Silvia Marcuzzo: inquietação em prol da sustentabilidade

Temporã de uma família tradicional, a gaúcha Silvia Marcuzzo teve que se impor para seguir um caminho diferente do traçado pela família e ganhar o mundo. Ao longo de sua carreira de jornalista e ambientalista, não se furtou de procurar autoconhecimento e mudar seu foco e modo de atuar. Hoje, é uma ativista em tempo integral, seja mobilizando na área de meio ambiente, com artigos em blogs e participação em eventos, seja como mobilizadora do Porto Alegre Inquieta, movimento coletivo para transformar positivamente a cidade, por meio, principalmente, da economia criativa. Também faz consultorias e cria atividades para a construção da sustentabilidade socioambiental.

Conheci Silvia, no início dos anos 2000, quando era coordenadora de comunicação da Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA), cargo que eu havia exercido alguns anos atrás. A organização, que engloba um conjunto de ONGs, era um superespaço de mobilização que, ao longo daquele tempo, centralizou a luta pela Lei da Mata Atlântica, sua regularização e criação de várias áreas protegidas no bioma.

Silvia é também uma grande amiga, com quem estou sempre aprendendo que a vontade de fazer não pode esmorecer, se reinventar é uma necessidade diária e não basta ser ativista da boca pra fora: é no cotidiano que nossas convicções aparecem e servem de inspiração. E, mais importante, o resultado pode ser incerto ou nem chegar, a busca é o importante.

De onde veio a inquietação que te levou a descobrir o ambientalismo e a atuar nessa área?

Saí de um ambiente muito conservador do interior do Rio Grande do Sul. Sou a temporã de seis filhos e meus pais queriam que eu fosse professora em Cachoeira, onde nasci. Fiz magistério, mas já naquela época fazia arte. Fui da primeira turma do ateliê livre de Cachoeira, toquei piano, cantei em coral e entrei na faculdade de Belas Artes na cidade. Gostava de música, artes visuais e cênicas. Mesmo assim, me sentia mal no interior, queria fazer outras coisas. Por isso, quis estudar em Porto Alegre. Meus pais acabaram concordando, mas disseram que eu deveria me virar, e foi o que fiz.

Quando comecei a trabalhar no jornal Correio do Povo, entrevistei pessoas que me fizeram enxergar melhor as coisas e logo vi que meu papel de jornalista não era simplesmente informar, mas apontar a lanterna para temas realmente relevantes. Inicialmente, cobria a área de polícia e percebi que aquela brutalidade não tinha nada a ver comigo, por isso tentei abrir espaço para desenvolver outras pautas. Saí do jornal para a editora LPM, onde transitei no mundo das letras, da elite cultural. Era repórter e produtora de projetos especiais. Em 1995, comecei a fazer o Manual do Ciclista de Porto Alegre, onde questões ligadas à sustentabilidade já apareciam, e a fazer trabalhos para a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Porto Alegre, a primeira secretaria municipal de meio ambiente do Brasil. Era um momento de efervescência.

Mas quis sair do país e, aos 26 anos, fui para a Europa estudar na International People’s College, uma escola internacional progressista na Dinamarca, que enfatiza a comunidade e ensina consciência e tolerância globais. Tinha colegas de 40 países diferentes. Queria desbravar mais o continente, pois tenho cidadania italiana, mas fiquei doente e tive que voltar antes.

Quando cheguei a Porto Alegre, trabalhei para vários projetos também ligados à sustentabilidade até que a Secretaria Estadual de Meio Ambiente do Rio Grande do Sul foi criada, em1999, e fui convidada para coordenar sua área de comunicação. Foi uma época de realizações.

Depois disso, você foi para Brasília, onde trabalhou para o governo e depois no terceiro setor. Como foi essa experiência?

Trabalhei um ano no Ibama durante o governo Lula, na Diretoria de Gestão Estratégica, onde participei da assessoria de imprensa da Conferência Nacional do Meio Ambiente. Só que a dinâmica de funcionamento do governo federal era bem diferente do governo estadual de Olívio Dutra, onde tinha atuado. Fiquei mais ou menos um ano no governo.

Depois disso, fui para a Rede de ONGs da Mata Atlântica, onde me encontrei. Sempre tive sangue de ativista que, para mim, significa querer melhorar o mundo. Na rede, conheci muita gente fazendo coisas para realmente mudar a situação, pessoas envolvidas com a causa. Trabalhando lá, tive meu filho Victor.

Mas voltamos para Porto Alegre. Foi muito difícil vivenciar a saída do meu marido, Luiz Felippe Kunz Júnior, da diretoria de licenciamento do Ibama por ter defendido o parecer dos técnicos contra a construção das usinas hidrelétricas de Girau e Santo Antônio. Foi frustrante.

Nesse momento, você diversificou sua atuação para outras áreas. Por que deu essa guinada?

Inicialmente, comecei a dar aulas de comunicação para a Associação de Preservação do Meio Ambiente da Vida (Apremavi), de Santa Catarina, e outras ONGs, além de participar de vários projetos, inclusive na Amazônia. Tinha uma atuação nacional, com base em Porto Alegre, mas me sentia muito sozinha e isolada.

Nessa época, percebi a necessidade de entender o funcionamento dos grupos, pois via como as pessoas têm dificuldade se se relacionar em grupo para gerar transformações. Entrei em uma pós-graduação na Sociedade Brasileira de Dinâmica de Grupos, na qual aprendi a compreender o comportamento humano sob diferentes pensadores. Também fiz o curso de fluxonomia, da Lala Deheinzelin, onde conheci muitas pessoas que sentiam o mesmo isolamento que eu em seus lugares de origem. Com ela, aprendemos que podemos fazer as coisas acontecerem onde estivermos.

Comecei a trabalhar com mediação de grupos e a me assumir como artista. Passei a fazer cerâmica para minha sustentabilidade. Transformei meu escritório em ateliê para fazer coisas em conjunto com outras pessoas. Fazia “bocas” de cerâmica para botar para fora o que estava sentindo e comecei a expor meu trabalho.

Como chegou ao ‘Porto Alegre Inquieta’? Conte sobre a iniciativa.

O POA Inquieta é um movimento que congrega pessoas que querem fazer a diferença e transformar a cidade, valorizar ideias de economia criativa. Foi criado em setembro de 2018 e, em outubro, fui convidada a conhecê-lo. Mas quando entrei vi que não se falava de sustentabilidade nem de qualidade de vida, estavam focados na área digital. Foi então que criei o POA Inquieta Sustentável. Já no primeiro encontro vieram mais de 60 pessoas e montamos vários grupos: resíduos, moda sustentável, plantio, feiras de produtos orgânicos e hortas. Hoje o coletivo é uma grande rede de pessoas que pensam diferente, mas que procuram trocar informações e saberes, focando no que é melhor para Porto Alegre. Não é fácil, mas esse é o exercício, pois a cidade está com a estima muito abalada. Muita gente quer ir embora por vários motivos, mas principalmente devido à violência.

Criamos, ainda, um grupo de mulheres, no qual trocamos muito e conseguimos realizar movimentos que têm me empoderado para fazer outras coisas que antes não tinha coragem, nem via possibilidade. Organizei um evento sobre moda sustentável, conectando pessoas que precisavam se conhecer: a Festa Feira Inquieta, onde quem tinha negócios sustentáveis expunha seus trabalhos, incluindo um flash de moda sustentável. Também expus meus colares de cerâmica. Ao tentar entender o que significa um polo carboquímico ao lado de Porto Alegre, percebi que a imprensa cobria o assunto sem levar em consideração as mudanças climáticas. Organizei um curso para jornalistas sobre o tema com a participação do Centro Polar e Climático e da Faculdade de Comunicação da UFRGS e foi um sucesso.

Atualmente, acredito que a única forma eficaz de engajamento é fazer com que as pessoas sejam parte do processo. Para ser ativista, tem que ser exemplo. No POA Inquieta consigo colocar isso em prática. A sociedade precisa de gente que ponha a mão na massa. Não é só saber, ler, tem que viver o processo.

O ativismo está presente em outros aspectos da sua vida?

Passei a me questionar sobre estar trabalhando com sustentabilidade sem me preocupar com a sustentabilidade da minha família. Assim, já ajudei a cuidar da avó do meu marido, da minha mãe, de uma tia, de um primo. Me tornei uma cuidadora da família. Em casa, ainda liquidificamos os resíduos orgânicos e os colocamos nos vasos, na horta.

Procuro, no trabalho e na vida, utilizar ferramentas e metodologias participativas para a construção de estratégias que gerem impacto positivo no mundo. Um exemplo é que fui síndica do meu edifício por três anos. Havia vizinhos que não se falavam há 20 anos. Criei espaços para as pessoas sentarem e conversaram e consegui mudar o clima no prédio. Pois o primeiro passo para a sustentabilidade é conseguir sentar para conversar, olho no olho.

Foto: arquivo pessoal

Edição: Mônica Nunes

Maura Campanili

Jornalista e geógrafa, foi repórter e editora de cidades e meio ambiente na Agência Estado e na revista Terra da Gente. Trabalhou em ONGs como a SOS Mata Atlântica, Instituto Socioambiental e Rede de ONGs da Mata Atlântica. É autora e editora de livros e publicações socioambientais e autora do blog ‘Paulistanasp’ no qual fala de temas que lhe são caros: meio ambiente, a metrópole paulistana, literatura e feminismo.

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