Sabe aquela nevasca em Nova York? Põe na conta do aquecimento global

Sabe aquela nevasca em Nova York? Põe na conta do aquecimento global

Donald Trump não deixa escapar nenhuma oportunidade. Basta uma nevasca mais forte em Nova York ou uma onda de frio mais intensa em Washington no inverno americano para o presidente correr para o Twitter e fazer a pergunta de sempre: “Cadê o aquecimento global?” Um estudo publicado nesta semana sugere uma resposta ao tuiteiro-em-chefe: está logo ali em cima. No Ártico.

Um trio de pesquisadores americanos afirma que a série de tempestades de inverno que têm se abatido sobre a Costa Leste dos Estados Unidos nos últimos anos, com recordes de acúmulo de neve e apelidos como “snowzilla” e “snowmageddon” (trocadilhos com a palavra “snow”, ou “neve”, em inglês, e alegorias como Armagedom e Godzilla), pode ter relação direta com o aquecimento anormal da região ao redor do polo Norte.

Uma ampla análise de dados dos últimos 65 anos permitiu aos pesquisadores relacionar as temperaturas cada vez mais quentes do Ártico – até 10°C acima da média no inverno – ao aumento da intensidade do frio em partes dos EUA. “As mudanças climáticas estão levando as baixas temperaturas do Polo Norte para regiões temperadas. É um fenômeno anunciado, severo e perigoso”, disse Jennifer A. Francis, física atmosférica da Universidade Rutgers e uma das autoras do estudo. O trabalho foi publicado no periódico Nature Communications.

Em janeiro de 2018, a extensão da camada de gelo no Ártico foi a menor das últimas décadas, com porções derretendo antes do final do inverno. Simultaneamente, a cidade de Boston registrou a temperatura mais fria do último século, assim como Minneapolis, Chicago e Detroit. Nevou em Roma este ano e algumas cidades da Ásia registraram as menores temperaturas dos últimos cem anos.

Há alguns anos, Francis publicou uma série de estudos sugerindo como as duas coisas podem estar relacionadas. O fato é que o Ártico está perdendo a capacidade de reter suas massas de ar frias. O anel de ventos gelados que contorna o Polo Norte e aprisiona o ar frio em altas altitudes, chamado vórtice polar, vem perdendo a força e deixando escapar parte do frio para regiões de clima temperado.

No início do inverno, é raro presenciar esse fenômeno, já que apenas a camada atmosférica mais próxima da superfície terrestre está aquecida. No entanto, do meio até o final do inverno, o aquecimento atinge também camadas mais altas, chegando ao ponto de mobilizar colunas inteiras de ar. Isso aumenta exponencialmente a probabilidade de criar brechas que permitam ao ar frio, mais alto, escapar. Em outras palavras, o ar gelado do Ártico “pula o muro” e vai tocar o terror em latitudes mais baixas, como em Nova York e Boston – mas também em Londres, Amsterdã e até Veneza, como vimos neste inverno.

O novo estudo acrescenta mais evidências diretas à tese de Francis, que foi objeto de controvérsias no começo da década. Ela e seus colegas Judah Cohen e Karl Pfeiffer aplicaram três métricas para precisar a relação entre as temperaturas árticas mais quentes e o clima severo de inverno nos Estados Unidos. Duas delas incluíram as anomalias de temperatura e uma delas, a intensidade das condições climáticas e sua duração. “A relação é muito forte e o fenômeno tem se tornado mais comum com o aumento do calor do Ártico”, disse Francis.

Em janeiro e fevereiro deste ano, a massa de ar frio que se dispersou do anel de ventos foi tão poderosa que se dividiu em duas: metade dela foi para o norte da Europa e Ásia e a outra metade para o noroeste do Canadá, causando um resfriamento intenso também na região oeste dos Estados Unidos, onde a ligação entre invernos frios e calor polar tem sido menos clara nos registros históricos.

*Texto publicado originalmente em 13/03/2018 no site do Observatório do Clima

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Foto: Adrian Cabrero/Creative Commons/Flickr

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