Ricardo Salles mente e revela falta de compaixão e de diálogo na conferência do clima da ONU, em Madri

Ministério Público de SP pede saída do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, já condenado pela justiça

Não deveríamos, mas ainda nos indignamos com as atitudes vexaminosas e de pouca humanidade do ministro do meio ambiente. Afinal, apesar de tudo que temos vivido com este governo, ainda está muito vivo, dentro de nós, o conceito de democracia. Além disso, para manter uma relação amigável com outros países, é preciso manter certos princípios. Mas sabemos que o governo Bolsonaro não se importa com isso, a começar por ele. E o mundo está compreendendo isso, agora

Na Conferência sobre Mudanças Climáticas (COP25), da ONU, em Madri, Salles disse, em encontro com a imprensa em 4/12, que a Alemanha – doadora do Fundo Amazônia, junto com a Noruega, até este ano – “já topou” a nova proposta de financiamento de ações de conservação da floresta. “Entregamos uma minuta aos doadores, que estão estudando a proposta. A Alemanha já topou. Falta a Noruega”.

Vale lembrar que, desde sua criação, em 2008, o Fundo já recebeu R$ 3,4 bilhões, tanto para apoiar projetos de desenvolvimento sustentável como para ações de combate a incêndios. A Noruega era o maior doador do Fundo (mais de 90%) e a Alemanha é o maior parceiro de projetos socioambientais em nosso país. Ambos desistiram manter o financiamento devido à interferência do governo no processo e no conselho que o geria, e, desde então, Salles já fez algumas tentativas de reverter as negociações.

O ministro mentiu descaradamente num encontro internacional (não foi a primeira vez) e, claro, foi logo desmentido em nota divulgada pela Embaixada da Alemanha, em Madri: “A Embaixada da Alemanha recebe com espanto as declarações sobre o Fundo Amazônia veiculadas nestes últimos dias”. E completou: “A Embaixada recebeu no início desta semana uma proposta formal do BNDES para reformular o Fundo Amazônia, autorizada, segundo o BNDES, pelo ministro Salles. Esta proposta está em avaliação e a Alemanha não comentou o assunto até o momento com o lado brasileiro. A avaliação será realizada em estreita cooperação com a Noruega”.

Mentiras sinceras lhe interessam. Leia este texto para ter dimensão da síndrome de Pinóchio que acomete o ministro: Mentiras, falácias e desinformação na resposta de Ricardo Salles à carta dos ex-ministros do meio ambiente.

Como se não bastasse esse vexame, ontem, 9/12, Ricardo Salles protagonizou mais uma participação deplorável na COP25, em encontro com ambientalistas e ONGs: Brasil na COP-25: Um Diálogo sobre Ambição Climática.

Entre os presentes ao encontro realizado no Brazil Climate Action Hub, estavam Caetano Scannavino, um dos diretores do Projeto Saúde e Alegria (que teve sua sede invadida pela polícia civil no mesmo dia em que prenderam brigadistas em Alter do Chão), Sonia Guajajara, coordenadora da Apib – Associação dos Povos Indígenas Brasileiros, a primeira deputa federal indígena do país, Joênia Wapichana, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, além das ex-ministras do meio ambiente, Izabella Teixeira e Marina Silva, estas, confirmadas pouco antes do encontro começar, e de Karina Penna, da delegação dos jovens, que foi a primeira a falar.

“Quando se diz que clima é apenas o derretimento das calotas polares, este tema parece muito longe de nós. Mas não!”. E cobrou: “O governo brasileiro tem se mostrado muito habilidoso em alguns acordos econômicos, mas esperamos que fale algo também pelo clima”.

Em seguida, Scannavino pediu um minuto de silêncio pelos indígenas Guajajara assassinados na semana passada. “Eu acho que a delegação brasileira, aqui, tem que se unir. Direita, esquerda, governo, não governo, para que não tenhamos mais derramamento de sangue na Amazônia. Porque os caciques que morreram têm nome: Firmino Praxede e Raimundo Belnício Guajajara. E que isso não se repita mais”, disse, diante de um ministro visivelmente constrangido.

Todos se deram as mãos no momento em que silenciaram. Exceto Salles, que as cruzou atrás do corpo (como é possível ver na foto abaixo e no vídeo no final deste post), numa atitude fria e de não reconhecimento ao que acabara de ser proposto pelo ambientalista.

“Não é ONG versus progresso, desenvolvimento versus ambiente”

Assim, Scannavino continuou sua fala. “Não temos que discutir desenvolvimento, mas o modelo. Se é para frente ou para trás, se é para poucos ou para muitos”. Sobre o ataque à sua ONG, destacou: “Todos sabem que nós não botamos fogo em florestas. As investigações federais desmentem a Polícia Civil. Foram momentos de pesadelo. Queremos que nossos equipamentos e nossas notas fiscais sejam devolvidos. Daqui a pouco, ficaremos sem poder prestar contas, ficaremos inadimplentes”.

Ele ressaltou, ainda, que, nos últimos dez anos, o desmatamento na Amazônia liquidou com uma área equivalente a “duas Alemanhas”, lembrando que florestas foram derrubadas para dar lugar a pastagens de baixa produtividade ou a áreas que, depois, foram abandonadas. “Desmatamos para ficarmos mais pobres”, resumiu.

“Temos que encontrar uma conversa que abrigue divergências e pensamentos distintos. A matança que ocorre na Amazônia só nos envergonha, como país e como brasileiros”, concluiu o ambientalista.

Salles foi para falar, não para escutar

Logo que a homenagem aos Guajajara mortos terminou, sem nenhuma emoção o ministro do meio ambiente começou a falar. Voltou a insistir num dos principais objetivos de sua presença na COP25: convencer os países ricos a financiarem a proteção da Amazônia. Disse que é preciso “encontrar pontos de convergência para avançar” na luta pela preservação das florestas.

“Temos de conseguir encontrar uma fórmula através da qual os maiores emissores de gases de efeito estufa da história recente da humanidade se responsabilizem efetivamente por aquilo que produziram, as florestas que suprimiram, quase na sua totalidade, as ações que tomaram e continuam tomando, porque os combustíveis fósseis continuam sendo a maior parte das emissões”, explicou Salles. “É importante essa ação conjunta porque é dali que virão os recursos para a manutenção da floresta em pé.”

Citou negociações já em curso relacionadas à regulamentação de transações do mercado de carbono. O governo brasileiro diverge dos demais países signatários do Acordo de Paris e defende que aqueles que vendem créditos de CO2, como o Brasil, deve descontar tais emissões da suas metas de redução de gases de efeito estufa.

Mas a cara de pau não tem limites. Salles mantém a pompa, mas, nas negociações diplomáticas, nosso país está enfraquecido por conta do passivo ambiental registrado em 2019: o maior desmatamento da Amazônia dos últimos onze anos.

O ministro destacou também a “monetização dos recursos ambientais”. Disse que quer promover a bioeconomia em regiões florestais para combater o desmatamento e tornar as atividades ilegais menos “atrativas”. Destacou que “a floresta vale mais em pé” e que, na Amazônia, “80% dos cidadãos vivem nas cidades” e “precisam de emprego, renda e recursos, que deverão vir da biodiversidade” da floresta. E finalizou assim: “É a região mais rica do Brasil em termos de recursos naturais, mas com o pior Índice de Desenvolvimento Humano. Nós deixamos para trás as pessoas, e sem cuidar das pessoas, é difícil cuidar do meio ambiente”.

Discurso incoerente para um governo que não fez nada para proteger as florestas dos incêndios e do Dia do Fogo este ano. Desestruturou órgãos de fiscalização e negou os alertas e os dados do Inpe: Bolsonaro demitiu seu diretor por não estar de acordo com a posição do governo. Muito cinismo.

Em seguida, Salles agiu como sempre: levantou e foi embora. Foi lá para falar, não para escutar, o que deixou a maioria dos presentes indignada. E, assim, não ouviu a deputada Joênia Wapichana, as ex-ministras do meio ambiente e nem o presidente do Senado.

“Precisamos cuidar de quem cuida do planeta”

Davi Alcolumbre começou sua participação no encontro dizendo que o Congresso será uma trincheira. “Não aceitaremos retrocessos na política ambiental. Não iremos pautar matérias que possam ameaçar as florestas e os povos tradicionais”, assegurou o parlamentar, que acrescenta: “Rodrigo Maia (presidente da Câmara dos Deputados) e eu temos liderados esta frente, de fazer o que é certo”. Vamos ver.

E destacou o que considera que deve ser o objetivo maior do Brasil na COP25: “Precisamos sair daqui com uma solução para o artigo sexto. Se a gente conseguir precificar a floresta, teremos mais defensores. O Brasil, pela primeira vez, aceitou autorizar Estados e municípios a acessar a venda de ativos florestais. Mas precisamos de regularização”.

Joênia lamentou a saída do ministro e salientou: “Eu gostaria de estar aqui e dizer coisas boas, que o Brasil é um país da democracia, que temos redução no desmatamento, que valorizamos os guardiões da floresta. Mas estamos passando por um retrocesso, e temos que deixar de recuar em leis que já foram aprovadas”. Ela ainda citou o “medo muito grande da sociedade civil e dos povos indígenas”, lembrando que “as terras indígenas são estratégias de conservação da biodiversidade” e que “a impunidade está por trás das mortes dos índios”.

E terminou com um lindo chamamento: “No caminho para cá, vi cartazes que diziam que está na hora de cuidar do planeta. Digo que está na hora de cuidar de quem cuida do planeta”.

Negacionista e antiambientalista

A programação oficial do encontro não incluía as presenças de Marina Silvia e de Izabella Teixeira. Ambas falaram no final.

A ministra do meio ambiente de Dilma (2011 a 2016) – que integra o Painel de Alto Nível de Pessoas Eminentes para a Agenda de Desenvolvimento Pós-2015 da ONU -, destacou que “o Brasil está aumentando o desmatamento” e criticou a credibilidade do país no exterior: “não a reconheço mais”, enfatizando que a defesa do meio ambiente não é uma agenda ideológica: “à esquerda ou à direita”. Se referindo ao comportamento de Salles, Izabella comentou que a COP25 “não é lugar de barganha, mas de convergência. Não é lugar de bravatas”, completando: “É fácil falar de democracia e excluir a participação da sociedade”.

Marina concordou com Izabella sobre a agenda do meio ambiente, dizendo que não se trata de ideologia, mas de “fazer parte do mundo ou estar fora” e, ainda, que precisamos de um projeto regional de desenvolvimento da Amazônia.

Também lamentou que um país que “já foi visto como parte da solução, tem sido visto como um grande problema”. Sim, já fomos protagonistas na luta contra as mudanças climáticas e pela conservação da biodiversidade, como em suas respectivas conferências.

“Temos um governo que nega a mudança do clima, mas que, aqui, quer barganhar. Diz que, para fazer algo, precisa do dinheiro dos países desenvolvidos. Recursos são bem-vindos, como foi o Fundo Amazônia, mas este governo quer desviar as finalidades do fundo, para viabilizar áreas griladas na Amazônia”, afirmou, reforçando as denúncias do desmonte de órgãos como o Ibama, o ICMBio e o Inpe.

“Hoje, estão todos sendo sucateados e desmoralizados. E não vamos assumir retrocessos no Congresso como projetos de mineração em terras indígenas e de regularização fundiária por autodeclaração”. E destacou que isso não significa compromisso com partidos ou ideologias, mas “com a humanidade”.

E finalizou criticando a política ambiental do governo: “O Brasil poderia estar dando uma das maiores contribuições ao clima, mas não faz porque deliberadamente não quer. O governo Bolsonaro é incompetente para lidar com mudança do clima”. E afirmou que “Salles é o primeiro ministro antiambientalista do Brasil”.

Não esqueçamos que, logo que a COP25 começou, o Brasil ganhou destaque nos noticiários dos primeiros dias da COP25 por conta das declarações de Salles em coletiva de imprensa em novembro. A ONG  Climate Action Network (CAN) ficou atônita com seus planos e escreveu o artigo We Burn, You Pay: Brazil’s Brand New Negotiation Tactic.

Salles, processado e condenado

O ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, deveria estar respondendo aos crimes que tem cometido desde que foi secretário de meio ambiente de São Paulo, no governo de Geraldo Alckmin. Por um deles, foi condenado por improbidade administrativa – por ter alterado mapas de área de proteção ambiental para favorecer uma construtora -, mas recorreu. E o processo ainda está correndo.

Agora está sendo processado de novo: desta vez por enriquecimento ilícito.

É bem possível que sua ficha suja na área ambiental tenha sido um grande incentivo para Bolsonaro convidá-lo para assumir o ministério do meio ambiente. E ele tem sido bastante eficiente para que o projeto desenvolvimentista do governo seja cumprido. Ninguém pode negar. Um bom companheiro, mesmo.

Assista, agora, ao vídeo da Mídia Ninja que revela Salles com as mãos cruzadas para trás, durante o minuto de silêncio em homenagem aos indígenas Guajajara assassinados no Maranhão.

Fontes: Mídia Ninja, Revista Fórum, Estadão, O Globo

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Mônica Nunes

Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.

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