Rio Tietê fica tomado por lixo plástico depois de forte chuva, no interior de SP

Rio Tietê fica tomado por lixo plástico depois de forte chuva, no interior de SP

Algo está muito errado. Por diversas décadas, a indústria de bens de consumo responsabilizou governos e consumidores por não reciclarem embalagens. Plástico é reciclável, certo? O problema não é nosso! É dos outros!

Mas agora está na cara que isso é uma mentira. O problema do impacto do lixo plástico no meio ambiente está fora de controle. E fotos e vídeos impressionantes feitos ontem (18/02), ao longo do Rio Tietê, no interior de São Paulo, só aumentam ainda mais a certeza de que algo precisa ser feito urgentemente.

Por causa da forte chuva dos últimos dias, o Rio Tietê transbordou na região de Salto e o que se viu foi uma imagem perturbadora: milhares de embalagens plásticas flutuando sobre ele, sobretudo, garrafas PET, sacolas plásticas e isopor.

A cidade de Salto, que fica a pouco mais de 100 km da capital paulista, é uma região turística. Muitas pessoas vão até ali, justamente para ver como o Rio Tietê é limpo antes de chegar na grande São Paulo e se tornar tão poluído. Meu filho, quando mais novo, fez uma visita com a escola e voltou para casa surpreso com o que viu lá na época: um rio que nem fazia lembrar aquele sujo e mal cheiroso que ladeia as marginais.

Ontem a quantidade de lixo era tão grande, que a prefeitura de Salto fechou algumas atrações, como o Memorial do Rio Tietê, principal ponto turístico da cidade, o Complexo da Cachoeira e o Parque de Lavras.

Em alguns bairros, o nível do rio subiu tanto que inundou casas.

Plástico: hora de reduzir e substituir

Recentemente, uma organização internacional denunciou que enquanto multinacionais lançam a “Aliança pelo Fim do Lixo Plástico”, nos bastidores, investem em novas fábricas… de plástico.

“Sem combater a produção de plástico na sua origem, todos os esforços de limpeza e de reciclagem serão em vão ”, alertou a European NGO Recycling Network, organização não-governamental, sediada na Holanda.

No começo de janeiro, 30 companhias internacionais anunciaram o lançamento de uma aliança para combater o problema do lixo plástico. As empresas envolvidas na Alliance to End Plastic Waste se comprometeram a investir US$ 1 bilhão nos próximos cinco para promover soluções, com escala global, para o uso do plástico reciclado dentro da chamada economia circular.

“É um pequeno passo da indústria finalmente reconhecer o enorme problema provocado pelo plástico. Mas é triste que eles ainda se apeguem à medidas simbólicas e no final do processo. Dado o fato de que planejam uma enorme expansão de sua produção, a aliança parece ser nada mais que uma grande operação de greenwashing”, alerta a entidade.

Segundo a organização, por ano, são produzidas 400 milhões de toneladas de plástico no mundo, que em sua grande maioria é transformada em embalagens… utilizadas, geralmente, uma única vez e depois descartadas no lixo.

“Esse tipo de ação visa salvar a imagem do plástico. Mas os plásticos não têm um mero “problema de imagem” – o uso exagerado em produtos com uma vida útil curta é um problema em si mesmo”, afirma Rob Buurman, diretor da Recycling Netwerk. “Portanto, as questões que permanecem são como essas empresas gastarão o dinheiro do fundo da aliança e ainda, se haverá supervisão externa. Existe um risco real de que esse acordo seja apenas, mais uma campanha de marketing”.

Já passou da hora das indústrias reduzirem o uso desse tipo de material e o substituírem por outras alternativas, especialmente, aquelas biodegradáveis, como o papel, ou retornáveis, como o vidro.

Leia também:
Multinacionais lançam projeto piloto com embalagens duráveis e entrega em casa para combater lixo plástico
Livraria troca garrafas plásticas e latinhas de alumínio por livros infantis
Pasta de dente precisa mesmo ser vendida em caixa? Os islandeses decidiram que não!
Projeto de lei que restringe uso de plástico no Brasil ganha enorme apoio popular. Agora só falta virar lei!
Fernando de Noronha proíbe uso e venda de plásticos descartáveis
Isopor: reciclável ou não?

Foto: Anderson Cerejo/TV TEM

Suzana Camargo

Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante 6 anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, vive agora em Washington D.C.

Deixe uma resposta