Selfies com tigres podem financiar o tráfico de animais

Tigres mantidos em cativeiro são vítimas de um turismo irresponsável na Tailândia. Esses felinos ameaçados de extinção são criados e usados para entreter viajantes e alavancar os lucros de estabelecimentos que oferecem atrações com a vida silvestre, agências de viagens, e até o tráfico de animais.

O Tiger Temple, um monastério conhecido formalmente como Wat Pa Luangta Bua Yannasampanno, uma das mais conhecidas empresas da Tailândia que oferecia entretenimento envolvendo interação direta com tigres – com direito a abraços e selfies – foi fechada pelo Departamento Nacional de Parques do país após denúncias de reprodução ilegal e tráfico de tigres. O fato ocorreu em 2016, mas é importante para entender os acontecimentos do mês passado: no dia 3 de fevereiro, a empresa mudou o nome para Golden Tiger e planeja abrir outra atração com uso de tigres para entretenimento.

Além da mudança de nome, que parece ter a intenção de distanciar o novo empreendimento dos escândalos envolvendo o Tiger Temple, a Golden Tiger está construindo recintos ao lado do antigo monastério, faz negociações para adquirir tigres com outros estabelecimentos e conseguiu uma licença provisória, que foi transferida do Tiger Temple, para atuar como zoológico. Para obter a licença plena é preciso atender a algumas condições especificadas pelo governo tailandês (fornecer recintos considerados grandes o suficiente para tigres, tratamento veterinário, entre outros) nos próximos seis meses.

Se todas as condições forem cumpridas, não existe nada que impeça a Golden Tiger de iniciar um programa de reprodução de tigres em cativeiro e oferecer atrações que envolvam interação com os animais. Na prática, o Tiger Temple só mudaria de nome e de endereço, mas continuaria a exercer as mesmas atividades relacionadas com o tráfico de animais que fecharam o estabelecimento anterior. Para tentar combater o problema, a Proteção Animal Mundial (World Animal Protection – WAP) lançou campanha Ajude a barrar o “novo Templo do Tigre”. Segundo a assessoria de imprensa da Ong, a petição conta com mais de 100 mil assinaturas.

Fui guia de ecoturismo no Pantanal e na Amazônia, fiz safáris fotográficos na África e em Galápagos e posso afirmar que a experiência de ver animais selvagens em seu habitat natural é muito mais enriquecedora do que tirar uma foto abraçada com um bicho em cativeiro. Consigo sentir a tristeza nos olhos de animais enjaulados. Muito mais triste é saber que essa prática pode servir para alimentar o tráfico de animais.

As autoridades tailandesas precisam barrar a abertura do zoológico da Golden Tiger para ajudar o maior felino do mundo na luta contra a extinção. E, se você realmente gosta de tigres, não visite estabelecimentos que oferecem a possibilidade de selfies com eles.

O problema dos estabelecimentos que oferecem selfies com tigres

Entre março de 2015 e junho de 2016, pesquisadores da Proteção Animal Mundial visitaram anonimamente 17 das maiores atrações com tigres na Tailândia e produziram o relatório Expondo as selfies com tigres: um retrato da indústria do entretenimento na Tailândia. Eles descobriram que, dos 1500 tigres em cativeiro observados, 830 são utilizados na indústria do entretenimento (um aumento de 33% nos últimos cinco anos) e que 88% desses felinos vivem em condições miseráveis.

Segundo o relatório, 13 dos estabelecimentos permitiam que turistas se aproximassem para tirar selfies, 12 deles incentivavam os visitantes a essa prática com filhotes de tigres separados de suas mães no início de suas vidas, três atrações permitiam que os visitantes alimentassem tigres adultos, dois zoológicos ofereciam apresentações do tipo circense com esses animais e todos os 17 pontos turísticos visitados ofereciam atividades que exigiam que os tigres agissem contra seu instinto natural (saltando aros em chamas, por exemplo), causando angústia e estresse nos animais.

Tigres mantidos em cativeiro são acorrentados para que turistas possam posar em fotos em sua companhia,
no Phuket Zoo, Tailândia / Foto: Proteção Animal Mundial

Eis os principais problemas encontrados nos estabelecimentos visitados:

  • Separação dos filhotes de suas mães, duas a três semanas após o nascimento. Os pequenos passam a ser alimentados por mamadeiras oferecidas por turistas. É provável que a separação prematura sirva a um segundo propósito: permitir que os estabelecimentos obtenham ninhadas com maior frequência;
  • Apresentação de filhotes, vistos e manuseados de forma incorreta centenas de vezes ao dia por turistas e funcionários, o que pode levar ao estresse e lesões;
  • Punição por meio da dor e do medo para impedir comportamentos indesejados ou agressivos. A fome também é usada com a mesma finalidade;
  • Recintos impróprios, como jaulas de concreto pequenas ou locais áridos, com acesso limitado à água potável. 50% dos tigres observados estavam em gaiolas com menos de 20 m² por animal, metragem muito distante dos 16 a 32 quilômetros de que eles necessitam para caminhar em uma única noite na natureza;
  • 12% dos tigres observados mostraram problemas de comportamento, tais como andar de um lado para o outro repetitivamente ou morder a própria cauda. Estes comportamentos ocorrem frequentemente somente quando os animais estão em ambientes ou situações estressantes; nunca foram registrados em animais que vivem na natureza.

Investigações no Tiger Temple

Outro grave problema é a possível associação da indústrias de entretenimento com o tráfico de animais. Oficiais do governo da Tailândia encontraram carcaças de 60 filhotes mortos conservados em congeladores e frascos de formaldeído, peles e cerca de 1.500 amuletos feitos de ossos e dentes de tigres, além de outros produtos de animais selvagens no Tiger Temple.

Os administradores do local também fracassaram em prestar contas sobre o desaparecimento de três tigres registrados pelo governo. Em junho de 2016, todos os 147 tigres do Tiger Temple foram apreendidos pelas autoridades tailandesas e o estabelecimento está sendo acusado de ter ligações com o tráfico de partes do corpo de tigres.

De acordo com nota da National Geographic, vinte e duas pessoas foram citadas em queixas legais relacionadas à posse ilegal de tigres, filhotes mortos, ursos-negros-asiáticos, calaus e outras espécies ameaçadas de extinção. Nenhum nome foi tornado público. Quatro dos citados (sendo dois monges), foram presos em junho de 2016 enquanto saíam do templo com um caminhão carregado de contrabando de tigres. Exatamente onde os casos abertos estão, é impossível verificar. Mesmo com as investigações em curso, alguns detalhes devem ser retidos até serem apresentados perante um juiz.

Por enquanto, não há provas de que os outros estabelecimentos citados no relatório estejam envolvidos com o comércio ilegal de tigres ou de suas partes. Mas a pesquisa mostra que há discrepâncias significativas entre o número de tigres declarados por alguns estabelecimentos e os observados no local. O que levanta sérias desconfianças, especialmente sobre a criação acelerada de tigres em cativeiro, uma prática aparentemente comum e sem benefício à preservação da espécie.

Turista tira foto com um filhote no antigo Templo do Tigre / Foto: Proteção Animal Mundial

“Os estabelecimentos de reprodução de tigres não têm nada a ver com conservação – só proporcionam sofrimento extremo para esses animais silvestres, que são forçados a viver em condições deploráveis. Essas atrações turísticas precisam ser impedidas, porque têm relação direta com o tráfico desses animais”, afirma Jan Schmidt-Burbach, consultor sênior em veterinária e vida silvestre da Proteção Animal Mundial no site da Ong, e completa “”Turistas precisam se conscientizar de que aquela chance única de ficar perto de um tigre causa uma vida inteira de sofrimento. Tirar uma selfie com um tigre é cruel, não façam isso.”

Fotos: Proteção Animal Mundial/Divulgação

Fábio Paschoal

Apaixonado por animais desde criança, logo decidiu estudar Biologia, formando-se pela USP em 2005. É técnico em turismo e trabalhou como guia a partir de 2008, tendo conduzido, por três anos, passeios de ecoturismo no Pantanal e na Amazônia. De 2011 até 2016, foi repórter e editor do site da revista National Geographic Brasil, onde nasceu o blog Curiosidade Animal (desde dezembro de 2016, aqui, no Conexão Planeta).

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