Ricardo Salles nega desmonte do ministério, é vaiado e foge do debate em encontro sobre meio ambiente no Congresso

O desmonte da política ambiental é um fato. Tanto que diversos representantes da sociedade, incluindo ex-ministros do meio ambiente, têm se pronunciado desfavoráveis e bastante preocupados com as decisões de Ricardo Salles, ministro de Bolsonaro à frente dessa pasta. Mas, Salles – em qualquer pronunciamento – insiste em dizer que o ministério e seus órgãos foram, sim, desmantelados nas gestões anteriores – leia-se do PT, não se refere a Temer -, dizendo que as acusações que pesam sobre sua gestão são inverídicas.

Foi o que fez no Congresso Nacional esta semana, durante encontro que marcou o Dia do Meio Ambiente, 5 de junho. Ele não poderia deixar de comparecer já que é o responsável por esse ministério, mas, na presença de parlamentares, de Raquel Dodge, procuradora-geral da República, Herman Benjamin, ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e de uma galeria lotada de representantes dos povos indígenas, ativistas ambientais e representantes de ONGs, que ele detesta, mais uma vez, ele mentiu. Como disse o senador Randolfe Rodrigues, depois de Salles, talvez tivesse sido melhor ele não comparecer.

Salles chamou de “inverídicas” as acusações de que está destruindo a estrutura da pasta e relaxando a fiscalização contra criminosos ambientais, em qualquer instância, mas principalmente para combater o desmatamento. “Com relação aos nossos órgãos que desempenham um papel importante nesse trabalho, o Ibama e o ICMBio, e à frase que tem sido dita, do desmonte, é absolutamente inverídica. Ao contrário, o desmonte foi herdado”, afirmou. 

Assim que começou a falar, os presentes que tomavam a galeria viraram de costas. Em alguns momentos, o vaiaram. E ele bradou: “Podem se manifestar à vontade. O desmonte do qual falam foi herdado de gestões anteriores. Quem recebeu a fragilidade orçamentária fui eu; quem recebeu um déficit gigantesco de funcionários, fui eu; quem recebeu frotas sucateadas e prédios abandonados, fui eu. Portanto, se houve desmonte, foi antes e não agora”.

O ministro do meio ambiente ainda completou a frase dizendo que, agora, está tentando reverter essa situação, fazendo uma “boa gestão e investimentos mais eficientes”.

No final de sua fala, quando a senadora Eliziane Gama, que presidia a sessão, avisou que o ministro teria de sair devido a um compromisso, vieram mais vaias e os gritos de “fujão”. Nesse momento, o senador Randolfe Rodrigues já estava ao microfone para se pronunciar e pedir ao ministro que ficasse um pouco mais para responder a, pelo menos, uma pergunta, mas não foi atendido. 

Eliziane também pediu que ele ficasse para aguardar o questionamento de Randolfe, mas foi em vão. Com a cara de pau que lhe é peculiar, Salles se despediu dos membros da mesa – sob vaias e gritos de “fica” – e saiu do plenário. Sim, ele tinha que estar no Rio de Janeiro às 14h, mas não custava ter ouvido Randolfe. No entanto, essa é a atitude dos membros deste governo, que fogem do diálogo. É só pesquisar pra ver quantas vezes seus representantes fizeram o mesmo. É uma das marcas registradas do governo Bolsonaro, como também a mentira.

Para alguns jornalistas, do lado de fora do plenário, ao ser questionado sobre a reação do público presente, Salles disse, cínico: “A democracia é assim, cada um pode ter a reação que quiser”. De acordo com alguns sites, ele estava visivelmente constrangido.

Agora, me atenho ao discurso emocionado de Randolfe Rodrigues, que disse, logo de início: “Nunca a verdade foi tão violentada neste plenário, como no dia de hoje. Nunca vi tanto ato de covardia nesta tribuna, como no dia de hoje. O ministro teria feito melhor se não tivesse comparecido. Para comparecer, vomitar mentiras e sair fugidio, covardemente, era melhor não ter vindo”. E continuou:

“O ministro me obrigou a fazer outro discurso para desmentir as mentiras dele. Talvez, no dia de hoje, a melhor homenagem ao meio ambiente é repor a verdade que o senhor ministro acabou de violentar. Então, na reposição da verdade, começo pelo seguinte: a verdade é que o atual ministério do meio ambiente, do senhor Jair Bolsonaro, ofende o Acordo de Paris, ofende os tratados internacionais contra as mudanças climáticas. Mas vamos aqui à lista de mentiras. Sim, não tem outra palavra para definir o que ele disse. Mentiras deste senhor que, na verdade, não é ministro do meio ambiente, deste senhor que fugidio daqui saiu porque tem medo de escutar as verdades, tem medo de escutar os ambientalistas, tem medo de escutar a resposta ao que ele falou”.

Este governo ofende qualquer acordo global de mudanças climáticas de que o Brasil participa. A primeira demonstração concreta disso, ao contrario do que ele disse aqui, é que a Secretaria de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente, no primeiro dia de sua gestão, foi extinta. Que ato mais concreto que prova a inverdade apresentada por ele?”.

“Então, como há um reconhecimento em relação ao aquecimento global, como ele disse? Como o governo reconhece as mudanças climáticas se o Brasil, entre 168 países, só o Brasil e os Estados Unidos não subscrevem o acordo global contra a expansão do plástico? E o Brasil faz isso de forma vergonhosa!”.

“Tivemos ministros que muito honraram essa cadeira do meio ambiente, que colocaram o Brasil numa posição de vanguarda na questão ambiental, que foi sede de uma conferência do meio ambiente em 1992, que sediou, vinte anos depois, outra conferência de meio ambiente, que avançou, ao longo do tempo, em matéria de preservação ambiental! Somos motivo de vergonha global. E o ministro vem aqui, diante de autoridades ambientalistas, diante de povos indígenas, dizer que reconhece o aquecimento global?”.

“Esse mesmo ministro mente em relação ao Fundo Amazônia. Esta é a segunda mentira. Ele esqueceu de dizer que já foram aplicados, em governos anteriores, de diferentes partidos, do PSDB, do PT, do PMB – cerca de 3,8 bilhões de reais do Fundo Amazonia, um fundo doado pelos países ricos para que nós tenhamos um papel destacado contra o aquecimento global, para que preservemos a Amazônia. Neste governo, tem 1,8 bilhões de reais e 103 projetos na Amazônia paralisados. E o cara de pau do ministro vem aqui falar sobre a utilização desse fundo e esquece de dizer que, na verdade, a intenção deste governo, é destinar o fundo – pasmem! – para quem desmatou o meio ambiente, para grileiros, para ruralistas!”.

Esta é a terceira mentira: ele disse, na cara de pau, que não desmontou o ministério do meio ambiente. Pois saiba, senhor ministro, que desmontar o ministério do meio ambiente significa paralisar o ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, paralisar o Ibama, paralisar as instituições, colocar as instituições que reprimem crime ambiental como complica dos crimes ambientais”.

“Deste ministro e deste governo eu não espero nada de bom. De um presidente da República cúmplice de crime ambiental, que foi pego literalmente com varinha de pescar na mão, em Angra dos Reis, numa estação ecológica, combinado com o ministro que é autuado por grilagem. Um governo que tem representantes que praticam crimes, só pode reproduzir crimes. Só pode querer liberar arma pra todo mundo, só pode querer flexibilizar legislação de trânsito”.

Aliás, já vi muita perversidade no mundo, mas um governo – me permitam um parêntese no debate ambiental – que libera cadeirinha de bebe em carro para dar proteção às crianças, e flexibiliza multa em relação a isso, não sei mais do que pode ser capaz”.

“A quarta mentira do discurso do ministro: ele fala em preservação de ecossistemas. Mas ele acabou de anular um decreto que criou a maior área protegida de araucária no Paraná. Anularam um decreto!!”.

“Por fim, a quinta mentira dita por ele foi sobre o MapBiomas. Eu ouvi direito? Ele disse pra nós aqui, que foi obra dele? O MapBiomas é de autoria da sociedade civil que ele expulsou do ministério do meio ambiente. Essa é a autoria”.

Randolfe reconheceu que foi impossível anotar todas as mentiras ditas por Salles e terminou sua fala no plenário declarando que sua atitude naquela casa merece um pedido de impeachment. “Mentir no exercício dessa função é crime de responsabilidade. Eis um tema para ser analisado pela Procuradoria Geral da República, que, acho, caberia a nós representar”.

Estou torcendo por isso, aqui. Precisamos iniciar o desmonte deste ministro antes que o meio ambiente no Brasil acabe.

Foto: Edimilson Rodrigues/Agência Senado

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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