liços deslizavam pra cá e pra lá, dando forma a tecidos multicoloridos e originais pelas mãos de pessoas que tinham pouca ou nenhuma experiência com a técnica. O comprometimento, a paciência e a construção coletiva das peças também estavam lá, além de bom humor e leveza.

Ministraram a oficina Daniel Pereira Barbosa e Luciano Pestille de Araújo, usuários da rede de saúde mental e integrantes do Projeto Tear, juntamente com Juliane Campos de Souza e Maria Gilsoneide M. Oliveira, a Gil, que também atuam no Projeto.

Foram seis encontros, iniciados em setembro e concluídos em outubro. Daniel avalia as alunas como “dedicadas e, por isso, aprenderam fácil a técnica”. Integrante do Tear há 14 anos – tendo inclusive ensinado Juliane, Luciano e Gil, a tecer -, ele diz que é a primeira vez que dá aulas dessa forma, fora da sede do projeto, e diz que a experiência foi muito positiva.

Luciano, que integra o projeto há dois anos e quatro meses, diz ter ficado surpreso com o convite para dar aulas no Sesc: “Eu, dando aula? Nunca tinha dado aula. E hoje estou aqui. Me surpreendi. Estou percebendo que posso sim, dar aulas, com o que eu sei, com o que eu aprendi lá no Projeto Tear, com o Daniel. As pessoas, aqui, aprendem rápido porque estão muito interessadas”.

O convite para ministrar a oficina veio de uma programadora do Sesc Belenzinho, Aline Amorim, que já conhecia o trabalho do Projeto Tear. Há cinco meses no Sesc, ela é responsável por escolher e analisar cursos e oficinas de artes visuais. “Eu venho trabalhando com economia solidária há um tempo, já conheço bem as possibilidades que ela pode trazer, tanto para quem contrata como para quem é contratado. E eu já conhecia o Tear de outros trabalhos. Temos uma gama muito grande de linguagens trabalhadas, aqui, no Sesc Belenzinho, e o tear de pente liço é uma linguagem muito interessante, com um público interessado, que quer aprender ou se aprofundar na técnica. Então, casou a nossa vontade de trazer essa técnica e saber que os integrantes do Projeto Tear eram capacitados para dar essa oficina”.

Aline entrou em contato com as responsáveis pela oficina no Tear, Juliane e Gil, fazendo o convite para que elas ministrassem a oficina, e logo teve como resposta que os integrantes poderiam dar as aulas. “Ela me perguntou se eles poderiam dar o curso, porque ela mesma tinha aprendido a técnica com eles. Achei incrível. Houve muita disponibilidade da gerência aqui do Sesc de fazer acontecer. Era uma experiência nova pra gente, e pra eles também. E foi uma oportunidade de suprir para os dois lados – havia demanda aqui e eles ofereciam a técnica de lá”.

O curso foi o primeiro a esgotar as vagas quando o Sesc Belenzinho abriu inscrições no mês de setembro. A frequência foi muito boa e Aline espera que a atividade abra precedente para outras unidades do Sesc contratarem também: “Espero que um dia eu ligue para eles, pra programar um curso aqui, e eles respondam que não têm agenda porque já estão dando oficina em outro lugar. Isso pra mim vai ser incrível. Foi um privilégio a gente poder trazê-los aqui”.

Para Maria Gilsoneide, a Gil, além do retorno positivo sobre a oficina, a experiência foi importante por abrir horizontes, mostrar que o grupo tem a possibilidade de fazer coisas fora da sede do Projeto Tear. “Eu fiquei até emocionada vendo eles falarem sobre a oficina. Porque ver a participação deles aqui faz a gente perceber que eles estão preparados para a vida. Basta a gente ir contornando e ensinando algumas coisas. A gente apostou muito nisso, e está dando certo”.

Outro ponto importante destacado por Juliane é o ganho material. O Projeto Tear tem um trabalho de venda de produtos confeccionados em suas oficinas, o que traz algumas questões complexas que quem trabalha com artesanato conhece muito bem, como a dificuldade da valorização do trabalho e da promoção do valor real da mão de obra. “A gente preza por um trabalho que não seja superprodução, que as pessoas que fazem consigam se envolver com a peça. E essas aulas também trazem outra oportunidade de valorizar o trabalho deles financeiramente. O Sesc deu essa oportunidade, com a abertura da Aline, e eles foram bem remunerados pela oficina, com um valor justo. Tivemos aqui a valorização da qualidade do trabalho deles, mas o retorno financeiro é também importante”.

A avaliação das pessoas que fizeram a oficina foi também muito positiva. Todos fizeram questão de apontar a atividade junto ao Sesc Belenzinho como excelente e torcem pra que novas edições do curso sejam programadas em outras unidades.

“Foi uma vivência muito interessante essa oficina com o Projeto Tear. Eu já tinha lido sobre eles na internet, e quando vi a programação aqui aprofundei minha pesquisa sobre o trabalho. Foram muito atenciosos, gentis, e a metodologia que utilizaram surtiu um efeito muito rápido pra todos nós, porque todos, já no primeiro dia, produziram muito e ficaram muito satisfeitos. Eu estava com medo de fazer o curso porque achava a técnica muito difícil, pensei que não ia conseguir aprender. A experiência foi ótima”, diz Andreia Simões Vieira.

Para Vera Arakawa, Hakemi Omura e Maria Emilia Felix, que também fizeram a oficina, um diferencial grande em relação a outros cursos de artes manuais pelos quais já passaram foi o envolvimento dos instrutores: “Eles envolvem a gente, ilustram bastante o trabalho. É um ganho muito grande, pra todos, o Sesc estar fazendo esse projeto com essas pessoas”, diz Vera.

Daiana Araújo e Maria Isabel Komatsu apontam que as aulas foram muito proveitosas e ao mesmo tempo divertidas, e que os instrutores tiveram muita tranquilidade para ensinar. “A oficina de tear de pente liço me trouxe muitas alegrias. Não imaginava conseguir fazer essas peças. Estou muito agradecida a esse grupo que nos acolheu”, diz Maria Isabel.

No atual momento que o país vive, de desmonte do SUS e riscos às conquistas da Reforma Psiquiátrica e da Luta Antimanicomial, essa oficina é  uma prova de que esse modelo de tratamento em meio aberto, fora de hospitais psiquiátricos, em que as pessoas estejam inseridas em seu território, em que consigam estar em sociedade, funciona. “É importante insistirmos nesse modelo, em que a “loucura” não fique presa, que ela não fique estigmatizada. As iniciativas de ocuparmos outros lugares fora dos espaços definidos como serviços de saúde mental devem ser valorizadas e ampliadas. Não só para o Tear, mas pra que outros grupos venham a ter essa experiência. Ocupar esse lugar que é de todos. O lugar de cidadão”, avalia Juliane.

Fotos: Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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