Surfistas terão roupa isolante inspirada em lontras e castores

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Peço licença aos leitores, nesta semana, para tratar de uma tecnologia inspirada em espécies norte-americanas em lugar da biodiversidade brasileira. Trata-se de uma notícia tão interessante que não pude resistir ao “estrangeirismo”: cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts o famoso MIT – desenvolveram uma roupa de mergulho “cabeluda” com base na observação dos pelos de lontras (Lontra canadensis e Enhydra lutris) e castores (Castor canadensis), habitantes das regiões frias dos Estados Unidos e Canadá.

A nova roupa é mais leve do que o neoprene, muito mais eficiente na retenção de calor e especialmente desenhada para quem vive entrando e saindo da água gelada, como os surfistas. “Esses atletas devem ser ágeis e querem se livrar da água (retida na roupa) tão rápido quanto possível. Mas também precisam manter as propriedades de gestão térmica para ficarem aquecidos quando estão submersos”, detalha a chefe da Engenharia Mecânica do Instituto, Anette Hosoi, coordenadora do trabalho.

A ideia de estudar lontras e castores surgiu durante uma visita a uma fábrica de roupa de mergulho de Taiwan, em 2015, realizada por Anette e alguns pós-graduandos orientados por ela. Como especialista em dinâmica dos fluidos, sempre interessada no design inspirado na natureza (biomimética), a pesquisadora instigou o grupo a procurar um modelo na natureza para servir de base ao desenvolvimento de um material mais apropriado para a roupa de mergulho.

“Ficamos particularmente interessados em roupas para atletas que frequentemente se movem entre o ar e a água”, explica Anette, conforme divulgado pelo MIT. Os estudantes elegeram as lontras e o castor, porque eles são semi-aquáticos, muito ágeis e não têm camadas de gordura para se proteger do frio, como focas, morsas e baleias. Então, a pesquisadora pediu para os alunos explicarem como esses animais aguentam as baixas temperaturas.

As respostas estavam na pelagem especializada das lontras e dos castores, que têm dois tipos de cerdas: as mais longas, finas e esparsas, que funcionam como proteção, e as mais curtas, espessas e densas, junto às quais o ar fica aprisionado, garantindo o isolamento térmico. A equipe logo passou para o desenvolvimento de um material que pudesse ser testado em condições controladas e filmado em câmera lenta, para ver o que acontecia em cada mergulho. Acabaram produzindo um tipo de emborrachado peludo, feito com um silicone especial, o polidimetilsiloxano ou PDMS.

“Nós podemos controlar o comprimento e o arranjo das cerdas e, também, o espaço entre elas. Isso nos permite desenhar texturas para diferentes velocidades de mergulho, maximizando a área das roupas que permanece seca (e isolada do frio)”, prossegue Anette. A relação entre a densidade e o comprimento das cerdas e a velocidade de mergulho foi cuidadosamente quantificada, de modo que será possível, no futuro, usar o mesmo material para fabricar roupas diferentes, ajustadas a usos específicos.

A dinâmica do novo material é detalhada num artigo publicado no jornal científico Physical Review Fluids, em outubro passado, assinado por Anette Hosoi, Alice Nasto, José Alvarado e Thomas Brun, todos do MIT, além dos pesquisadores visitantes Marianne Regli e Christophe Clanet, ambos da Escola Politécnica da França. A National Science Foundation se encarregou dos recursos para a pesquisa.

Para terminar este post, fotos de uma lontra em movimento, fora e dentro d’água, além de vídeo que apresenta o novo material biomimético produzido por Melanie Gonick para o MIT:

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Fotos: Felice Frankel/divulgação MIT (novo material para roupas de mergulho) e Liana John (Lontra canadensis, fora e dentro d’água, Zoo de Seattle, EUA)

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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