Será mesmo só uma festa de aniversário?

festa de aniversário

O que precisa ter em uma festa de aniversário?

Fiz esta pergunta para a minha filha Alícia semanas antes do seu aniversário, e ela me respondeu assim: “quero convidar minhas amigas para brincarem comigo, quero que esteja o papai, a mamãe e a Lia, e quero que tenha bolo e brigadeiro”.

Aos olhos da criança, o que importa mesmo é o essencial. Não importa o tamanho da decoração, se vai ter ou não um animador, ou se ela vai dar alguma lembrança para os convidados da festa. O relevante é a presença da família, o tempo para brincar com os amigos e amigas e o desejo de celebrar a vida e fortalecer ligações afetivas, representadas pelo ritual do parabéns com bolo e brigadeiro, onde ela se sente homenageada, amada e parte de uma comunidade.

E é na natureza que todos esses desejos dela melhor se revelam e se realizam.

Optamos por fazer sua festa de aniversário de seis anos no Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Alícia escolheu cinco amigos para convidar e estendemos o convite às famílias das crianças para acamparem conosco.

Amigos da escola, em geral, são aqueles que as crianças escolhem e, muitas vezes, não temos intimidade com os pais. Sabia que era um convite ousado mas, surpreendentemente, a adesão foi total.

O formato do acampamento era similar ao de uma comunidade indígena. As barracas alinhadas em círculo formaram um ambiente acolhedor e íntimo. À noite, sob um céu repleto de estrelas, sentamos todos no chão e batemos papo.

Todos desconectados das telas, sem distrações externas, e dispostos a conviver uns com os outros. Todos simplesmente presentes. Esse ambiente mágico, vivo e natural, propiciou qualidade na troca das relações entre os adultos.

As crianças brincaram ininterruptamente, entre elas. O ambiente natural fazia a vez do animador: corpos em movimento, sorrisos nos rostos, exploração e senso de liberdade – sensações sinônimas de uma infância feliz.

Os elementos naturais eram um convite a exercitar o desejo de criar e reinventar brinquedos e brincadeiras que, mesmo com a diferença de idade das crianças, garantiram um repertório farto de interação.

O sol da manhã convidou a todos para nadarem no rio. As crianças, com o seu senso natural de afiliação à natureza, já se lançaram logo em direção à água. Só paravam de brincar ou nadar por forças externas, ora pelo medo, ora pelo controle dos pais ansiando por mais segurança. Os adultos, com menos intimidade com o mundo natural, apesar de receosos em entrar na água gelada, saíram renovados do banho de rio.

Acampar com as famílias foi também uma oportunidade de trabalhar a dimensão do coletivo e da cooperação. Todos, juntos, nos colocamos a serviço de algo que foi partilhado na festa. Cada família levou algo para comer e beber e as refeições foram compartilhadas. Se alguém esqueceu algo, ou faltou algum alimento, havia sempre alguém que tinha para oferecer.

E a chegada da hora do bolo, de acender a vela e cantar parabéns, é um momento mágico que (re)une o grupo de adultos e crianças. A mesa estava decorada com enfeites simples, preparados nos dias que antecederam a festa, com arte, materiais naturais e beleza, por um fazer coletivo e de coesão familiar. O parabéns foi cantado com sorrisos nos olhos, expressão genuína de alegria e de conexão com a vida.

No dia seguinte, recebi a mensagem de uma das mães, que quis compartilhar o sentimento de que acampar na natureza no aniversário da Alícia foi uma experiência incrível, não só para a filha dela, mas para toda sua família. A falta de conexão com a internet permitiu que seu marido se conectasse com o ambiente ao redor de uma forma inusitada. Ele fotografou detalhes das plantas e de seres pequenos, revelando um olhar profundo para o seu entorno que nem ele próprio sabia que tinha.

Ela refletiu sobre sua gestão de tempo e prioridade durante a semana prévia ao acampamento, que impactou seu planejamento. Foi interessante se ver em uma situação na qual precisou lidar com a sua desorganização pedindo ajuda para outras pessoas emprestarem coisas que ela havia esquecido de levar.

E, por fim, como ela se surpreendeu com a autonomia de sua filha, subindo e descendo pedras, se sujando, e com o sentimento reconfortante de ver a filha tão feliz.

Acampar em família para comemorar o aniversário das crianças é uma experiência transformadora, não só para as crianças, mas para os adultos também. São momentos que ressignificam os nossos valores, que a nossa memória registra e certamente não esquece.

Fotos: arquivo pessoal

Laís Fleury é diretora do projeto “Criança e Natureza”, do Instituto Alana, fundadora da Associação Vaga Lume e empreendedora social reconhecida pela Ashoka Empreendedores Sociais.

Laís Fleury

Laís Fleury é diretora do projeto “Criança e Natureza”, do Instituto Alana, fundadora da Associação Vaga Lume e empreendedora social reconhecida pela Ashoka Empreendedores Sociais.

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