Tarsila e o disfarce da favela

Há vontade de ser espigão, mas há também medo e falta do profissional que assine a desfaçatez. Melhor ficar nos dois, três andares. Uma construção colada na outra para não correr o risco de desmoronar. Essa paisagem da periferia – que se vê em tantos aondes como aquele ali ao passar pelo Rodoanel, no meio de Carapicuíba, em São Paulo – é tão desprovida da tradicional beleza arquitetônica que faz nascer um olhar outro.

Começa-se a enxergar fagulhas românticas, coisas que só a complacência consegue acender. Coisas do ser para outro ser que – se vê – também quer e necessita ser um outro porque esse, ah o vivente, mal e mal é aceito pela cidade bonita, pela sociedade da Avenida Paulista, pela maleabilidade que se diz ter, mas que só é aplicada aos pares. E o ímpar? E o que sobra? E o que soçobra? Só se assopra? 

E agora? Vi na falta de opção um modo de escolha de viver na cidade? Encarnei Tarsila do Amaral? Colori favelas? Amorteci tristeza? Aplaquei desigualdade? Só sei que essa vontade de escrever sobre isso me veio depois de ver a exposição do MASP e encarar esse Morro da Favela.

“Tarsila do Amaral – diz o texto na parede do Museu referente ao quadro – visitou o Rio de Janeiro no Carnaval de 1924, ano em que pintou três paisagens cariocas: Morro da Favela, Carnaval em Madureira e E.F.C.B, em referência à Estrada de Ferro Central do Brasil. O cenário do Morro da Favela surge como uma zona rural habitada pela população negra, povoada por casas coloridas e vegetação tarsiliana”.

Essa vegetação exuberante volta e meia tende para um fértil ovalado e dá esse ar de brasilidade romântica hoje tão difícil de respirar em meio à poluição carbônica e hegemônica que sufoca grandes minorias, aqui lembrando – para conforto textual – a população pobre que foi retirada no início do século XX do centro da cidade, indo aterrar no nosso Morro da Favela, localizado da zona portuária do Rio de Janeiro, próximo ao cais do Valongo, o maior porto de entrada de escravizados do mundo.

O texto da parede da exposição continua (a gente fica ali em pé lendo aquele monte de coisa, mas vale a pena. Vá com tempo e paciência para tentar se ver num passeio em meio aos quadros e aos muitos visitantes e não numa disputa mal educada por espaço para a próxima selfie).

Ao texto, ao texto: “em meio às casas de alvenaria geometrizadas e pintadas de rosa, branco e azul encontram-se barracos de madeira escura que parecem mal se sustentar verticalmente, assumindo posturas semelhantes às das plantas espremidas entre as outras casas. Seis personagens negros e dois animais povoam a paisagem. Discípula de Fernand Leger (1881-1955) e da estilização geometrizadora cubista, Tarsila ordena os elementos de um relevo acidentado através de faixas horizontais, distribuídas harmonicamente pela tela.”

Geometrizar, geometrizar… Como se tentasse contornar a história, racionalizar o difícil de digerir para não desistir. Tarsila pintou ferrovia surgindo, cidade subindo, modernidade explodindo. Acho que não quis pintar tanto a maldade nessa fase.

Enquadrou tudo em planos menos profundos em todos os sentidos que se queira dar a isso. A geometria, sim, é quadrada, é matemática. Mas a matemática é tão abstrata que pode nos embolar em viagens não concretas, em sentidos não reais, em ideias que são só isso mesmo: ideias. Um voo entre o plano das ideias para não pousar no real.  

Porém, anos depois, em 1933, pintou Segunda Classe, considerada a imagem mais abertamente crítica de Tarsila. Velhos e crianças de olhos tão fundos, magros, descalços. Esperando. Nem é mais o trem. Nem é mais vagão de segunda. É espera infinita por mudar de classe em dificuldade à enésima potência. Pintou dor talvez porque sentisse dor? Vinha de família abastada que passava, então, por dificuldades…

“A proximidade física (entre os retratados no quadro) sugere tanto uma relação familiar quanto uma noção de medo e precariedade. Ao longo da década de 1930, algo como 650 mil trabalhadores deixaram a região Nordeste do país – à época, uma área em grande parte rural e suscetível a uma seca crônica”, me diz o pedaço de parede disputado pelos ávidos visitantes.

Ávidos. Outros ávidos. Esses mágicos que lucram no meio da desgraça. Utilizo a tela Trabalhadores que mostra os mineradores para não deixar morrer a história de tantos mortos com os acidentes de Mariana e Brumadinho.  

Impressionadíssima com a multa de 250 milhões imposta à Vale pelo acidente em Brumadinho. Achou alta? Pois é: é menos de cem vezes o valor de mercado de 24 bilhões que a Vale recuperou na Bolsa de Valores um mês depois.

No dia do rompimento da barragem, o Bank of America, por exemplo, tinha ordem de comprar as ações da Vale porque a interrupção do funcionamento das barragens derrubava a oferta de minério, o que aumentava o preço do produto. No Brasil, o crime compensa! Essa frase e as informações eu tirei do Greg News (vou deixar o vídeo no final do post para você assistir ao programa inteiro).

É assim que acho importante a nossa vista, a nossa alma entrar no quadro: entre essas montanhas de absurdos. “A paisagem de montanhas, a mineração e a condição desses trabalhadores remetem-nos a uma cena de escravidão, sendo possível interpretar que a escolha da artista por representar, à época, tal cena aponta para a permanência de estruturas sociais escravocratas no Brasil ainda em 1938”.  

A expressão do retratado é de resignação ao trabalho pra lá de insalubre que ainda hoje, em pleno século XXI, é um dos que mais mata.

Segundo a Fundação Jorge Duprat e Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), de 2002 a 2010, o índice médio de acidentes de trabalho no Brasil foi 8,66%, enquanto que na mineração essa taxa chegava a 21,99%.

“A atividade mineral é uma das atividades que mais mata. E o Brasil é o país que mais mata. O acidente de trabalho de Brumadinho é o maior acidente de trabalho do mundo. E o pessoal até agora fica nessa firula: se é acidente, se é crime ou se é desastre. Isso é as três coisas juntas e muito mais”, relata a engenheira Marta de Freitas, especialista sobre condições de trabalho nos projetos de exploração mineral. Esse depoimento está na reportagem do Brasil de Fato. Ela disse mais:

“O trabalhador tem risco de explosão de gás, de queda, de atropelamento. E, se ele não morrer de acidente de trabalho, ao longo do tempo, ele vai ser acometido por doenças do trabalho: silicose, aluminose, a siderose. Isso vai comendo o pulmão, vai ceifando a qualidade de vida desse trabalhador. Surdez, perda auditiva, lesões na coluna”.

Nada disso acomete nosso presidente com sangue de minerador. Mas, para querer liberar exploração em terra indígena que precisa ser preservada, bem ele não está. Não deve estar batendo bem da bola. Mas como não dá para sair por aí desejando que ele bata bem da bota, vou aqui caminhando pela cidade de olho nas barbaridades.

Exposição Tarsila Popular

Data: até 28 de julho
Horário: terça, das 10h às 20h, quarta a domingo, 10h às 18h (fechado à segundas)
Local: Museu de Arte de São Paulo (Masp)
Endereço: Avenida Paulista, 1578 – São Paulo
Curadoria: Fernando Oliva, curador do MASP, e Adriano Pedrosa, diretor artístico do museu

Fotos: Creative Commons/Flickr (abertura) e demais arquivo pessoal e divulgação Masp

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além de repórter, foi produtora, editora e editora-chefe. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado. Seu mais recente projeto é o seu site pessoal

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