Será que a cerveja que você está bebendo tem agrotóxico? Provavelmente sim!

Será que a cerveja que você está bebendo tem agrotóxico? Provavelmente sim!

Carnaval, calor e nada melhor para acompanhar do que aquela cerveja gelada, certo? Melhor ainda, se ela não tiver resíduos de agrotóxico

“Como assim? Agrotóxico? Ele não é usado apenas no cultivo de verduras, frutas, legumes e hortaliças?”, você deve estar se perguntando.

Parece que não. Uma pesquisa realizada, nos Estados Unidos, com amostras de cervejas e vinhos revelou que praticamente todas elas apresentam resíduos de glifosato. Em um relatório publicado em 2015, a Organização Mundial de Saúde (OMS) afirmou que o glifosato pode provocar câncer em animais tratados em laboratório e é um potencial causador de alterações na estrutura do DNA e cromossomos das células humanas.

O estudo feito pelo United States Public Interest Research Group avaliou 20 marcas de cervejas e vinhos. Em 19 delas, havia vestígios do pesticida. A análise demonstrou ainda que até algumas bebidas orgânicas estavam contaminadas com glifosato (o uso do herbicida é proibido em lavouras orgânicas).

“A substância pode ser um risco para a saúde humana e as pessoas devem saber que o glifosato está em todo lugar, inclusive na bebida favorita delas”, alerta Kara Cook-Schultz, autora da pesquisa.

A presença do agrotóxico foi constatada em marcas populares de cerveja, vendidas também no Brasil, como Corona, Stella Artois e Budweiser.

Marcas com vestígios de glifosato

Vinhos
Sutter Home Merlot: 51.4 ppb
Beringer Founders Estates Moscato: 42.6 ppb
Barefoot Cabernet Sauvignon: 36.3 ppb
Inkarri Malbec, Certified Organic: 5.3 ppb
Frey Organic Natural White: 4.8 ppb

Cervejas
Tsingtao Beer: 49.7 ppb
Coors Light: 31.1 ppb
Miller Lite: 29.8 ppb
Budweiser: 27.0 ppb
Corona Extra: 25.1 ppb
Heineken: 20.9 ppb
Guinness Draught: 20.3 ppb
Stella Artois: 18.7 ppb
Ace Perry Hard Cider: 14.5 ppb
Sierra Nevada Pale Ale: 11.8 ppb
New Belgium Fat Tire Amber Ale: 11.2 ppb
Sam Adams New England IPA: 11.0 ppb
Stella Artois Cidre: 9.1 ppb
Samuel Smith’s Organic Lager: 5.7 ppb

*ppb = partes por bilhão

Todavia, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA, na sigla em inglês) considera os números acima aceitáveis. Vale lembrar, que sob a administração do presidente Donald Trump, o órgão está bem mais leniente na aprovação do uso de agrotóxicos (no ano passado, permitiu a pulverização de uma substância que a EPA mesma considerava altamente tóxica em uma área de 6 milhões de hectares, o que revoltou organizações ambientalistas).

“Embora esses níveis de glifosato estejam abaixo das tolerâncias de risco da EPA para bebidas, é possível que mesmo níveis baixos do pesticida possam ser problemáticos. Por exemplo, em um estudo, cientistas descobriram que 1 parte por trilhão dele tem o potencial de estimular o crescimento de células de câncer de mama e perturbar o sistema endócrino”, afirma a pesquisa.

Este não foi o primeiro estudo internacional que verificou a existência de glifosato em bebidas. Em 2016, na Alemanha, uma análise com amostras de cerveja também revelaram a presença do herbicida.

Glifosato no Brasil e no mundo

Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou que o “glifosato continuará a ser permitido no país, já que não há evidências científicas de que ele cause câncer, mutações ou má formação em fetos”. Desde 2008, a reavaliação toxicológica da substância era analisada.

O glifosato é o principal ingrediente ativo de diversos agrotóxicos e o mais utilizado no mundo todo. Registrado em 130 países, tem seu uso aprovado para mais de 100 cultivos diferentes. No Brasil, a quantidade considerada aceitável na lavoura é 5 mil vezes maior do que na Europa, conforme relatamos aqui, nesta outra reportagem sobre agrotóxicos no país.

Uso do herbicida só cresce ano a ano

No ano passado, em uma decisão histórica, um juiz da Califórnia condenou a Monsanto, gigante multinacional fabricante de pesticidas, transgênicos e sementes. A empresa teve que pagar uma indenização de US$289 milhões ao jardineiro californiano DeWayne Johnson, de 46 anos, diagnosticado com um câncer terminal, em consequência da exposição constante ao RoundUp, a base de glifosato, Roundup, que ele aplicava nos jardins das escolas onde trabalhava.

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Imagens: domínio público/pixabay (abertura) e reprodução estudo (gráfico)

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Um comentário em “Será que a cerveja que você está bebendo tem agrotóxico? Provavelmente sim!

  • 12 de março de 2019 em 4:38 PM
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    Eu tenho alergia ao Glifosato (bem, na verdade, é mais complicado, e o glifosato é um dos gatilhos ambientais que ativam a MCAS, doença genética que tenho, mas resumir como alergia é mais simples). Por isso, a existência de glifosato nas cervejas e nos vinhos (o problema com vinhos é MUITO maior que com as cervejas) não é novidade para mim. Para quem quiser saber de marcas que não tem, ou que, ao menos têm tão pouco glifosato que são seguras para que eu utilize (um teste biológico, por assim dizer) são seguras as cervejas da Baden Baden, Petra, Xingu, Trawer, Pedra Grande e Três Lobos, das que já experimentei.

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