Supermercado distribui cartilha moralista e preconceituosa, consumidora reage e protestos viralizam


As empresas não estão acostumadas com isso e a maior parte dos consumidores ainda não se deu conta do seu poder, mas o fato é que a melhor forma de protestar contra qualquer ato deplorável, preconceituoso ou desonesto é o boicote e o ativismo nas redes sociais. E foi isso que o supermercado Hirota colheu ao distribuir a Cartilha da Família em seus caixas, esta semana.

A cartilha pode ter encontrado muitos adeptos para sua campanha moralista mas, também, passado desapercebida por inúmeras pessoas já que o preconceito e o moralismo fazem parte do nosso dia a dia. Atenta, a cliente (agora, ex) Vanessa Camargo – que estava acompanhada da irmã e de sua noiva, quando recebeu a publicação no caixa – se sentiu ofendida diretamente com o texto que execra o casamento homoafetivo e protestou em seu perfil no Facebook, pra quem quisesse ler. E muita gente leu e compartilhou seu post, viralizando a notícia.

A cartilha começa falando de sexo no casamento – antes, nunca! – e prossegue dizendo que só pode acontecer entre um homem e uma mulher: “O casamento é heterossexual. O casamento é a união entre um homem e uma mulher, entre um macho e uma fêmea”. E segue: “O casamento homoafetivo está na contramão do propósito divino (…), a relação conjugal entre homem e homem e mulher e mulher é antinatural, é um erro, uma paixão infame, uma distorção da criação“.

Vanessa comentou sobre a desrespeitosa campanha, reproduzindo a capa (no destaque deste post) e trechos dos textos da publicação que também incrimina o aborto  o classifica de crime hediondo – e incentivam a submissão da mulher a seu marido (reproduzo as páginas abaixo e no final deste post).

Como bem destacou no final de seu comentário, não pode haver amor onde há preconceito e desrespeito pelo ser humano.

“O Hirota perdeu muito mais que uma cliente. Perdeu uma enorme oportunidade de trazer a verdadeira mensagem crística de fé e amor. Pois Ele é a verdade e a vida. Ele é o caminho. Ele é o amor. E ninguém vai ao Pai por outro caminho. Ninguém! E é isso que a minha fé me ensina: que Deus é amor! E onde há desrespeito não há amor”. E concluiu: “Eu não volto mais àquele lugar. Eu não financio homofobia. Não financio transfobia. Não financio bifobia. Não financio desrespeito”.

A questão é que alguns religiosos acreditam fervorosamente em tudo que está escrito na cartilha do Hirota, e levantam essa bandeira de forma natural. Pra quem é humanista, o desconforto e a indignação são naturais também. E a resposta de quem está na rede social foi rápida: além dos comentários que não param, na página do supermercado, sua nota caiu: era 4 e baixou para 2,4. Acho que foi pouco para o que fizeram. Reproduzo alguns comentários no final do post.

Em sua resposta às manifestações no Facebook, o Hirota seguiu incoerente, dizendo que não queria causar nenhum transtorno e que, em seus valores, não há qualquer tipo de preconceito! Veja abaixo.

“O Hirota Food Supermercados lamenta qualquer transtorno que tenha causado pela distribuição da cartilha da família. Reiteramos que em momento algum tivemos a intenção de polemizar, ofender ou discriminar qualquer forma de amor. Em nossos valores não há nenhum tipo de preconceito em relação à gênero, religião ou raça. Atendemos todas as famílias da mesma forma, com a mesma humildade e carinho. Nossas sinceras desculpas a todos”.

Ex-clientes comentam a campanha na página do supermercado

“Não dá para dizer que a distribuição da cartilha homofóbica tenha sido um ‘erro’. Os donos do supermercado devem acreditar no que está escrito ali, caso contrário não teriam pago pela impressão e distribuição. O mercado deve estar muito bem de saúde financeira, para alienar e ofender parte de sua clientela desta forma. Com certeza, não terão mais meu dinheiro como cliente. Espero que fiquem bem, com suas famílias ‘normais'” – Renato Paiva Guimarães

“Não houve ato falho. Cinismo e hipocrisia caminham lado a lado com as diversas formas de opressão” – Caco Bressane

“Em pleno 2017, promover valores homofóbicos numa cartilha é desrespeitar clientes e suas famílias homoafetivas. Nunca mais volto aí” – Jackson Araújo

“A empresa tem ser julgada e punida no rigor da Lei Paulista Anti-Homofobia, a Lei 10.948/01, que pune atos de discriminação e preconceito sobre orientação sexual e de identidade sexual” – Adriano de Lavor

“Tudo horroroso, mas o pior é os babacas pedirem desculpas. Por que não bancam o que publicaram? Não é fofoca, tá escrito com a logomarca deles. Banquem o que fizeram, não peçam desculpas, aguentem o tranco e os prejuízos. Simples!” – Paula Marina

“Lamento o posicionamento preconceituoso propagado pela empresa. Descurti” – Cecília Valentim

“Rede preconceituosa. Como pode vocês publicarem algo tão ruim? Acordem, estamos em 2017!” – Fabiano Zig

Fotos: Etereuti/Pixabay e Vanessa Camargo/Facebook

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

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