Sobre natureza, telas e crianças

– Meu filho não larga o celular! Ele não quer nadar!
– Não consigo convencer meu filho a parar de jogar video-game e brincar lá fora!

Eu ouvi a primeira frase do pai de um menino de oito anos sentado à beira de uma piscina de água natural, num calor de 32oC, no meio das férias. A segunda é o depoimento da mãe de uma criança de onze anos que mora num grande centro urbano e tem uma casa de campo com um rio passando ao lado. Em ambos os casos, ouvi um pedido de ajuda: o que eu faço para ver meu filho brincando na água como estão fazendo as outras crianças? E também senti o reconhecimento de um fato: há algo estranho quando uma criança saudável de oito ou onze anos não tem vontade de brincar na água como fazem os outros meninos e meninas.

Várias vezes presenciei pais e mães frustrados porque seus filhos não conseguiam subir numa árvore, andar de bicicleta, chegar perto de um cachorro, pegar um inseto com as mãos, pisar descalço na terra, tomar chuva, caminhar por algumas horas numa trilha

Não conseguiam e não queriam. Estavam mais interessados e confortáveis em ficar dentro de casa, quase sempre na frente de uma tela, assistindo a seu canal favorito, jogando ou teclando numa mídia social. E novamente a mesma expressão de desapontamento, às vezes maior, às vezes menor. Mas sempre um incômodo, como se lembrassem que lugar de criança é do lado de fora, ao ar livre.

Qual foi o percurso dessas crianças para que isso acontecesse? Será que as telas são tão mais atraentes que as fazem não querer se jogar na água no calor escaldante ou não ter interesse em explorar um rio? Em que momento a natureza deixou de exercer seu magnetismo sobre essas crianças?

As respostas a essas perguntas não são simples e meu objetivo, aqui, não é apontar culpados ou demonizar as telas. Quero, sim, demonstrar que estamos frente a um enorme desafio, pois ambos os mundos – natural e digital – têm potencial de trazer grande alegria, sentido e desenvolvimento para as crianças e para adultos também. Entretanto, é uma tarefa dificílima conseguir usufruir plenamente de tudo que há de bom nesses dois mundos, que não são de modo algum antagônicos ou excludentes, mas certamente são díspares em sua força e presença nas vidas de todos nós.

A tecnologia trouxe e continua trazendo inúmeros benefícios para nossa sociedade e para as crianças e jovens em especial, como o acesso à informação, convivência, articulação e liberdade de expressão. Embora não haja consenso, há fortes evidências dos riscos que as mídias digitais impõem à sociedade: fragilidade dos mecanismos de proteção de dados e privacidade, conteúdos publicitários, violentos ou preconceituosos, tecnologia persuasiva desenhada para reter a atenção do usuário, gamificação de experiências e a eterna sensação de estarmos perdendo algo.

Uma análise um pouco mais profunda mostra que não foi apenas a “falta de vontade” dos pais e das mães que fez com que as crianças dos exemplos acima estivessem tão seduzidas pelos jogos e plataformas que acessavam. Empresas e produtos digitais lutam por um único bem: a atenção de seus usuários. E, nessa briga de gigantes, as crianças são extremamente vulneráveis, justamente por serem pessoas em estágio peculiar de desenvolvimento

Precisamos entender quais são essas vulnerabilidades e advogar por produtos como mídias sociais, jogos, plataformas de vídeo e música via streaming que utilizem design humanizado, com o objetivo não de capturar a atenção das crianças a qualquer custo, e mantê-las por horas em frente a uma tela erodindo sua capacidade de se relacionar com o outro e com o mundo, mas, sim, oferecer a elas experiências que protejam sua privacidade, resguardem sua capacidade de desconectar e fortaleçam seus laços sociais.

Por outro lado, está cada vez mais claro que incentivar as crianças a serem ativas e brincarem ao ar livre é um grande desafio. Além da luta desproporcional com o mundo digital, há outras barreiras significativas que contribuem para o dado de que elas passam 90% do seu tempo em lugares fechados: a insegurança dos espaços públicos, a agenda cheia de compromissos e atividades, a carência de espaços naturais acessíveis e a degradação dos que existem.

Tudo isso faz com que meninos e meninas tenham cada vez menos oportunidades de construir um repertório ligado à ação no mundo real, por meio de explorações e descobertas guiadas pelo corpo em movimento ou em contemplação. E sem esse repertório é muito difícil desenvolver mecanismos de autorregulação que modulem o uso da tecnologia e a conexão com o mundo natural de maneira saudável.

Numa análise sem nostalgia, mas olhando para o futuro, precisamos nos perguntar o que as crianças estão perdendo quando escolhem interagir com algum dispositivo eletrônico e deixam passar a rara oportunidade de brincar com o mundo real feito de água, peixes, plantas e areia.

Pedro Hartung, advogado e coordenador do programa Prioridade Absoluta, chamou de silêncio físico o fenômeno que testemunhamos diante de crianças e suas telas. Naquela tarde, à frente da água num gramado cheio de árvores, eu vi um menino cujo corpo estava presente, mas cuja experiência estava acontecendo em outro lugar, embora estivesse ao lado de seu pai, sua mãe e dos outros adultos e de crianças que compartilhavam aquele espaço natural com ele. 

O que podemos desfrutar do lado de fora não tem limites. Pode parecer exagero, mas não é. Claro que uma tela pode nos trazer muito mundo mas, não tenhamos dúvidas, a vida em uma tela não é a mesma vida que vibra numa onda do mar ou num rio em movimento. Desfrutar de algo é um acontecimento do corpo e, para que seja um encontro compartilhado socialmente, é preciso que todos estejam presentes de verdade.

Ainda estamos nos primórdios da era digital e temos o desafio de avaliar em profundidade quais são os reais impactos desse contexto em relação à infância. Estamos todos – pais, mães, responsáveis, educadores e profissionais da saúde – em busca de dados, evidências e pesquisas que nos deem pistas sobre como navegar nesse novo cenário.

Acredito que muitas estratégias podem contribuir para um equilíbrio no qual tanto o uso da tecnologia, quanto a conexão com o mundo natural prosperem de forma benéfica, contribuindo para o desenvolvimento e bem-estar das crianças. Há que se avaliar qual delas faz mais sentido em cada fase da infância: dosar o tempo, avaliar a qualidade do conteúdo, mediar ativamente o uso e, acima de tudo, fazer da tecnologia uma experiência compartilhada entre crianças e adultos, pais, mães e filhos, educadores e estudantes.

Ainda assim, é fundamental reconhecer que a natureza está perdendo espaço na vida das crianças e cada oportunidade de estar ao ar livre conta. Afinal, se lhes for dada a chance de escolher, a criança vai em busca do que lhe traz alegria, prazer e fruição. Precisamos dar a ela a chance de descobrir que há tudo isso na natureza também, porque nas telas ela já sabe que há.

Foto: Renata Ursaia

Maria Isabel Amando de Barros

Engenheira Florestal e mestre em Conservação de Ecossistemas pela ESALQ/USP, sempre trabalhou com educação e conservação da natureza. É cofundadora da OutwardBound Brasil e atuou na gestão e manejo de unidades de conservação na Fundação Florestal do Estado de São Paulo. Depois do nascimento da Raquel e do Beni passou a estudar a relação entre a infância e a natureza no mundo contemporâneo. Desde 2015, trabalha como pesquisadora do programa Criança e Natureza do Instituto Alana.

Um comentário em “Sobre natureza, telas e crianças

  • 25 de março de 2019 em 5:55 PM
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    Acredito que no se trata de filhos todo cuidado é pouco. Utilizo um excelente programa de monitoramento e acompanho em tempo real tudo o que os meus filhos estão fazendo na internet, este é o programa e é muito bom eu recomendo https://apinc.com.br

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