Código de Consciência: software gratuito bloqueia veículos em áreas de proteção ambiental, impedindo o desmatamento

Meus olhinhos brilharam assim que soube do lançamento do chip que o cacique Kayapó Raoni segura na foto acima. Chamado de Código de Consciência (Code Of Conscience), é um software gratuito e de código aberto que detém informações sobre as áreas de preservação ambiental no mundo – do Bando de Dados das Nações Unidas – para impedir que veículos pesados, como tratores, caminhões e retroescavadeiras circulem por essas áreas protegidas. Quando isso acontece, o software detecta, pelo GPS, a entrada ilegal na área e envia uma notificação para o motorista. Se ele prosseguir, o veículo é desligado. Dessa forma, o chip funciona como um escudo digital de proteção ao meio ambiente (no final deste post, reproduzo vídeo que explica como ele funciona, em detalhes).

“É difícil parar os homens, mas podemos parar as máquinas que eles usam”. Esta é a frase que norteia o projeto, e que está destacada em seu site. Genial, não?

O avanço do desmatamento no mundo é grave e, no Brasil, ganhou proporções inimagináveis com o governo de Bolsonaro. Suas declarações sobre seu desejo de liberar a Amazônia para exploração de minérios e do agronegócio – antes e depois de assumir a presidência -, foi reforçada pelo desmonte da área ambiental, com redução drástica da fiscalização, o afrouxamento de multas, a desqualificação de órgãos de monitoramento como o Inpe… E deu no que deu: o desmatamento aumentou barbaramente – quase 300% a mais em julho, em comparação com o mesmo mês do ano anterior – e, em julho, a escalada de queimadas e incêndios se iniciou – impulsionada pelo Dia do Fogo, criado por fazendeiros desmatadores em apoio a Bolsonaro – e não parou mais. O Brasil está em chamas.

Por isso, iniciativas como a do Código de Consciência são imprescindíveis. Ela foi possível graças à união de seis organizações não-governamentais – cinco brasileiras e uma estrangeira: Instituto Raoni, Ipam – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, Idesam – Conservação e Desenvolvimento Sustentável, Instituto Peabiru, Ecam – Equipe de Conservação da Amazônia e World Land Trust. O escritório brasileiro da agência AKQA desenvolveu o projeto e criou a campanha, que tem o mais perfeito ‘garoto propaganda’: o cacique Raoni.

Poxa, mas por que não pensaram nisso antes? Antes de Bolsonaro assumir o poder, antes que a destruição fosse orquestrada de maneira tão rápida e sórdida por este presidente e por seu ministro do meio ambiente… Mas, como diz o ditado mais ou menos popular: “Antes tarde do que mais tarde”. O fato é que, agora, ele existe. Parece sonho, mas é realidade. E pode abrir caminhos para outros projetos dessa magnitude.

Indústrias, uni-vos contra o desmatamento!!

Assim que o código ficou pronto, foram enviadas cartas-convite para os CEOs das 10 maiores fabricantes do mundoCaterpillar, Doosan Infracore, JCB, John Deere, Hitachi CM, Komatsu, Liebherr, Sany, Volvo CE e XCMG – com um presentinho: o chip acoplado a uma escultura de um animal ameaçado de extinção, como mostra a foto acima, com Raoni. As esculturas foram feitas com restos de madeira de desmatamento, representando a necessidade de conservar nossas florestas.

“Para simbolizar a viabilidade de implementação do Código da Consciência a um baixo custo em
diversas máquinas, foi desenvolvido um chip pequeno (que Raoni segura, na foto) contendo GPS, 4G e armazenamento de dados — além do código”, explica o site do projeto, disponível em inglês e português.

O banco de dados sobre as unidades de conservação é atualizado constantemente pelo sinal do celular. E, quando o veículo está fora de área, o sistema utiliza dados já armazenados em cache.

O código é gratuito e está disponível para adaptação por qualquer fabricante de caminhões, retroescavadeiras, tratores e veículos pesados utilizados no desmatamento. Basta entrar em contato com a organização do projeto por e-mail – contact@codeofconscience.org – para solicitar o download do código.

“Sabemos que suas máquinas não foram feitas para destruir a natureza. Então, solicite o código, estude formas de implementação e instale o sistema em suas futuras máquinas”. Este é o convite do projeto.

Mas o apelo para os empresários vai muito além da adoção pelos fabricantes. Propõe que qualquer empresa “adote o Código da Consciência em sua frota ou exija que seus fornecedores o façam”, lembrando que o sistema também funciona como uma certificação, revelando o compromisso com o meio ambiente. Certamente, seus consumidores e clientes vao gostar de saber que a empresa é contra o desmatamento.

Entre as empresas que já aderiram ao código, estão: a agência AKQA, que o desenvolveu e idealizou a campanha promocional; TEKT Industries, Popoke by Eduardo Castanheira  and Natália Rocha, Horda, Hefty+Underdogs, Webcore, ArizonaLa Carretera, Prodigo e The End.

Que tal a sua empresa também aderir à esta campanha? Que tal ajudar a divulgá-la entre seus fornecedores? Que tal contar sobre esse projeto para o seu pai, sua namorada, seu amigo…

O que cabe aos cidadãos

Qualquer um de nós pode ser tornar divulgador do Código de Consciência e espalhar a ideia deste projeto nas redes sociais, marcando empresas, fabricantes (da lista divulgada acima) e governos, convidando-os a adotá-lo. O ideal é que os posts usem a hashtag #CodeOfConscience.

O texto proposto para tweet é este: “É difícil impedir os homens de destruírem a natureza, mas podemos parar as máquinas que eles usam. Conheça o software de código aberto que limita o uso de máquinas pesadas em áreas protegidas. – https://youtu.be/_HSGJcHgpps”. Eu já tuitei. 

Você também pode compartilhar o site e todas as notícias que encontrar a respeito do projeto. O Código de Consciência tem página no Facebook e perfil no Instagram. Seja incansável e acompanhe as novidades.

Código de Consciência, um projeto de lei

Sim, é isso mesmo! Os governos podem participar deste movimento promovendo a transparência nos dados de licenças ambientais e vinculando tais liberações ao sistema do Código de Consciência para garantir que não haja fraudes nas atividades em áreas protegidas.

Mas podem ir além: ajudar no desenvolvimento do projeto para transformá-lo em lei. Que tal? Vamos nos unir para isso?

Mas e os veículos que já circulam por áreas protegidas?

Não encontrei nenhuma informação na campanha do código que indicasse o que pode ser feito no caso dos veículos que já circulam pelo Brasil e podem ser utilizados para práticas ilícitas em áreas protegidas.

Sugiro, então, que se crie condições para que o chip possa ser acoplado a qualquer máquina já em uso – coisa de ficção? ando vendo muito filme de espionagem? – e que centenas deles sejam distribuídos entre os povos indígenas, quilombolas e populações ribeirinhas, devidamente treinados para que as instalem nas máquinas que encontrarem pela floresta, como nos filmes de espionagem. Numa espécie de guerrilha tecnológica na mata.

Os Munduruku, por exemplo, em suas ações de auto-demarcação, não precisariam incendiar os veículos dos invasores de suas terras, colocando em risco suas vidas e a da floresta. Bastaria acoplar o “chip de Raoni” ao maquinário e expulsar os criminosos.

Abaixo, reproduzo o vídeo de apresentação do Código de Consciência com Raoni. E também um vídeo (com legendas em português) sobre seu funcionamento. Muito interessantes!

Fotos: Divulgação

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

Um comentário em “Código de Consciência: software gratuito bloqueia veículos em áreas de proteção ambiental, impedindo o desmatamento

  • 17 de setembro de 2019 em 9:44 AM
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    Muito legal a ideia do chip embora sua instalação não seja desejável pelos mal intencionados. Em todo caso já é um avanço no combate aos desmatamentos sobretudo no âmbito das grandes metrópoles onde o problema está assumindo contornos incontroláveis.

    Pena que a (boa) matéria venha com o viés ideológico/partidário o que acaba contaminando a leitura dos desavisados. Sugiro uma entrevista com o próprio ministro do meio ambiente para esclarecimento das informações duvidosas aqui postadas. Nada como ouvir o próprio acusado defendendo-se.

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