Subúrbio cósmico


Desde que Nicolau Copérnico deu os primeiros passos para compreender a posição da Terra no cosmos já se passaram quase 500 anos. De lá para cá, aprendemos que – longe de ser o centro do Universo – a Terra orbita ao redor do Sol, que, por sua vez, é uma estrela de quinta magnitude, dentre outras 200 bilhões de estrelas que compõem a Via Láctea.

A despeito dessa posição periférica, que pode ser chamada de subúrbio cósmico, ainda há seres humanos que se consideram o centro do universo. Duvida disso? É só se lembrar da última rasteira que tomou de alguém próximo, que estava centrado em seu umbigo e nem se lembrou de que você existia.

Então vai o alerta para esses espertinhos: cada pessoa não passa de um gigantesco conglomerado formado por trilhões de átomos e moléculas, caprichosamente ordenadas na forma de Homo sapiens. Este fantástico arranjo orgânico irá durar algumas décadas, mas depois – implacavelmente – irá para o beleléu.

O alerta vale também para nós mesmos. Sim, eu concordo que é meio assombroso pensar que esta admirável organização de moléculas ordenadas em células, tecidos e órgãos que forma quem você é não irá durar para sempre. Se você viver 75 anos, terá permanecido como você por aproximadamente 650 mil horas. Muito pouco, não é? Quem fez este cálculo atemorizante sobre nossa existência efêmera foi Bill Bryson, no livro espetacular chamado Breve história de quase tudo (publicado no Brasil pela Companhia das Letras).

Ainda assim, mesmo passageiros e periféricos, do ponto de vista biológico somos fabulosos: esta organização molecular que forma você, é tão especializada e única que só existirá uma vez. Ainda de acordo com Bryson, as partículas minúsculas que nos formam se dedicarão totalmente aos bilhões de esforços cooperativos para mantê-lo intacto e deixá-lo experimentar o estado delicioso que é a nossa existência. Todos os átomos que nos compõem responderão a um só “impulso”, regido por trilhões de reações bioquímicas: fazer com que você seja você.

Talvez por isso mesmo é que muitos de nós – pouco ou nada sabedores desse esforço cósmico-molecular para nossa manutenção – passamos a nos considerar a “última e mais crocante bolacha do pacote”. Quase inexplicável mesmo, não é?

Vamos compreender um pouco mais esse paradoxo. De um lado, uma boa notícia: por um acaso tremendo, existimos. E isso é sensacional! Sempre penso que, se meu avô tivesse morrido no navio que o trouxe da Itália para o Brasil no final do século 19, eu não estaria aqui… ou, pelo menos não seria eu mesmo!

De outro lado, a má notícia: os átomos que nos formam são relativamente instáveis e o tempo de “dedicação” para nossa manutenção é finito. Quando eles se desunirem e deixarem de lado esta tarefa, você passará rapidamente a ser outra coisa.

Puxa vida, mas que decepção! Não, meu caro. Nossa existência é sensacional. Absolutamente singular e extraordinária. E tem mais: o planeta em que vivemos tem uma magnífica biodiversidade, única que conhecemos em todo o universo!

Para terminar, fica o recado: na próxima vez que se chatear com alguém – por algo pequeno e trivial ou grande e comprometedor – lembre-se de Copérnico e das nossas efêmeras 650 mil horas. Olhe para o céu! Relativize sua existência. Pense nos esforços de cientistas que nos ajudaram a compreender o mundo em que vivemos. A Terra é que gira. O Sol não, embora nossa experiência sensorial primária diga o contrário.

Daí você vai relativizar e entender – mas não perdoar – o político inescrupuloso, o corrupto e o corruptor, o governante que fura a fila no aeroporto, o empresário que polui as águas do rio, o cara que estaciona em fila dupla na frente da escola de seu filho, aquele que joga lixo pela janela do carrão importado, ou o fulano que faz tudo pensando que é melhor que o outro ou, pior, imaginando que é o centro do universo….

Eles não são o centro de nada. Mais dia menos dia, irão todos para o beleléu!

Para ir mais fundo

– Bryson, Bill. Breve história de quase tudo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
– Danielson, D. R. A Teoria de Copérnico Desalojou os Seres Humanos do Centro do Cosmo. In: D.L. Numbers. Galileu na prisão e outros mitos sobre Ciência e religião. Lisboa: Editora Gradiva, 2012.
– Rosseti, Victor. Ciência e idade média – Copérnico, Giordano Bruno, Galileu e suas relações com a inquisição. Acesso em 19.11.2017.

Foto: José Sabino

Biólogo, doutor em Ecologia pela Unicamp e mestre em Zoologia pela Unesp. É professor e pesquisador da Universidade Anhanguera-Uniderp, onde coordena o Projeto Peixes de Bonito. Trabalha com comportamento animal e biodiversidade, além de dedicar especial atenção à divulgação e à compreensão pública da ciência. Desde 2000, vive no Mato Grosso do Sul – perto do Pantanal e de Bonito – com sua família e outros bichos

José Sabino

Biólogo, doutor em Ecologia pela Unicamp e mestre em Zoologia pela Unesp. É professor e pesquisador da Universidade Anhanguera-Uniderp, onde coordena o Projeto Peixes de Bonito. Trabalha com comportamento animal e biodiversidade, além de dedicar especial atenção à divulgação e à compreensão pública da ciência. Desde 2000, vive no Mato Grosso do Sul – perto do Pantanal e de Bonito – com sua família e outros bichos

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