Tartaruga mais velha do mundo é homossexual. Descoberta reacende debate sobre casamento gay em ilha moralista


Está mais do que provado que a homossexualidade – desejo por indivíduos do mesmo sexo – é natural. Só não vê/aceita essa realidade quem não quer e tem restrições morais e religiosas. A descoberta dos veterinários da ilha britânica de Santa Helena, vem confirmar isso.

Jonathan, a tartaruga mais velha do mundo, – que tem 186 anos e, apesar da catarata e da falta de olfato, goza de boa saúde -, é homossexual. Mas como descobriram isso somente agora, depois de tanto tempo de vida? Então, vamos lá contar um pouco de sua história!

Jonathan não só é a tartaruga mais velha da Terra, como também o habitante mais antigo desse território britânico, que fica a 1.200 milhas da costa da África Meridional, no sul do continente. Chegou lá no final do século XIX, como presente do cônsul francês (guardião de Longwood, o último lar de Napoleão no exílio) ao governador da época.

Ele viveu bem e sozinho por cerca de 80 anos, mas, de repente, começou a ter acessos de irritação, se jogando nas árvores e andando pelo jardim sem descanso, por vezes, atrapalhando jogos de cricket realizados na mansão. Diante de tal cenário, os veterinários resolveram encontrar uma parceira para ele e lhe apresentaram Frederica.

Segundo relatos de cuidadores, as tartarugas se aceitaram rapidamente e não tiveram qualquer dificuldade de adaptação à rotina juntas. Comiam (alimentação à base de vegetais e vitaminas) e dormiam em horários fixos e se acasalavam de forma regular, todo domingo de manhã.

Mas como é que ninguém desconfiou que os dois eram machos? Com mais um detalhe: havia um grande mistério em torno do casal já que, apesar da boa relação entre as duas, desde que se conheceram, em 1991, nunca tiveram filhotes.

Aqui vale uma ressalva: o sexo das tartarugas só pode ser identificado pela observação do formato e da curvatura do casco na parte inferior. Os machos costumam ter a “barriga” côncava para facilitar a cópula, pelas costas da fêmea. E, quando a tartaruga é muito grande, a diferença é imperceptível ao olhar.

Foi preciso que Frederica apresentasse um probleminha de saúde para que descobrissem seu verdadeiro sexo. A tartaruga precisou ser submetida a exames e a uma intervenção por causa de uma lesão em seu casco. Um exame mais aprofundado revelou que tinha uma leve deformidade – certamente adquirida quando jovem – e, também, que Frederica é, na verdade, Frederico.

Homossexual na ilha, não! Ou sim?
Num momento tão turbulento como o que vivemos, em que a moralidade e os bons costumes são pregados até de forma violenta, é auspicioso saber, mais uma vez, que a mãe natureza não´impõe limites para a convivência e o relacionamento.

O mais curioso e interessante na história de Jonathan e Frederico é que, em Santa Helena, a homossexualidade não é aceita. É óbvio que a lei se refere aos seres humanos, mas a questão veio à baila com a descoberta científica. Que ironia!

Por causa do romance entre as duas tartarugas macho vivido na ilha, o tema pode ser debatido com outro olhar. Tomara! Afinal, os 4.255 habitantes da ilha britânica têm convivido com um casal homossexual há quase 30 anos, sem saber. Ou seja: que diferença faz onde se coloca o desejo?

No ano passado, foi apresentado projeto de lei para reivindicar o casamento entre homossexuais, mas este foi rapidamente recusado devido à indignação de boa parte da população. Agora, o Conselho Legislativo de Santa Helena está realizando consultas em toda a ilha para avaliar se esse projeto deve ser apresentado antes de um processo judicial que contesta a lei atual por discriminação.

Espero que essa lei retrógrada não afete a convivência de Jonathan e Frederico. Não encontrei nenhuma referência a uma possível separação do casal de tartarugas em função da moral local. O que me chama a atenção é que todos os textos usam verbos no passado: comiam, se encontravam, acasalavam… E também não contam nada sobre o estado de saúde de Frederico.

Com informações do The Time

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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