Sobre borboletas azuis e nossa (des)conexão com o mundo

crônica sobre borboletas azuis e nossa conexão com o mundo

Pare por alguns minutos. Deixe de lado qualquer coisa que esteja em suas mãos. Respire fundo. E tente olhar à sua volta. Repare no movimento das folhas das árvores. No formato das nuvens. No andar das pessoas na rua. No sorriso das crianças brincando. Se estiver chovendo, melhor ainda. Feche os olhos. Tente sentir o cheiro da terra molhada…

Há quanto tempo você não tem um momento assim? Não se sinta culpado. Nem diferente. Parece que há décadas, a humanidade toda vive em constante correria. É uma sensação de que, a cada dia, é preciso completar uma maratona. Acordar correndo, tomar café voando, deixar os filhos na escola, trabalhar enlouquecidamente e ufa, hora de dormir.

O que está acontecendo com nossa vida? Será que é para ser assim mesmo?! Perdemos toda nossa conexão com o que nos rodeia. Você sabe o nome dos seus vizinhos? Já parou para perguntar se o colega de trabalho precisa de ajuda? E a árvore da esquina, reparou que ela foi cortada?

O mais absurdo é pensar que nascemos totalmente conectados. Somos fruto de uma conexão entre dois seres vivos: um embrião nascido a partir da fecundação do óvulo por um espermatozóide. Durante nove meses, ficamos ligados ao ventre materno pelo cordão umbilical.

Mesmo que depois de virarmos “gente grande” acreditemos que somos independentes, continuamos conectados – a tudo e todos. O homem está intrinsecamente unido ao meio ambiente. Para sobreviver, depende de tudo o que a natureza lhe fornece: luz, água, alimentos, sombra, calor.

Mas, infelizmente, por um motivo ou outro, fomos perdendo nossa conexão com o planeta maravilhoso em que vivemos. E com os sinais que ele nos envia. Sim, recebemos mensagens a todo momento, mas parece que perdemos nossa sensibilidade e capacidade de enxergar além de nossas telas.

Todavia, em alguns momentos, sobretudo aqueles de perda e sofrimento, nossos receptores naturais são acionados novamente. É aí que entra a história das borboletas azuis.

Perdi minha mãe há pouco menos de um mês. Meu pai, com 87 anos, e depois de mais de 50 ao lado dela, escreveu uma linda carta. Nela, ele diz que “… conseguimos viver nosso sonho azul… foi difícil, mas conseguimos! … isso não é uma despedida, mas um até logo!”

Segundo meu pai, o sonho azul era um segredo entre os dois. Nós, os quatro filhos, nunca ouvimos nenhuma menção sobre ele. No cemitério, meu pai nos chamou para fazer uma prece em meio às árvores. Oramos e choramos juntos. Ele reafirmou seu amor por minha mãe. E de repente, ela estava lá. A borboleta azul! Voando, livremente, de um lado para o outro. Um sinal lindo, uma mensagem deste ou de outro mundo, de que tudo está bem.

Logo no dia seguinte, ao abrir meu celular, uma grande amiga, que não sabia nada sobre a história da borboleta azul, havia me enviado uma mensagem. Nela estava escrito “Não haverá borboletas, se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses”.

Na volta para casa (moro atualmente fora do Brasil), senti uma sensação de paz e tranquilidade. Tristeza, lógico, mas tranquilidade. Ao descer do avião, na imigração, um rapaz jovem inspecionou meu passaporte. Quis saber quanto tempo eu tinha ficado fora. Respondi que uma semana. Ele então me perguntou se havia sido uma boa semana. Respirei fundo e disse que não. Ele falou que sentia muito e questionou se eu estava com minha família. Contei a ele sobre o ocorrido. Para minha surpresa, ele fez nova pergunta, com um sorriso no rosto. “Sua mãe teve uma vida feliz?”. Respondi que sim, já com lágrimas nos olhos. “Então, isso é tudo o que importa”, disse ele.

Fiquei pensando o quão fechados estamos para o mundo atualmente. Nossos receptores estão bloqueados. Caso eu não estivesse passando por um momento de dor, talvez não tivesse visto a borboleta azul, nem percebido a generosidade e a consideração do rapaz da imigração, uma pessoa que eu nunca tinha visto antes na vida, um completo estranho.

Mas não estamos todos conectados? Não vivemos todos no mesmo planeta? Não somos todos feitos da mesma matéria? Será que só conseguimos perceber e enxergar o outro quando estamos sofrendo?

Não. Podemos fazer diferente. Podemos ser diferentes. Diminua o ritmo. Olhe no olho. Escute mais atentamente. Permita-se mais momentos de ócio. De ficar com o olhar perdido. De não fazer nada, somente, manter-se conectado. Ligue novamente os receptores para perceber os sinais e as mensagens que estão por aí – a todo momento, em todos os lugares. Porque sim, neste mundo, estamos todos conectados. E só seremos plenamente felizes quando percebermos isto e vivermos mais atentos ao que acontece à nossa volta.

Foto: domínio público/pixabay

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou em Zurique, na Suíça, de onde colaborou para diversas publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Info, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Atualmente vive em Londres.

3 comentários em “Sobre borboletas azuis e nossa (des)conexão com o mundo

  • 9 de Maio de 2017 em 5:46 PM
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    Tenho tentado viver assim, não é fácil, pois nossa tendencia hoje é deixar todos e tudo de lado e só viver pra si mesmo. Mas tudo se aprende nessa vida, então vou continuar tentando enxergar as coisas pelo seu lado mais simples e puro…

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  • 10 de Maio de 2017 em 10:41 AM
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    Olá Suzana, sinto arrepios. Eu estava a escrever sobre minhas intenções de promover territórios de conexão como projeto de vida profissional em um processo atual de metamorfose pessoal e encontro esse seu texto rolando a página do Facebook em uma pausa ociosa. rs Sim, todos conectados! Viva às borboletas em nós!

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    • 11 de Maio de 2017 em 4:11 AM
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      Obrigada pela mensagem, Talita! É só pararmos e prestarmos mais atenção ao redor para podermos sentir nossa conexão!
      Abraço,
      Suzana

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