Ruralistas contratam publicitário para criar campanha em defesa dos agrotóxicos e do “PL do Veneno”

A pressão de parte da sociedade brasileira contra o PL do Veneno – também conhecido como Pacote do Veneno ou Lei do Veneno – que os deputados da bancada ruralista insistem em querer aprovar na Câmara dos Deputados desde maio, pelo visto, está surtindo efeito.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) anunciou, esta semana, a contratação do conhecido publicitário Nizan Guanaes para criar campanha a favor do PL do Veneno e dos agrotóxicos e para melhorar a imagem do setor agropecuário. Não basta mais dizer que o Agro é Pop, tem que fundamentar, mesmo que seja contando inverdades.

Ontem, veículos independentes da imprensa divulgaram novo vídeo que circulava pela internet a favor dos agrotóxicos – aqui chamados de defensivos agrícolas. Ainda não se sabe se a peça faz parte da estratégia do publicitário e de sua equipe, mas o filme é bastante didático, irônico e agressivo já que chama as argumentações contrárias às emendas de fake news. As falas de artistas – tiradas da campanha do movimento 342 contra o PL e os agrotóxicos – são carimbadas com essa expressão, em vermelho. Ao mesmo tempo, imagens debochadas de John Travolta em Pulp Fiction e de John Downey Jr em O Homem de Ferro são usadas para dar um tom engraçadinho à propaganda.

O vídeo diz uma falácia atrás da outra e aposta na ignorâncias da maioria da população sobre o assunto para convencer. Diz que teremos mais fome se não usarmos defensivos agrícolas. Tá provado que isso é mentira: o alimento produzido hoje daria para alimentar a humanidade; a questão é má distribuição de renda.

O filme revela também que os protestos têm viés ideológico e partidário – imagina, na Câmara, deputados de diversos partidos estão contra as emendas! – e que interesses políticos só atrapalham. Ué, mas somos seres políticos e precisamos justamente fazer política para acabar com a impunidade que está aí. Sim, a mobilização é um ato politico! Como deve ser.

Vale assistir ao vídeo, no final deste post, para entender como a publicidade pode mascarar uma situação com tanta habilidade e também a cara de pau dos ruralistas. Ouvi dizer que Guanaes tem a pretensão de limar do vocabulário a expressão bancada ruralista. Ah, os agropecuaristas se sentem muito injustifiçados com essa denominação, afinal. Mas, como ele mesmo disse, em encontro promovido pela Folha de São Paulo, em fevereiro deste ano: “O consumidor não é bobo, sabe o que é anúncio”. Apostemos nisso.

Nizan Guanaes: entre um futuro orgânico e os agrotóxicos

Em 2011, por conta de movimentos dos quais participou, Guanaes tornou-se embaixador da Unesco. O que será que dirá a instituição da ONU quando souber de sua contratação pelo setor agropecuário,que desmata, mata e engana? E, ao contrário do que propaga agora, com seu novo cliente, em 2012 defendeu o desenvolvimento sustentável na Conferência da ONU, no Rio, a Rio+20.

Como se não bastasse, em 2014, declarou, em artigo que escreveu para o jornal Folha de São Paulo – como bem lembrou o jornalistas André Trigueiro esta semana, em seu Twitter – que “a comida do futuro é orgânica. As pessoas estão cada vez mais preocupadas em comer e em dormir livres de substâncias químicas“.

Falou a favor da comida de verdade e contra os agrotóxicos, talvez por interesse próprio (ele tem uma fazenda de alimentos orgânicos), não por ideologia. É sabido que ele transita muito bem entre os agropecuaristas e que, na época da Operação Carne Fraca, bradou que o setor precisava mostrar sua força para o Brasil e o mundo. Que força? A que destrói tudo por ganância?

O povo unido e o PL

O fato é que, apesar de seu tamanho e poder, os ruralistas realmente têm com o que se preocupar. Como disse Guanaes, há 14 anos, as pessoas não querem mais veneno no prato. Por isso, movimentos ativistas têm crescido, ONGs socioambientais, chefs de cozinha, celebridades, deputados conscientes e muita gente comum têm se mobilizado pelas redes sociais – e in loco, em Brasília (foto acima) – contra as emendas ao Projeto de Lei 6299, de 2002, que já é bem ruim.

Os deputados que as defendem – todos com interesses no agronegócio – não só visam a flexibilização da fiscalização, do registro e do controle do uso de agrotóxicos no Brasil, para atender ao lobby de indústrias como Bayer (que comprou a Monsanto recentemente (a Monsanto está sendo julgado estes dias na Califórnia), a Bunge, a Cargill e a Syngenta – gigantes do veneno. Também punem a agricultura familiar e orgânica com restrições e exigências impossíveis de atender.

O projeto voltou ao debate no mês passado com novas reformulações; uma delas diz respeito ao nome dos agrotóxicos. Antes, os parlamentares a favor das emendas no PL 6299 queriam que fosse adotada a denominação fitosanitários. Agora, a proposta é para que os venenos sejam chamados de pesticidas, já que combatem pragas. E, assim, amenizam a imagem de toxicidade inerente a esses produtos, que não só atingem quem os manipula, como quem consome tudo que com eles for pulverizado. Mas esta é uma das questões a tratar.

Esta semana, a votação recomeçou na segunda (18/6) e foi adiada para quarta (20/6), mas foi interrompida por causa da suspeita de uma mala deixada na sala onde a votação acontecia. Na página do PL 6299, no site da Câmara, consta que a Comissão Especial que trata desse PL se reunirá novamente no próximo dia 25/6 para finalizar a votação.

Então, dissemine este encontro, incentive para que todos escrevam para os deputados pedindo para não aprovarem as emendas. Unidos, jamais seremos vencidos! Agora, assista ao vídeo da campanha indigesta:

Foto: Reprodução do vídeo e Abrasco (protesto na frente da Câmara)

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na Claudia e Boa Forma, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, considerado o maior portal no tema pela UNF. Integra a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade.

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