Sting e Raoni se encontram em São Paulo e fazem apelo pelos povos indígenas


Os dois não andam mais pelo mundo fazendo campanhas pela floresta amazônica como nos anos 80 (1988), quando se conheceram. E a ONG de StingRainforest Foundation – parece um pouco apática, a julgar pela atualidade das notícias publicadas em seu site. Mas, em entrevista a uma emissora de TV brasileira – talvez a única que cobriu o encontro com certo destaque -, logo após seu megashow em São Paulo, em 6/5, o cantor afirmou que o líder indígena é seu amigo e uma inspiração.

Sim, ele, sua mulher, Trudi, e Raoni pareciam muito amáveis e felizes ao se reencontrarem. Trudi e Raoni assistiram ao show de Sting juntos. Depois subiram ao palco para se juntar a ele e agradecer a multidão que lotava a superarena do Palmeiras.

A visibilidade que o líder indígena ganhou na companhia do amigo foi ótima (principalmente com a tal reportagem na grande emissora, mesmo sendo um pouco tendenciosa quando fala do agronegócio). Ainda mais neste momento tão delicado para os índios brasileiros por conta do descaso na demarcação de suas terras – garantida pela Constituição de 1988 -, que desacelerou há alguns anos e agora está praticamente parada – o Congresso ensaia manobras para afrouxar as bases que sustentam as demarcações hoje –, o que os torna vulneráveis demais.

E o clima estava especialmente agitado e tenso na semana em que Sting esteve no Brasil. Vejamos…

– Em Brasília, durante cinco dias (24 a 28/4), mais de 1.500 lideranças indígenas uniram seus povos para realizar o Acampamento Terra Livre e reivindicar direitos. Em uma de suas mobilizações, a polícia os atacou com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha;

– Por mais de uma semana, o povo Munduruku se armou com bordunas, arcos e flechas e interditou trecho chave da Transamazônica, onde acontece o escoamento da produção de soja para os portos no rio Tapajós. Motivo: a postura do governo sobre a demarcação de terras e o desmonte da Funai. No início, foram ameaçados pelos caminhoneiros, mas, em seguida, estes os apoiaram. A rodovia só foi liberada em 4/5, dois dias antes do show de Sting;

– Em 30/4, os índios Gamela, em Viana, no Maranhão, foram vítimas de emboscada de produtores rurais por causa de terras que querem retomar. Muitos feridos entre os indígenas (total de 22, dos dois lados), três gravemente;

– Em 5/5, foi divulgada versão preliminar da Comissão Parlamentar de Inquérito Funai-Incra (mais uma manobra do Congresso) que culminou com a exoneração do presidente da Funai, Antonio Costa. No mesmo dia, ele deu entrevista coletiva à imprensa denunciando o governo – “que quer acabar com política indigenista” – e o ministro da Justiça, o ruralista Osmar Serraglio. A versão final do relatório da CPI deve ser votada em breve;

– Nesse dia também, em reunião do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, na Suíça, o governo brasileiro recebeu recomendações dos países-membros para que detenha violações contra os povos indígenas, contra defensores dos direitos humanos e populações pobres e carcerárias. Ufa!

Raoni não relatou tantos acontecimentos – creio que nem haveria tempo pra isso -, mas focou na importância da demarcação das terras indígenas, sua antiga bandeira, dividida com Sting há 30 anos, e também no destino da Funai.

“Os índios estão ameaçados desde a colonização”, lembrou o líder indígena. “Minha avó já falava dos ancestrais que viviam nesta terra e que foram ameaçados com o Descobrimento. E tudo isso que está acontecendo agora é muito preocupante para nós”. E completou lembrando da única instituição criada para proteger os índios (mesmo com ressalvas): “Tenham mais respeito pela Funai, ela existe para cuidar do nosso povo”.

“Sem os povos da floresta, o mundo seria menos interessante, mais chato. Essas pessoas são um tesouro e nos trazem muitas lições de sustentabilidade”, disse o cantor. “Raoni é meu amigo e minha inspiração. Eu o apoio, como sempre o apoiei. A mensagem dele é a mesma há 30 anos. É um brasileiro muito importante, então, por favor, ouçam o que ele tem a dizer”. Sim, precisamos ouvir Raoni e todos os índios. Os Kayapó (etnia e Raoni), os Munduruku, os Guarani Kaiowaa, os Gamela…

Este encontro entre Sting e Raoni não lembra, nem de longe, o primeiro. Nem o segundo, há dez anos. Foi mais distante, formal, insoso, sem grandes emoções. Na reportagem feita pela tal emissora, o encontro dos três parece ensaiado, até. Não há o mesmo entusiasmo que moveu Sting a rodar o mundo na companhia de Raoni e a criar uma fundação pelas florestas tropicais, em 1989.

Não sei se Raoni esperava mais do amigo. Eu sim. Mas, neste momento que vivemos no país, em que a vida dos índios está por um fio – e, consequentemente, a nossa também! – qualquer ajuda ou apoio é imprescindível para dar mais força a esta luta. Demarcação já! 

Foto: Reprodução de vídeo

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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