Superando o medo da natureza

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Durante os encontros com pais e filhos do programa Ser Criança é Natural – que a pedagoga Ana Carol Thomé e eu desenvolvemos no Instituto Romã e dá nome a este blog – conversamos com muitos pais que nos contam que gostam da ideia de levar seus filhos para brincar com a natureza, que entendem sua importância, mas não sabem o que fazer com seu próprio medo de que algo de ruim aconteça. Sentem que devem proteger suas crianças contra os perigos que a natureza pode oferecer.

Se perguntamos que perigos são esses, nos relatam as picadas de insetos, cair e se machucar se subir em árvores ou correr por entre as raízes das árvores e pedras. Muitos educadores também já compartilharam conosco que se sentem no dever de proteger as crianças e que a natureza é muito perigosa. Muitos sentem aversão a aranhas, por exemplo. Além destes, aqueles que já se sensibilizaram sobre a importância da proteção da natureza, entendem que não devemos tocá-la para não prejudicá-la ainda mais.

Essa é uma questão crucial. Precisamos abordá-la com cuidado e seriedade, senão corremos o risco de “jogar fora o bebê com a água do banho”.

A polêmica é gerada pelas diferentes emoções que as pessoas sentem em relação a uma mesma experiência. As três posturas acima citadas têm em comum o medo, seja medo da morte ou do sofrimento. Mas é preciso reconhecê-lo, acolhê-lo e, por fim, transformá-lo.

Talvez, aqui, possamos pedir ajuda ao pensamento científico e lembrar que, desde o início do Universo, a força vital se movimenta e se transforma criando infinitas possibilidades. Uma delas, maravilhosa, foi o surgimento da Terra que, diante de situações muito específicas, acolheu o desenvolvimento do que chamamos de Vida.

Uma das características mais importantes da Vida na Terra é que ela se apresenta por meio de uma infinidade de diferentes formas. Uma das formas mais recentes, surgida há apenas 200 mil anos, é esta que nos forma: mamíferos bípedes com cérebro altamente desenvolvido e polegar opositor, características essas que nos permitiram explorar o mundo, transformar espaços. ocupar todos os recantos do planeta, criar modos de interpretar o mundo, nos uni1r, nos comunicar, criar novos mundos e novas substâncias que os outros seres vivos não conseguem reconhecer.

Retomo tudo isso para dizer que somos natureza há mais de 13 bilhões de anos e somos humanos há 200 mil anos. Cada criança que nasce é a natureza nos contando essa história. Mas imediatamente nos ocupamos a lhes dar as primeiras lições de cultura, sem olharmos para o ser natural que vem com ela, com suas necessidades de ainda pulsar junto com outros seres vivos.

Manter o contato das crianças com a natureza desde o início de sua vida é dar-lhes o alimento de que necessitam para tornarem-se humanas numa velocidade mais natural, sem romper o vínculo com a natureza que nasce com ela e que a acompanhará durante toda sua vida até o seu final.

O drástico rompimento desse contato provoca nas crianças um sofrimento anímico, pois tira-lhe a ligação com sua fonte vital.

Se os adultos que cercam essa criança sentem medo e estranhamento em relação à natureza é porque alguém lhes “ensinou” esse sentimento, pelo exemplo. Então, como fazer para garantir às crianças o direito de se manterem e se desenvolverem em contato com a natureza?

Será preciso que os adultos reflitam, se informem e se disponham a trabalhar esses medos até transcendê-los. As próprias crianças podem ser seus guias, ajudando-os, pouco a pouco, a superar suas dificuldades.

Isso lhes proporcionará a oportunidade de se conhecerem melhor e de se desenvolverem de forma plena. Assim, se a criança é natureza, ela ensinará o adulto a sê-lo também. Não é complicado, basta ter menos verdades e buscar ser mais verdadeiro. Ter humildade para permitir que as crianças os guiem. Permitir que os seres não humanos, em vez de ameaçar, os protejam. Na experiência direta com eles.

Não estaria a natureza, há milênios, aguardando por esse nosso despertar?

Fotos: Renata Stort

Bióloga e socióloga, é autora dos livros “Como Cuidar da Natureza” e “Conservar e Criar”, sócia-diretora do Instituto Romã e consultora do projeto Criança e Natureza do Instituto Alana. Ministra cursos, vivências e palestras para aproximar as pessoas do ambiente natural. Acredita que a criança é a natureza se tornando humana e, por isso, precisa conviver com ela para seu desenvolvimento sadio e integral.

Rita Mendonça

Bióloga e socióloga, é autora dos livros “Como Cuidar da Natureza” e “Conservar e Criar”, sócia-diretora do Instituto Romã e consultora do projeto Criança e Natureza do Instituto Alana. Ministra cursos, vivências e palestras para aproximar as pessoas do ambiente natural. Acredita que a criança é a natureza se tornando humana e, por isso, precisa conviver com ela para seu desenvolvimento sadio e integral.

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