Rituais de passagem e cerimônias cínicas

1382567_743478642345009_970334021_o

São  doenças tratáveis a pneumonia, a diarreia, a gastroenterite, mas mataram 99 crianças indígenas menores de 5 anos, em 2015. Mal tiveram  tempo para  sentir a terra plantada no coração.  Foram abatidos antes. Não eram Xetás, como a garotinha pintada pelo artista plástico paranaense Silvio Rocha. Digo quase que com certeza  que não eram porque os  Xetás estão praticamente extintos. Dá para contar na palma da mão quantos restam.  Rituais de passagem os pequenos também não tiveram tempo de saber o que é. Há muito ficaram para trás cerimônias como uma dos Xetás que me foi contada pelo Silvio.

Aos 5 anos, diz ele, os pequenos ganhavam seus nomes. Deixavam de ser indistintamente Tiquem (para os meninos) e Tigua (para as meninas).  Um adereço no queixo chamado Tembetá , feito de resina da árvore jatobá, anunciava  que a criança já havia feito a passagem. Entrara numa nova fase da vida.  Nova fase…

1382582_743478209011719_1720667178_o

É… Faz pensar…  Está cada vez mais difícil registrar novas fases nas comunidades indígenas. Entra ano, sai ano e os relatórios que demonstram o descaso com essa população só pioram. Invasão e devastação de terras demarcadas  continuam constantes, com agressões, assassinatos, espancamentos, ameaças de morte e terras ocupadas.

1388238_743478362345037_541215755_o

As áreas dos Xetás foram tomadas pelas cafezais. Não sobraram árvores para abrigar os pássaros que doariam suas penas do peito para fazer os adereços na orelha que eram colados no cabelo com cera de abelha. Nenhum respeito a esse povo que tenta sobreviver desde a Idade da Terra Polida. Silvio cuidou de pintar o martelo para indicar a ancestralidade dessa tribo genuinamente paranaense, que habitou o noroeste do estado e vai sumindo como tantas outras pelo Brasil afora.

Poucos ficam sabendo, mas agravam-se o número de ataques milicianos contra os acampamentos das comunidades Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Até práticas de tortura como a quebra cruel de tornozelos de ancião foram realizadas.

E a morte de Euzébio Ka’apor, que liderava seu povo na luta pela defesa de seu território no Maranhão e lutava contra a exploração madeireira e foi assassinado a tiros?

E o assassinato do Guarani Kaiowá Simeão Vilhalva, no Mato Grosso do Sul, pelos fazendeiros e políticos da região do município de Antônio João? Aqueles mesmos que promoveram um ato público para a população  se rebelar contra a comunidade indígena de Ñhanderu Marangatu… Os indígenas tentaram recuperar parte de seu território, mas não índios continuam lá, emparedando os donos da terra.

E… São muitos es… A lista é interminável e vergonhosa.

1400912_743478455678361_1597911294_o-1

Como em anos anteriores, em 2015, pouco se avançou nos processos de regularização das terras indígenas. Como é possível que, até hoje, as terras tradicionais ainda não tenham sido demarcadas, sendo que, pela previsão constitucional, isso deveria ter acontecido em 1993, há mais de 20 anos? De acordo com o levantamento do relatório de Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2015, publicado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) em 31 de agosto de 2016, 654 terras indígenas no Brasil aguardam atos administrativos do Estado para terem seus processos demarcatórios finalizados. Esse número corresponde a 58,7% do total das 1.113 terras indígenas do país.

1387541_743478282345045_153439565_o

Os dados evidenciam que, em 2015, também permaneceu a situação de constante invasão e devastação das terras demarcadas; assim como se manteve a realidade de agressões às pessoas que lutam por seus legítimos direitos, com casos de assassinatos, espancamentos e ameaças de morte.

Realidade surreal, mostrada em arte surreal. Cercas cravadas em corpos. Incêndios queimando peles… A humanidade diversa como que desaparece nas fagulhas que se apagam. Populações dizimadas. A cultura e a história vão ficando confinadas a museus e salas de exposição. A língua vai se extinguindo. O acervo dos objetos usados pelos Xetás só pode ser visto no Museu Paranaense, em Curitiba. Restou, ainda, o que cineasta tcheco Vladimir Kozak registrou dos costumes da tribo em filmes, fotografias e desenhos que também estão nesse museu.

As obras de Silvio são mostradas, às vezes, em escolas aqui no Brasil, outras vezes em exposições no exterior. Necessidade de pressão e respeito. Coração apertado e urgência. Ele só sabia que precisava mostrar as nossas raízes se perdendo, secando com cada vez menos terra para buscar água e alimento. Do talento que não precisa de escola, da alma que só pede para extravasar sentimento. Vem daí a beleza triste, a dor pulsante, o grito mudo das obras desse autodidata. E dessa realidade plasmada na injustiça e estagnada na falta de mudança cercada por interesses mesquinhos de gente nascida com belos nomes e sobrenomes. Gente que não tem direito, mas se esbalda em dinheiro e se perpetua no poder em cerimônias cínicas. Gente que não vai descansar nem no túmulo com essa dívida social sem precedentes.

1375515_743478725678334_749155212_o

Imagens: Reprodução

Karen Monteiro

Com arte, tá tudo bem. Se as exposições, peças de teatro, shows, filmes, livros servirem de gancho  para falar de questões sociais e ambientais, tanto melhor. Jornalista, tradutora, cronista, fez reportagens para grandes jornais, revistas, TVs. Além do Arte na Roda, mantém seus escritos poéticos, inspirados em música, no PARA DE GRITAR ISSO SEU IRRESPONSÁVEL. Não, não renega sua especialização em Marketing. Resolveu tirar da experiência subsídios para criticar o consumismo desenfreado.

3 comentários em “Rituais de passagem e cerimônias cínicas

  • 26 de setembro de 2016 em 9:53 AM
    Permalink

    Parabenizo a Equipe Conexão pela iniciativa da matéria denúncia! Precisamos de centrar esforços para denunciar toda e qualquer violência, incluindo as omissão do Poder Público, contra os Povos Indígenas. Abraço fraterno em cada um de vocês!

    Resposta
    • 28 de setembro de 2016 em 9:57 PM
      Permalink

      Obrigada Fátima. Omissão, descaso, tristeza… São algumas das palavras que me vem quando penso na situação dos Povos Indígenas. Que a sua indignação, que a nossa indignação, traga a indignação de mais outro e de mais outro. Abraço para você também.

      Resposta
    • 28 de setembro de 2016 em 10:01 PM
      Permalink

      Obrigada Fátima. Omissão, descaso, tristeza… São algumas palavras que me vem quando penso na situação dos Povos Indígenas. Que a sua indignação, que a nossa indignação, possa provocar a indignação de mais um, de mais outro…Abraço para você também.

      Resposta

Deixe uma resposta