Salgueiro homenageia determinação e persistência do primeiro palhaço negro do Brasil

Benjamin de Oliveira nasceu em 1870 em Pará de Minas, Minas Gerais. Só ganhou a alforria alguns anos mais tarde, já que a mãe era considerada “escrava de estimação”. Aos 12 anos, fugiu de casa e se juntou a trupe do circo Sotero e passou a trabalhar como trapezista e acrobata. Daí em diante, sua vida foi dedicada ao mundo circense, ao teatro e à música, mesmo enfrentando muito preconceito e discriminação. E é essa história que o Salgueiro levou para a Sapucaí nesse carnaval.

Com o enredo “O Rei Negro do Picadeiro”, a escola de samba carioca fez um tributo a Benjamin, o primeiro palhaço negro do Brasil e também, a todos os artistas negros do país.

Salgueiro homenageia determinação e persistência do primeiro palhaço negro do Brasil

Na Comissão de Frente, Benjamin de Oliveira aparece menino,
encantado com a vida circense

O Salgueiro transformou a Marquês de Sapucaí em um gigantesco picadeiro. E aos poucos, os componentes da escola foram contando a incrível trajetória de Oliveira – artista, cantor, compositor, ator e palhaço.

Salgueiro homenageia determinação e persistência do primeiro palhaço negro do Brasil

Pouco conhecido pela grande maioria dos brasileiros, Benjamin ganhou uma biografia Circo Teatro: Benjamin de Oliveira e a Teatralidade Circense no Brasil, de Ermínia Silva, e já tinha sido tema de outra agremiação do carnaval carioca, a São Clemente, em 2009.

Entre as diversas peças que escreveu, destaque para O Diabo e o ChicoVingança OperáriaMatutos na Cidade e A Noiva do Sargento.

Salgueiro homenageia determinação e persistência do primeiro palhaço negro do Brasil

“Eu estava em busca de um enredo que fosse realmente emocionante, um enredo que tocasse. E fazendo uma pesquisa sobre o Rei Momo esbarrei com Benjamim de Oliveira, pesquisando sobre a obra Guarani, também esbarrei no Benjamim de Oliveira. E parecia que uma voz me disse assim ‘porque você não faz Benjamim de Oliveira?’, e aí eu comecei a pesquisar, procurar data de nascimento e morte”, contou Alex de Souza, carnavalesco da Salgueiro.

“A coincidência foi que ele completará, em 2020, 150 anos. Uma história de vida que foi um grande exemplo para todas as pessoas, um grande gênio. Quando se fala em Benjamim de Oliveira naturalmente se fala em ser o primeiro palhaço negro do Brasil, só que acho que isso é pouco diante de tudo que ele foi capaz de fazer”, acrescentou.

O ator Aílton Graça interpretou Benjamin adulto no desfile

Confira abaixo a letra completa do samba enredo O Rei Negro do Picadeiro:

Olha nós aí de novo
Pra sambar no picadeiro
Arma o circo, chama o povo, Salgueiro
Aqui o negro não sai de cartaz
Se entregar, jamais

Olha nós aí de novo
Pra sambar no picadeiro
Arma o circo, chama o povo, Salgueiro
Aqui o negro não sai de cartaz
Se entregar, jamais

Na corda bamba da vida me criei
Mas qual o negro não sonhou com liberdade?
Tantas vezes perdido, me encontrei
Do meu trapézio saltei num voo pra felicidade
Quando num breque, mambembe moleque

Beijo o picadeiro da ilusão
Um novo norte, lançado à sorte
Na companhia do luar
Feito sambista
Alma de artista que vai onde o povo está

E vou estar com o peito repleto de amor
Eis a lição desse nobre palhaço
Quando cair, no talento, saber levantar
Fazer sorrir quando a tinta insiste em manchar

E vou estar com o peito repleto de amor
Eis a lição desse nobre palhaço
Quando cair, no talento, saber levantar
Fazer sorrir quando a tinta insiste em manchar

O rosto retinto exposto
Reflete no espelho
Na cara da gente um nariz vermelho
Num circo sem lona, sem rumo, sem par
Mas se todo show tem que continuar (bravo!)

Bravo
Há esperança entre sinais e trampolins
E a certeza que milhões de Benjamins
Estão no palco sob as luzes da ribalta
Salta, menino

A luta me fez majestade
Na pele, o tom da coragem
Pro que está por vir
Sorrir é resistir

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Fotos: Riotur/Fotos Públicas (Raphael David, Gabriel Nascimento, Fernando Grilli | Riotur

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

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