Sexta-feira alaranjada e ausente, com tomate marinado

receita de marinada de tomate

A sexta-feira tem aura. Tem cor alaranjada. Sempre cubro de nuance os dias da semana. Desde pequena eu percebia a semana assim: segunda, azul marinho; terça, amarelo; quarta, ocre, quinta, quase branco, sexta, alaranjado. Sabe aquela cor laranja, de pôr do sol? É porque é o mesmo que a semana se pondo. Vagarinho, alaranjado, quente ou frio. Alaranjado.

Sábado é vermelho. Domingo é azul de céu de inverno sem nuvem.

Então, falávamos sobre a sexta-feira.

O respiro. O vinho. A véspera do fim de semana. O cardápio varia. O vinho, sempre. Sempre, sempre tem vinho na sexta-feira.

Mas, faço o que com você, sexta-feira? Faço o quê se quem escolhe e abre o vinho não está?

E faço o quê com o tomate marinado, que a pessoa que abre o vinho, mas que não está aqui, tanto gosta?

Sabia, sexta-feira, que desde ontem, quinta, quase branca, eu já preparava o tomate vermelho e marinado no azeite dourado para a sua noite?

Leva um tempo este preparo.

Os tomates, os holandeses, vermelhinhos, maduros, firmes que escolhi um a um no mercadão.

Sim, aquela mesma cena de sempre na banca de frutas e legumes. Escolho 12 tomates. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 10, 11…. e… demoro um tempão pra encontrar o último e perfeito tomate para ser o décimo segundo. Recuso vários, devolvo ao cesto. (Preciso levar isto pra uma terapia.) Por que demoro tanto pra escolher o último? Tomate, batata, pera? 12 tomates? Todos aceitos, menos o último. 9 batatas? Até a oitava, rapidinho. A nona, meu Deus!. 5 peras? O mesmo… Mais fácil achar as quatro anteriores. Sempre, o último é o mais difícil de se encontrar perfeito ou como a gente quer…

Mas, depois do dilema tamanho, encontro o décimo segundo tomatinho ideal para a marinada.

Chego em casa na tarde da quinta branca.

Água na panela. Acendo o fogo. Pego os tomates, lavo com capricho. Faço uma cruz pequenina no fundo de cada um – uma leve incisão, só marcando a cruz, sem rasgar a polpa – e os coloco na água fervente. Acompanho o curto tempo – 20 a 30 segundos – até que a pele se abra. Retiro rápido da fervura, jogo os tomates quentes na vasilha ao lado, já cheia de água com gelo para interromper o cozimento. No ponto. Retiro da água. Ainda firmes, depelo cada um. Lindos, brilhantes.

Eles aguardam enquanto preparo a marinada.

Azeite dourado. Derramo o conteúdo de duas garrafas inteiras numa panela de fundo grosso. Uma colher (chá) de açúcar mascavo. Marrom. Um punhado de sal. Branquinho. Folhas de um maço pequeno de manjericão. Verde, fresco. Dois dentes de alho amassados na lâmina da faca. Cor de alho amassado.

Aqueço o azeite por 7 minutinhos (é só aquecer, sem fritar os ingredientes ) e os aromas de tudo isto são liberados Enchem a cozinha.

Desligo o fogo. Espero esfriar.

E mergulho os tomates pelados em todo este sabor.

Eles ficaram lá, desde ontem, quinta branca. Dormiram na noite, na madrugada, ficaram incorporando aquilo tudo de sabor. Uma noite e um dia inteiros.

Já no final do seu dia, sexta-feira alaranjada, retiro os tomates da marinada. Coo o azeite. O que sobra na peneira – as folhas do manjericão, o alho, o açúcar, o sal – transfiro para um pilão. Macero. Misturo a uma porção do próprio azeite perfumado. O restante do azeite, guardo. (Tenho um azeite delicioso para meus temperos por algum tempo.)

Sabe, sexta-feira alaranjada, este era o cardápio previsto: montar um prato com o tomate marinado, uma linda mussarela de búfala, folhas de rúcula. Derramar o azeite com os ingredientes macerados e perfumados sobre esta variação da salada caprese. O tomate mais úmido, mais saboroso.

Serviria com pão italiano. Fiz isto também. Fermentação natural. Acrescentaria à mesa jamon serrano, parmesão. Tudo combina…

Ah, mas tem a ausência… uma breve ausência justo hoje.

Eu serviria um prato lindo assim, colorido pra ele. Os talheres iriam tilintar. As taças de vinho também. Rasgaria o pão. Seria saboroso. Tudo saboroso.

Mas, há a ausência.

Preparo o meu prato.

Tomo minha taça de vinho.

Como meu naco de pão.

Leio um livro.

Ouço uma música.

Sozinha.

Guardo uns tomatinhos na marinada. Eles ficam bem em conserva, assim, por mais um tempinho.

Ele chega amanhã, no sábado vermelho. E abrirá um vinho.

Então, amanhã, será o mesmo cardápio de hoje. Tomate vermelho, sábado vermelho.

Sem ausência.

*Harmoniza com vinho tinto. A música pra este momento de amor perene e ausência breve é “Primavera”, de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, na interpretação de Paula Morelenbaum

 

RECEITA DE MARINADA DE TOMATE

INGREDIENTES

10 a 12 tomates (maduros e firmes. Sugiro o holandês ou o italiano)
1 litro de azeite extra virgem
1 colher (chá) de açúcar mascavo
1 colher (chá) sal
1 maço pequeno de manjericão

Para montar a salada
mussarela de búfala
rúcula

Acompanhamento opcional
presunto serrano
parmesão
pão italiano

Foto: domínio público/pixabay

Mulher de marido, mãe de filho, madrasta de enteados. Começou a carreira profissional vendendo pinga e pão com mortadela na venda dos pais, em Minas. Foi bancária, revisora de jornal, rádio escuta, repórter, editora e apresentadora de TV. Hoje é especializada em media training, com foco para entrevistas em TV e vídeo. Fez jornalismo na PUCCAMP, pós graduação em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas na USP e Análise do Discurso na PUC SP. Tudo isto sem tirar o pé da cozinha

Cássia Miguel

Mulher de marido, mãe de filho, madrasta de enteados. Começou a carreira profissional vendendo pinga e pão com mortadela na venda dos pais, em Minas. Foi bancária, revisora de jornal, rádio escuta, repórter, editora e apresentadora de TV. Hoje é especializada em media training, com foco para entrevistas em TV e vídeo. Fez jornalismo na PUCCAMP, pós graduação em Gestão Estratégica em Comunicação Organizacional e Relações Públicas na USP e Análise do Discurso na PUC SP. Tudo isto sem tirar o pé da cozinha

Deixe uma resposta