Som pantaneiro se faz com madeira e arte nas curvas da viola de cocho


Cinco cordas, cintura fina, quadris largos, caixa fechada e braço curto: assim é a viola de cocho, instrumento musical do Pantanal Matogrossense, com o qual se bota o povo para dançar ao som do cururu e do siriri. De origem portuguesa, mas abrasileirada nas madeiras, nas cordas e na afinação (difícil), a viola de cocho foi registrada no livro dos saberes do patrimônio imaterial brasileiro em dezembro de 2004.

No Pantanal, a arte de esculpir a caixa da viola à mão, a partir de madeira maciça, hoje é dominada apenas por alguns poucos violeiros de idade avançada. Os construtores dedicados à comercialização para turistas já se valem de algumas ferramentas elétricas, como serras de fita e furadeiras, para dar forma a raízes de várias espécies de figueiras ou gameleiras (gênero Ficus) ou ao tronco de cajás (gênero Spondias), embiruçus (gênero Pseudobombax) e ximbuva (Enterolobium contortisiliquum). O tampo geralmente é de figueira-branca (Ficus organensis). E quatro das cordas, antes feitas das tripas de macacos ou ouriços, hoje são de linha de pescar. A quinta corda é de metal.

Em Penedo (RJ), no pé da Serra da Mantiqueira, o luthier Braz da Viola faz a caixa de jacarandá-da-bahia (Dalbergia nigra), com tampo de caixeta (Tabebuia cassinoides) – quando quer que a viola de cocho tenha a aparência original, bem branquinha – ou de madeiras exóticas, como pinho, abeto europeu e cedro canadense.

“Só fiz duas violas da maneira tradicional pantaneira, escavando num tronco só. Achei muito desperdício de madeira, por que perco a parte interna e externa”, comenta Braz da Viola. Ele estudou uma maneira de fazer o corpo em lâminas, como se estivesse fazendo viola caipira ou violão, e agora produz seis laterais e fundos com a mesma quantidade de madeira que usava para uma única viola de cocho escavada. “É uma forma de não desperdiçar essa madeira, além de não precisar escavar jacarandá, que é uma madeira muito dura. Em geral, a madeira de uma viola de cocho tradicional fica com um centímetro de espessura, é muito grossa e muito pesada, enquanto da minha maneira chego a uma espessura de dois milímetros, que soa muito melhor”, explica.

Braz da Viola esteve com alguns mestres fazedores de viola de cocho, como Seu Bugre, de São Gonçalo de Beira Rio, que escavava o corpo no enchó e a lateral no facão. “Fiz muitas violas de cocho nos anos 1990, antes de começar com a viola caipira, mas hoje são poucas: num ano bom faço meia dúzia de violas de cocho para cada 20 a 25 violas caipiras”, diz. A demanda maior é de violeiros que compram o instrumento no Pantanal e depois precisam de ajustes para conseguir afinar.

O multi-instrumentista e luthier já atendeu pedidos do Brasil inteiro e até mandou uma para o exterior. E aí estão incluídas diversas violas decoradas com figuras em machetaria, paixão do “fazedor”. Quando pode, ele ainda inclui cravelhas de ébano, como as da viola clássica. Isso tudo encarece o instrumento, claro. Mas a sonoridade compensa, garante Braz da Viola.

Fotos: Braz da Viola (violas de cocho) e Liana John (figueira no Pantanal)

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

Liana John

Jornalista ambiental há mais de 30 anos, escreve sobre clima, ecossistemas, fauna e flora, recursos naturais e sustentabilidade para os principais jornais e revistas do país. Já recebeu diversos prêmios, entre eles, o Embrapa de Reportagem 2015 e o Reportagem sobre a Mata Atlântica 2013, ambos por matérias publicadas na National Geographic Brasil.

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