Sonho Meu: força das mulheres faz avançar associação de agricultura familiar no Acre

Os posts que tenho escrito sobre economia solidária aqui, neste blog, quase sempre trazem a presença e a força da mulher na atuação dos empreendimentos.

Hoje trago um grupo de mulheres que trabalha com agricultura familiar num assentamento em Porto, no Acre. Composta por pessoas de idades variadas, a Associação Sonho Meu foi uma das vencedoras da 5ª edição do Prêmio Consulado da Mulher de Empreendedorismo Feminino, cuja cerimônia de premiação aconteceu no início deste mês.

Criada para incrementar a produção dos agricultores e agricultoras familiares no Projeto de Assentamento do Caquetá – instituído pelo INCRA em 1997 e que assentou, na época, cerca de 583 famílias em áreas de 15 hectares -, a Associação Sonho Meu visa potencializar 20 famílias de mulheres empreendedoras, com foco em trabalho e geração de renda, valorizando a produção familiar com base em sistemas e cultivos agroecológicos e agricultura orgânica e no desenvolvimento de estratégias econômicas, sociais e sustentáveis.

Com o prêmio recebido pelo Consulado da Mulher, a Associação equipou a cozinha com freezers, geladeiras, micro-ondas e purificador de água, e vai investir o dinheiro ganho em ajustes de embalagem e produção para ampliar a comercialização dos produtos. A premiação inclui ainda dois anos de assistência técnica.

Elisabete Santos Silva, presidente da Sonho Meu, conta que tudo isso, além da capacitação técnica oferecida pelo Consulado, ajudará muito no avanço do trabalho da Associação: “Essa conquista é maravilhosa. Precisávamos de freezers para guardar polpas, frutas, compotas, geleias, e agora temos onde armazenar a nossa produção. Estamos felizes também porque teremos assistência técnica por dois anos. No Brasil estão acontecendo cortes muito grandes do governo federal em assistência técnica, então conseguir isso é importante para a gente”.

A criação da Sonho Meu está ligada a uma outra associação, que funcionou no período em que o assentamento das famílias foi realizado, para reivindicar políticas públicas, mas entrou em colapso e ficou sete anos inativa. “As mulheres rurais sempre tiveram muita necessidade de organização, então nos juntamos e resolvemos ativar a associação. Resgatamos o antigo CNPJ, o estatuto, pagamos as multas, colocamos os documentos em dia e reativamos, mas como outro nome, agora Sonho Meu”, diz Elisabete.

Desde então o grupo tem buscado se associar a parceiros que auxiliem na formação e melhoria contínua do trabalho, como Senai, EMATER, UNISOL Brasil e a Secretaria Especial de Políticas para Mulheres do Acre. Cursos, formações, acesso a crédito, intercâmbio, oportunidade de comercialização dos produtos em feiras são alguns dos pontos destacados por Elisabete como resultado dessas parcerias.

“A gente conseguiu se manter na ativa até agora e continuamos vencendo as dificuldades. Quando começamos não tínhamos meio de transporte nem equipamentos, hoje já temos um caminhão, trator com arado, grade, plantadeira, tanque resfriador de leite para a comunidade que trabalha com isso. Vivemos organizados, mulheres, homens e jovens, para alcançar as nossas necessidades. Somos pequenos, mas temos conseguido dar bons passos por meio da Associação”, diz ela.

Um desses passos foi a criação da Cooperativa Sonho Meu para facilitar a comercialização dos produtos. O grupo produz frutas como banana, mamão, melancia, limão e laranja, hortaliças como rúcula, pepino, maxixe, alface, cebolinha e cheiro verde, além de leite. O leite e laticínios também produzidos, como queijo, iogurte e requeijão, são vendidos para um laticínio local. As frutas e hortaliças são consumidas em boa parte pela própria comunidade, que compra direto do produtor, e também em feiras na capital do estado, Rio Branco. São produzidos ainda geleias, compotas, polpas e doces.

Lázara Marcelino, da Secretaria Estadual de Políticas para Mulheres do Acre, acompanhou Elisabete na entrega do prêmio do Consulado da Mulher. A participação da Secretaria nessa conquista foi importante: “O grupo da Bete já teve uma inscrição nesse prêmio, há alguns anos, mas não conseguiu. E é para nós uma referência. Primeiro, por ter uma mulher à frente da Associação, mas também por reconhecermos a capacidade de liderança e competência dela e perceber que há união no grupo. Nesse processo de inscrição do projeto e premiação, nos sentimos comprometidas a fazer o acompanhamento e a gestão”.

Lázara participou, juntamente com Elisabete, do processo de capacitação promovido pelo Consulado da Mulher, e está envolvida em sua multiplicação junto às mulheres da Sonho Meu, incluindo processo de gestão, comercialização, higienização dos produtos, como melhor a aparência, enfim. “Isso é muito importante, porque elas já têm alguns espaços de comercialização, como as feitas e o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar), mas estamos já pensando em futuros novos mercados”, diz ela.

Os maiores desafios da Sonho Meu, hoje, incluem conseguir embalar os produtos seguindo as formalidades, para expandir mercados, e manter a escala da produção, o que, segundo Bete, tem sido difícil por causa da variação do clima. “Ainda não temos estrutura de irrigação para produzir no verão, por exemplo. Manter a escala de produção é a maior dificuldade. E embalar, com código de barras, licença da Anvisa e todos os procedimentos. Parece difícil, mas vamos lutar e perseguir esses objetivos até alcançá-los. Para a gente conseguir ganhar o mundo, vender para o nosso estado e para os nossos vizinhos, Peru e Bolívia”.

Foto: Divulgação

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

Mônica Ribeiro

Jornalista e mestre em Antropologia. Coordenou a Comunicação da Secretaria do Verde da Prefeitura de São Paulo – quando criou as campanhas ‘Eu Não Sou de Plástico’ e, em parceria com a SVB, a ‘Segunda Sem Carne’. Colaborou com a revista Página 22, da FGV-SP, e com a Unisol Brasil. Hoje é conectora – trabalha linkando projetos e pessoas de todas as áreas na comunicação para um mundo melhor

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