Sacolas plásticas transformam-se em tecido pelas mãos de designers egípcias

Mariam Hazem e Hend Riad viveram o auge da primavera árabe. A onda de protestos e manifestações tomou conta de diversos países do Oriente Médio em meados de 2011. Entre eles, estava o Egito, onde a população clamava pela troca de governo. As jovens egípcias queriam, de alguma maneira, também ser parte do grande movimento de mudança em seu país. Escolheram então fazer algo na área em que atuavam. Com formação em Ciências Aplicadas e Artes, com especialização em design de produto, as amigas decidiram focar em sustentabilidade ao tentar dar uma solução a um enorme problema ambiental por lá (e no mundo todo): o descarte de sacolas plásticas.

A ideia nasceu no último semestre da universidade. No projeto de conclusão de curso, Hend e Maria desenvolveram um processo em que transformam o plástico das sacolas em fios e a partir destes, utilizando a velha tradição de tecelagem do Egito, criam incríveis produtos. “Estávamos muito animadas e ansiosas por fazer a diferença. A responsabilidade em relação à nossa sociedade e ao meio ambiente nos deu a motivação para resolver um dos maiores problemas no Egito: o desperdício”, contaram as duas em entrevista ao Conexão Planeta. “Começamos a tratar os resíduos plásticos como matéria-prima e assim reverter seu impacto negativo em algo positivo”.

O produto criado pelas designers egípcias chama-se “Plastex”. Em 2013, elas inauguraram então o Reform Studio  e desde lá, já usaram mais de 100 mil sacolas plásticas e as transformaram em jogos americanos, sacolas, bolsas e acabamentos de móveis, como assentos e encostos para cadeiras e banquetas, por exemplo.

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Mariam e Hend, ambas atualmente com 25 anos, revelam, entretanto, que não foi fácil chegar até aqui. “Foi muito difícil convencer artesões em ateliês de tecelagem a experimentar algo novo, que eles não estavam acostumados”, contam. As empreendedoras não queriam somente dar um novo destino ao plástico, mas também tinham outro objetivo bastante desafiador: reviver a indústria da tecelagem no país. “Nunca imaginamos que a arte de tecer tinha atingido um estágio tão ruim. Encontrar ateliês que ainda mantinham a tradição antiga foi uma das barreiras que enfrentamos”.

Com a automação da indústria de tecidos, muito foi perdido. O que era tecido à mão, primorosamente no passado, hoje é feito por máquinas. A intenção do Reform Studio então é gerar valor através do uso de uma técnica antiga e tradicional egípcia aliada a um novo conceito de design.

Atualmente uma equipe de doze pessoas trabalha com Mariam e Hend. Tudo é produzido localmente no Cairo. Os produtos são vendidos no Egito, mas começam a ganhar atenção em outros países. Já podem ser encontrados, por exemplo, em uma loja em Londres. Também é possível comprá-los online e a empresa os envia para qualquer parte do mundo. Ajudou também na repercussão internacional os vários prêmios internacionais recebidos até agora pela Reform Studio, entre eles, o Cartier Women’s Initiative Award, na França, e o Silve A’ Design, na Itália.

Além de coloridos e contemporâneos, os objetos concebidos pelas designers levam na etiqueta um charme a mais. Nela está escrito “This product used to be a plastic bag” (Este produto era uma sacola plástica, em inglês). “A intenção do Plastex é prolongar o ciclo de vida da sacola plástica, que geralmente é utilizada por uma média de apenas 12 minutos para muitos anos”, afirma a dupla.

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Sacolas plásticas têm um imenso impacto ambiental no meio ambiente. Antes de iniciarem seu projeto final na universidade, Hend e Mariam fizeram uma profunda pesquisa sobre elas. Descobriram, por exemplo, que as sacolas de plástico são o segundo tipo de resíduo mais comum no Egito. Que a cada minuto, 2 milhões de sacolas são distribuídas gratuitamente a alguém no planeta. Que reciclar uma delas custa mais caro do que fabricar uma. Que globalmente, 4 bilhões de sacolas plásticas vão parar no lixo por ano. E que ao demorar milhares de anos para se decomporem, elas poluem rios, solo e causam a morte de animais.

E como as fundadoras do Reform Studio se sentem ao olhar as antigas sacolas plásticas transformadas em lindos, úteis e duráveis produtos? “Orgulhosas e felizes de ver o resultado concreto de nosso sonho com um grande e positivo impacto ambiental e social”.

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Hend e Mariam, fundadoras do Reform Studio

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Artesão tecendo os fios de plástico

tecido feito com sacolas plásticas

Colorido, resistente e funcional

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Os fios de plásticos são trançados e dão origem aos mais diversos objetos


Fotos: divulgação Reform Studio

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

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